03

1554 Palavras
A luz do sol entrava tímida pelas frestas das cortinas vermelhas. O quarto ainda cheirava a sexo, álcool e desejo m*l resolvido. Isadora abriu os olhos devagar, o corpo ainda dolorido e sensível, como se tivesse sido possuída por um furacão. E de certa forma, havia sido. Ao virar o rosto, lá estava ele. Dante. Dormia de lado, os traços relaxados, os cabelos bagunçados e os lençóis puxados até a cintura. O peito subia e descia em um ritmo calmo, contrastando com o caos que ele havia causado dentro dela. Um homem desconhecido. Um completo estranho. Mas que tinha feito seu corpo acordar como nunca. Isadora ficou alguns segundos ali, observando-o. Pensou se deveria escrever algo, deixar um bilhete. Mas logo balançou a cabeça. — Sem nomes. Sem promessas. — sussurrou para si mesma, recordando o que dissera poucas horas antes. Levantou-se devagar, pegando a calcinha jogada perto da poltrona e a colocando de volta. Depois, desamarrou o vestido, alisando o tecido o melhor que pôde. Passou os dedos pelo cabelo, pegou a bolsa e os saltos nas mãos e saiu sem olhar para trás. No corredor, sentiu o coração acelerar. Lá fora, o dia estava começando, e ela ainda tentava entender se aquilo tudo tinha sido um surto, um sonho, ou um dos momentos mais intensos da sua vida. ** Ao chegar em casa, largou os sapatos na sala, jogou a bolsa no sofá e foi direto para o banheiro. Encarou-se no espelho. Os olhos levemente borrados, o pescoço marcado com um roxo suave. Sorriu de canto. — O que você fez, Isa? — murmurou, entre um riso contido e um suspiro envergonhado. A água do chuveiro desceu quente sobre o corpo, e pela primeira vez em semanas, ela se sentiu viva. ** Pouco depois, já enrolada em uma toalha e tomando café, o celular vibrou. Júlia. Ela atendeu, já imaginando o que viria. — ISA DO CÉU! — gritou do outro lado — Você não vai acreditar! — Eu posso tentar. — Isadora respondeu com a voz rouca de sono. — Eu dormi com um jogador! Um cara famosíssimo, gata! Ele tava na boate ontem! Casado! CASADO! E eu fui lá e puft, aconteceu! Tô passada! Isadora riu alto, apoiando a testa na mão. — Você sempre me supera, Júlia... — Ah, mas me conta você também. Você sumiu! Foi embora sem avisar. Onde você se meteu? Isa hesitou por um segundo. — Dormi com um cara... — disse enfim. — Um desconhecido. Da boate. Não sei o nome dele. Nada. Só sei que foi... diferente. — Diferente tipo r**m? — Diferente tipo... fodido de bom. Júlia ficou em silêncio por alguns segundos, depois riu alto. — Eita, agora sim! É disso que eu tô falando! Finalmente a Isa acordou pra vida. Você usou camisinha, né? — Júlia! — Eu tenho que perguntar, mulher! Mas olha... se esse cara te fez esquecer aquele lixo do teu ex, ele já merece um prêmio. Isadora sorriu, mas por dentro sentia um nó se formar no estômago. Algo dentro dela dizia que aquela história ainda estava longe de acabar. E ela estava certa. A semana parecia mais longa do que o habitual. Desde aquela noite com o desconhecido — que ela insistia em apagar da memória, mas que seu corpo se recusava a esquecer —, Isadora passou os dias em busca de uma nova oportunidade de trabalho. A demissão ainda doía, não só no bolso, mas no orgulho. As manhãs começavam cedo, com a mesma rotina: acordar, café amargo, maquiagem básica, currículos impressos e e-mails disparados. À tarde, batia de porta em porta nos prédios empresariais da Avenida Paulista, subindo e descendo escadas, enfrentando recepcionistas indiferentes e respostas evasivas. — “Deixe seu currículo e entraremos em contato.” — “Infelizmente, não temos vagas no momento.” — “Você tem perfil, mas estamos com o quadro fechado.” Todas aquelas frases se repetiam como um mantra cansado. Isadora tentava manter a postura, mas à noite desabava. Júlia, sempre presente, a acolhia com vinho barato e séries de comédia. Era seu único refúgio. — “Sabe o que você precisava?” — disse Júlia, certa noite, com um copo na mão. — “Uma nova chance. Um emprego top, num lugar que valorize o que você é. Inteligente, dedicada... e com uma b***a que desestabiliza o mercado financeiro!” Isa gargalhou, mas no fundo desejava isso com todas as forças. Uma nova chance. Um recomeço de verdade. ** Na sexta-feira, quase desistindo de tudo, o inesperado aconteceu. Seu celular vibrou enquanto ela tomava café em uma padaria, um dos poucos momentos de pausa que se permitiu naquela semana. Atendeu sem reconhecer o número. — Alô? — Boa tarde. Falo da Corp Group Brasil. Recebemos seu currículo através da nossa triagem digital. Estamos com uma vaga na área financeira que combina com seu perfil. Teria interesse em vir para uma entrevista ainda hoje? Isadora arregalou os olhos, quase derrubando a xícara. — Sim, claro! Que horas? — Às 15h. Estamos localizados na Faria Lima, Edifício Lumière, 18º andar. Procure pela senhorita Paola Fontes, gerente de RH. Ela agradeceu, desligou, e por alguns segundos ficou em silêncio. O nome da empresa não lhe era estranho — já ouvira falar sobre a Corp Group em rodas de conversa e artigos sobre os grandes conglomerados de São Paulo. Era uma das gigantes, liderada por um CEO misterioso e bilionário que pouco aparecia publicamente. — É minha chance, — sussurrou para si mesma, levantando-se com um brilho no olhar. ** Às 15h em ponto, Isadora estava diante de um prédio espelhado e imponente, com portaria automatizada, recepção de luxo e seguranças vestidos com ternos bem cortados. O elevador a levou em silêncio até o 18º andar, onde foi recebida por uma mulher elegante de coque firme e olhar analítico. — Isadora Martins? Sou Paola. Pode entrar comigo, por favor. A entrevista foi objetiva e respeitosa. Paola parecia gostar do que lia no currículo e, mais ainda, das respostas firmes e educadas que Isa dava. Em momento algum, mencionou o nome do dono da empresa. E por que mencionaria? Ele estava longe... muito longe dali. Ou pelo menos era o que Isadora achava. — O cargo seria como analista financeira sênior. O salário é compatível com o mercado, com possibilidade de crescimento. Vamos apenas aguardar a última etapa da seleção, que será na próxima semana. Um encontro com o diretor da área... — disse Paola, fazendo uma pequena pausa. — Mas posso dizer que estou confiante com você. Isadora saiu da sala com um leve sorriso no rosto. Não era garantia, mas era o mais perto de um sim que ela tivera em dias. — Só preciso me manter firme, — disse a si mesma. — Recomeçar. Na segunda-feira, o céu amanheceu cinza em São Paulo. Havia um prenúncio de chuva e, ainda assim, o coração de Isadora batia com um misto de ansiedade e esperança. Ela recebera a ligação de Paola no fim de semana confirmando sua presença na segunda etapa do processo seletivo. — “Será uma conversa com o diretor da área financeira. É mais formal, mas nada que você não tire de letra”, disse a gerente de RH, com uma simpatia que Isa já começava a admirar. Isadora vestiu-se com elegância: saia lápis preta, camisa branca com leves transparências e salto alto. O batom vermelho era sua armadura silenciosa. O cabelo solto caía com suavidade sobre os ombros, e o perfume que escolheu era doce e marcante — do tipo que deixava rastro. Ao chegar à empresa, foi encaminhada a uma sala ampla de vidro com vista para os arranha-céus da Faria Lima. Ela se sentou, as pernas cruzadas, mantendo a postura enquanto esperava o tal diretor. Cinco minutos se passaram. Depois dez. O tempo parecia caminhar de forma estranha. De repente, escutou passos firmes no corredor. Sapatos de couro caros. Perfume amadeirado forte, que atravessava as paredes como uma lembrança incômoda. Algo naquela fragrância fez sua espinha arrepiar. — “Com licença, senhor... ela já está esperando,” disse Paola, do lado de fora. Ela não conseguiu ver quem entrou. Apenas ouviu a porta se fechar com suavidade e os mesmos passos se aproximarem, agora dentro da sala. Mas a câmera de vidro refletia discretamente uma silhueta masculina atrás dela. Alta. Ombros largos. Postura dominante. Isadora virou levemente o rosto, mas não o suficiente para encarar diretamente. E ele… ele não disse seu nome. — “Bom dia.” A voz dele era grave, aveludada, com um tom levemente rouco. Familiar, mas ao mesmo tempo desconhecido. — “Vamos começar?” Ela assentiu, engolindo em seco. Algo no ar parecia tenso, elétrico. Ele não se apresentou com nome. E ela, por orgulho ou medo, não perguntou. A entrevista seguiu de forma técnica. Ele fez perguntas certeiras sobre números, projeções financeiras, cálculos que ela respondeu com precisão. Mas havia algo nos olhos dele — algo que a observava como se a conhecesse mais do que deveria. Como se desnudasse algo além da profissional diante dele. — “Muito obrigada por vir. Entraremos em contato em breve,” ele disse, levantando-se e estendendo a mão. Ela aceitou o gesto. E naquele toque breve, firme e quente... soube. Não sabia como, mas soube. Era ele.
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