Cabelos

1675 Palavras
Zyan abriu a porta num solavanco, com o susto do barulho. Milk estava tão feliz de ter conseguido fazer algo bom por sua família, por sua vila... que ao entrar no grande e belo quarto se atirou na cama, era grande, grande não, enorme e fofa, muito fofa. Retirou o hijab e começou a pular na cama, e em silêncio gritava e ria. Mas em um dos pulos, fraquejou o pé, e caiu da cama. - Aii. - Alisava o ombro, pelo m*l jeito que caiu. Zyan entrou no quarto e avistou a pequena garota atirada no chão, erguendo-se. Correu até ela. - Tudo bem? Milk o olhou assustada. - S-sim... desculpe, eu caí. Zyan sentia seu sangue borbulhar. Os cabelos dela estavam a mostra, livres e soltos. Eram tão brancos como a neve, lisos e brilhosos. Ao erguer-se do chão, os cabelos dela moveram-se em direção ao rosto. Ele ergueu a mão e colocou uma mecha para trás. Milk arregala os olhos e corre na cama pegando o lenço e colocando em cima da cabeça de qualquer jeito. Zyan dá um meio sorriso. - Desculpe... - Milk pedia, explicando-se. - É que está um calor h******l, e estava suando... - Tudo bem! - Ele apenas a observa admirado. - Tudo bem? - Milk paralisa. - São lindos. - Ela pisca algumas vezes tentando entender o que acontecia ali. - Ah... obrigada. - Lembrou-se que ele cresceu na América, lá as mulheres não cobriam a cabeça, por certo ele já estava acostumado. Sentiu-se um pouco menos envergonhada. Zyan sabia que era errado estar sozinho com a garota em seu quarto, mas não conseguia sair dali. Estava fascinado com cada traço dela, com cada nova coisa que descobria sobre ela. - Me permitiria um passeio amanhã pela manhã? - Propõe a garota que o encara ainda segurando firmemente o pano sobre a cabeça. - Mas você tem que sair com as outras garotas, também, não tem? - Milk se recriminava na mesma hora por estar questionando um sheik, mas que d***a ele queria saindo só com ela? Ele que escolhesse outra! Ela já tinha dito! - Eu escolho com quem saio e quando saio... - Suas palavras foram firmes, mas seu rosto tinha um sorriso. A verdade era que ele estava irritado pelas palavras dela. Queria se esquivar dele, mas aceitara ficar, e enquanto estivesse ali, ele tentaria conhecê-la melhor, e quem sabe até fazê-la mudar de ideia e querê-lo, assim como as outras queriam. - Ok. - Concordou sem sorrir. Zyan maneou a cabeça não completamente satisfeito, mas saiu do quarto. Viu-o virar-se e sair de seu quarto, deixando-a a sós. Alguns minutos depois entra uma mulher no quarto. Deve ter por volta dos seus 40 anos, é morena, baixa, de olhos escuros e feições simpáticas. - Boa noite, senhorita. - Ela fez um reverência e Milk estranhou. - Que isso...? - Ela ergueu a mulher. - Prazer, sou Milk Al-Armari. - Me chamo Zahara. Estarei ao seu dispor. - Mais uma vez a mulher se inclina, fazendo Milk rir. - Não precisa dessas formalidades. E obrigada. - Soube quando chegaram que teriam uma dama de companhia, para lhe ajudarem a vestir-se e sabe-se lá mais para quê. Afinal passara a vida toda se vestindo sozinha, não precisava de ajuda. Mas não arrumaria problemas ali. - Então, Zah, quanto tempo trabalha aqui? - Milk, sentou-se animada na cama. A mulher a olhava com um ar de curiosidade, mas respondeu. - Desde os meus 16 anos mais ou menos. - Uau... bastante tempo. - Você é doente? - A mulher perguntou e Milk deixou o sorriso morrer. - Não. - Porque é tão branca? Até os cabelos... - Milk desejou não ter tirado o seu hijab. - Sou albina. - Forçou um sorriso. - Já ouviu falar? - Nunquinha. - Sério? - Milk explicou para a mulher o que era, dando detalhes de alguns problemas que eles podem ter, mas ela não tinha nenhum, apenas a falta de melanina mesmo. - Que incrível! - Ela tocou nos cabelos de Milk. - Que bom que não te mataram no nascimento. Milk detestava quando falavam algo do tipo. Afinal, achavam que ela era uma aberração? - Porque me matariam? - Fez uma cara brava, que fez Zahara se desculpar. - Desculpe, não quis ofendê-la... apenas costumam m***r crianças defeituosas. - Obrigada, pelo defeituosa! - Bufa e se deita na cama. Era a vida toda algum inconveniente a chamando de estranha, f**a, cara pálida... ainda bem que sabia que isso era normal, que sempre estudou, e seus pais, nunca a destrataram, ou correria o risco de acreditar que era defeituosa mesmo. - Oh, meu Deus! Me perdoe senhorita... Milk... - Tudo bem. Estou cansada, vou descansar um pouco. - Quer que lhe ajude no banho? - Milk senta-se na cama a encarando. - Não! - A mulher ainda a encarava séria. - Milk, por favor me desculpe a imprudência, juro que não acontecerá mais. - Milk fez uma careta. - Eu posso ajudá-la em qualquer coisa que quiser, mas não me dispense. - Ela falava e retorcia as mãos no tecido do longo vestido. - Tá bom, acalme-se mulher! Não farei isso! A mulher respirou visivelmente aliviada. - Obrigada. - Baixou os olhos. - Mas se você tiver outros afazeres pode ir tranquila. - Queria era ter um pouco de paz, mas pelo jeito estava difícil. - O-ok... mas não tenho. - Te pagam só para ficar comigo? - Que desperdício! Pensou Milk de cenho franzido. - Nesse momento sim! - A mulher ainda parecia assustada. - O que foi, Zahara? Porque essa cara? Já disse que tá tudo bem... só não quero que me dê banho! - O Sheik manda me m***r se descobrir que destratei uma convidada. - Milk duvidava que Zyan fizesse isso. - Zyan não parece ser tão r**m assim... - Diz em voz alta. - Ele não... mas o pai, sim! - Ah... - MIlk arregala os olhos lembrando-se que o Sheik real ainda era seu pai. Zoey Al-Bahdadi. - Por mim nunca aconteceu. - Sorriu para a mulher. - Agora sente aqui e me conte sobre esse sheik mau aí. - Afinal já dizia um ditado. "Tal pai, tal filho." - Bem, ele é... não sei se devo falar de meu patrão. - Milk revira os olhos e é repreendida por Zahara. - Não haja de forma tão m*l educada, falo para o seu próprio bem. - Milk encarou a mulher. Era bem contraditória ela, uma hora pedia desculpa depois a destratava de novo. Suspirou. Já sentia falta de sua casa. Quem sabe se revirasse os olhos para o sheik Zyan ele a mandasse embora. Se bem que aceitara ficar. Mas nem perguntara porque ele queria que ela ficasse. Fechou os olhos e revirou-os sem mostrá-los. - Vou me banhar. Fique aqui. - Disse e virou-se para a porta que indicava ser o banheiro. - Mas peraí... eu não tenho roupas para usar. Não deixaram entrar com nada. - Disse encarando Zahara de olhos assustados. Será que teria de ficar com a mesma roupa por tempo indeterminado? Zahara sorriu da inocência de Milk. - No guarda-roupas. Está cheio de roupas para você. Milk abriu-o e se assustou com a quantidade de vestes. - Como sabiam meu tamanho? - Não sabem... estou aqui para ajustar tudo que for preciso. - Hummm, entendi. Obrigada. - Pegou uma roupa que julgou ser de dormir e foi para o banheiro. Milk encarava aquela coisa pendurada na parede há cerca de meia hora. - Mas o que isso? d***a! - Saiu do banheiro enrolada na toalha. - Zahara... - Chamou. - Sim, senhorita! Digo, Milk! - Como se toma banho aqui? - Em sua casa tomavam banho de bacia. E a água era tirada do poço. E aqui não havia nenhuma grande bacia, para se banhar. - Ah... claro! - Zahara entrou e girou uma maçaneta de metal na parede em baixo do chuveiro. - Aqui liga o chuveiro e depois desliga. Milk abriu a boca. - Eu tenho um chuveiro no meu quarto? - Quase gritou, fazendo Zahara segurar o riso. Até que ela estava gostando da menina branquela. - Todas tem Milk. - Uau... são ricos mesmo não é? - A senhorita nem imagina! - Obrigada. - Deu um sorriso a Zahara. - Pode sair, por favor. Colocou-se em baixo da água que estava levemente morna, causando uma sensação de refrescância. Era a primeira vez que tomava banho de chuveiro. Sentia a água escorrendo e era como se seu corpo se derretesse junto pelo ralo. Demorou-se mais do que qualquer banho em sua vida. O banheiro era bonito, em tons claros. Possuía um quadradinho envolto pela cortina rosa, que era onde ficava o chuveiro. Uma privada e uma pia, com um armário com escova de dentes, cabelos, entre outros itens de higiene pessoal. Milk se olhou no espelho em cima da pia. Nunca se achou linda, mas f**a também não. Na verdade nunca se importara muito, tudo que queria era poder ser livre e fazer o que tinha vontade. Mas sua mãe sempre disse que beleza era importante, que ela deveria se arrumar bem, e ela sempre acatou. Não que tenha servido de algo, afinal ninguém nunca se interessou por ela, e ela agradecia aos céus por isso. Ou teria problemas, já que sua família tão pobre aceitaria qualquer um para casar-se com ela. Saiu do quarto e encontrou Zahara no mesmo lugar de antes. De pé na beirada da cama. - Eu vou dormir, Zah. Obrigada pela ajuda. - Que isso? Meu dever... além do mais você nem me deixou te ajudar... - Milk sorri. - Boa noite Zah! Zahara maneia a cabeça e se retira do quarto. - Boa noite, Milk. Milk finalmente se deita sentindo-se aliviada. Os cabelos espalhados pelo travesseiro. - Coisa boa uma cama grandona como essa... - Ri e vira-se de lado, pensando em como aceitara ficar ali de boa vontade, sendo que o homem a tinha liberado da obrigação...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR