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1596 Palavras
O restaurante escolhido era elegante, com paredes de vidro que deixavam a luz natural realçar os tons terrosos do ambiente. Fica a poucos quarteirões da Corp Group Brasil, e Isa se sentia mais leve ali, longe da pressão e do olhar insistente de Dante Montenegro. — Amiga, você não vai acreditar — disse Isa assim que se sentou com Júlia à mesa, tirando os óculos escuros. — O homem da boate, o que eu dormi... é o dono da empresa onde fui contratada. Júlia arregalou os olhos e largou o cardápio. — Você tá brincando? Tipo... ele é o CEO? Isa apenas assentiu, suspirando. — E o pior? Ele sabia quem eu era o tempo todo. Me contratou. Me colocou na sala ao lado da dele. E vive me encarando como se nada tivesse acontecido. — Meu. Deus. — Júlia levou a mão à boca, dramática. — Isso é coisa de filme, Isa! E você não desconfiou de nada? — Claro que não! Achei que nunca mais fosse vê-lo na vida... e agora ele está ali, me cercando, se fazendo de sedutor. — E você ainda acha que isso é um problema? Isa revirou os olhos. — O problema, Júlia, é que ele me deixou confusa. Ele tem esse... esse jeito. Ele me toca com o olhar, me provoca, me invade. Eu fico toda... bagunçada. Júlia riu. — Tô começando a achar que você tá gostando desse joguinho. — Não estou! — Isa respondeu rápido demais, o que só arrancou mais risos da amiga. — Eu só quero fazer meu trabalho. Me estabilizar. E esquecer esse homem. O garçom chegou e elas pediram os pratos. Enquanto esperavam, Isa tomou um gole de água e respirou fundo. Estava mesmo tudo virando um caos outra vez? — E você, como anda com o jogador casado? — ela perguntou, mudando de assunto. — Amiga... ele mandou mensagem hoje dizendo que me amou ontem. Acredita nisso? — Júlia riu. — E eu nem lembrava o nome dele até então. Isa sorriu, aliviada por um momento de descontração. Mas a paz durou pouco. Seu olhar se desviou automaticamente para o lado direito do restaurante, e o coração deu um solavanco. Dante. Sentado a uma mesa distante, mas visível, ele parecia tranquilo, confiante, conversando com uma mulher loira, alta, com curvas marcadas por um vestido justo e um sorriso encantador nos lábios. Isa travou. — O que foi? — perguntou Júlia, notando a mudança no semblante da amiga. — Ele está aqui — Isa murmurou, sem conseguir desviar os olhos. — Ele quem? Ah... ele. — Júlia acompanhou seu olhar e soltou um assobio baixo. — Uau. A loira é bonita. — E íntima — completou Isa, sentindo um gosto amargo subir pela garganta. Ela viu quando a mulher riu de algo que Dante disse e pousou a mão no braço dele com familiaridade. Ele não notou Isa ali. Ou fingiu não notar. — Quer ir embora? — perguntou Júlia. Isa hesitou por alguns segundos, mas então se forçou a olhar de volta para a amiga. — Não. Eu vou terminar meu almoço. Eu não sou o tipo de mulher que foge. — Essa é minha garota — Júlia disse com orgulho. Isa sorriu, mas por dentro, havia uma pontada incômoda que ela não conseguia ignorar. Assim que Isa e Júlia deixaram o restaurante, ainda com as palavras engasgadas na garganta de Isa, Dante Montenegro inclinou o corpo levemente para frente e encarou a mulher à sua frente com um meio sorriso calculado. — Ainda não entendi por que esse almoço precisava ser presencial, Valentina — ele comentou, cruzando os braços sobre a mesa. A mulher loira riu baixo, girando a taça de vinho nas mãos com elegância. Usava um batom vermelho intenso e um vestido que chamava atenção, mas nada nela era casual. — Porque eu adoro ver sua cara quando me encontra desprevenido — ela respondeu. — Além disso, tem coisas que não se dizem por telefone. Principalmente entre sócios com histórico... íntimo. Dante sorriu de lado, mas seus olhos endureceram. — Nosso histórico terminou no momento em que você confundiu cama com poder. Valentina arqueou uma sobrancelha. — Uau. Isso soou quase como mágoa. Foi tão r**m assim? — O problema nunca foi o que rolou entre a gente, e sim o que você queria que fosse. Eu deixei claro desde o começo. — Claro como lama, querido. Mas tudo bem — ela inclinou o corpo, apoiando os cotovelos na mesa. — Agora me diga... quem é a morena com quem você transou e contratou sem passar pelo RH? Dante parou de sorrir. — Está vigiando minha empresa? — É a minha empresa também, Montenegro. Vinte por cento dela, lembra? Tenho o direito de saber quem está se envolvendo com quem. Principalmente quando afeta a estrutura. Ele tomou um gole do vinho, sustentando o olhar dela. — Isa Mendes não afeta nada. Ela foi contratada porque tem talento, currículo e é a profissional certa para a vaga. — Jura? — Valentina riu, debochada. — Porque ontem à noite, pelo que ouvi nos corredores, ela parecia mais envolvida com outras... habilidades. Dante manteve a calma. — Você não tem o direito de se meter na minha vida pessoal, Valentina. Nem de tentar sabotar alguém só por ciúme. — Não é ciúme, Dante. É poder. E você sabe disso. O silêncio entre os dois ficou denso. E então, sem aviso, Valentina sorriu com suavidade venenosa. — Só estou dizendo... cuidado com as distrações. Você tem um império para cuidar. --- De volta ao trabalho Isa entrou no prédio da Corp Group Brasil com os ombros retos, determinada a fingir que nada a abalava. Não o olhar provocante de Dante, não a loira perfeita ao lado dele, nem o passado recente que ela m*l conseguia processar. O elevador subiu com suavidade até o último andar, onde ela trabalharia diariamente. A recepcionista sorriu, já familiar. Isa correspondeu com educação e seguiu para sua sala. A surpresa veio ao ver a porta de vidro da sala dele aberta. E os olhos dele... em sua direção. Ela desviou o olhar. Se sentou, ligou o computador, abriu as planilhas que havia deixado pela metade pela manhã. Mas a concentração... essa parecia estar de licença. Cada número piscando na tela era um lembrete de que Dante Montenegro estava a poucos passos dali. E que, de alguma forma, agora era ele quem determinaria não apenas sua rotina, mas também as próximas reviravoltas da sua vida. O aviso surgiu no canto da tela: Reunião geral com o setor financeiro — Sala de Conferência 01 — 15h30. Isa respirou fundo, fechou a planilha e ajeitou o blazer sobre o vestido justo que usava naquele dia. Seus saltos ecoaram pelo corredor enquanto se dirigia à sala marcada. Quando entrou, alguns profissionais já estavam ali — rostos sérios, papéis nas mãos, gráficos sendo projetados na tela. Ela escolheu um lugar discreto, mais ao canto da mesa oval de madeira escura, tentando passar despercebida. Mas não teve sorte. Dante Montenegro entrou por último. Seu terno cinza escuro parecia moldado ao corpo, o olhar firme passeando pelos presentes até encontrar o dela — e se fixar por um segundo a mais do que deveria. Depois, ignorando as cadeiras vazias do outro lado, sentou-se ao lado de Isa. Tão próximo que o perfume dele se misturou ao ar que ela respirava. Ela fingiu não notar. Abriu o bloco de notas, encarou a tela. Mas então... Sentiu. Primeiro, o toque sutil na lateral da perna. O joelho dele, roçando o seu sob a mesa. Isa manteve o olhar na apresentação, mas seu coração acelerou de forma traiçoeira. Em seguida, o toque deslizou. Lento. Quase imperceptível. Os dedos dele avançaram por sua coxa, sob a mesa, como se explorassem território proibido com a calma de quem conhece o jogo. Isa se enrijeceu, mas não se afastou. — Você fica linda quando tenta manter a pose — ele murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse, enquanto o consultor da vez falava sobre projeções para o último trimestre. — Você é louco — sussurrou de volta, os lábios quase imóveis. — Um pouco — ele sorriu de lado, os dedos agora pressionando o tecido do vestido sobre a pele dela. — Mas nunca perco o foco. Ela quis afastá-lo. Quis gritar. Mas parte dela... estava hipnotizada. O calor subindo por suas coxas, a respiração ficando mais curta, os olhos fixos na tela, tentando acompanhar o que era dito enquanto o toque aumentava. — Sabe que isso é completamente inadequado? — ela sussurrou, quase sem voz. — Exatamente por isso é tão excitante — ele respondeu, e a palma da mão agora estava firme sobre sua coxa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Isa se mexeu, descruzou as pernas, tentando se recompor. Dante recuou o toque por um segundo — mas só para escorregar um pouco mais alto. Ela mordeu o lábio. O resto da reunião foi um borrão. Os números, os gráficos, as falas... tudo se perdeu no redemoinho interno que a presença dele causava. Assim que o encontro foi encerrado, os colegas começaram a se levantar. Isa puxou a saia discretamente para baixo, se levantando com a coluna ereta e o olhar frio. Dante a observava com um sorriso discreto nos lábios, como se tivesse vencido uma batalha silenciosa. — Temos um bom desempenho financeiro — ele comentou casualmente. — Você devia ser processado — Isa respondeu entre dentes, antes de sair da sala, deixando apenas o perfume doce e a tensão no ar.
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