Zyan abriu a porta num solavanco, com o susto do barulho.
Milk estava tão feliz de ter conseguido fazer algo bom por sua família, por sua vila... que ao entrar no grande e belo quarto se atirou na cama, era grande, grande não, enorme e fofa, muito fofa. Retirou o hijab e começou a pular na cama, e em silêncio gritava e ria. Mas em um dos pulos, fraquejou o pé, e caiu da cama.
- Aii. - Alisava o ombro, pelo m*l jeito que caiu.
Zyan entrou no quarto e avistou a pequena garota atirada no chão, erguendo-se. Correu até ela. - Tudo bem?
Milk o olhou assustada. - S-sim... desculpe, eu caí.
Zyan sentia seu sangue borbulhar. Os cabelos dela estavam a mostra, livres e soltos. Eram tão brancos como a neve, lisos e brilhosos. Ao erguer-se do chão, os cabelos dela moveram-se em direção ao rosto. Ele ergueu a mão e colocou uma mecha para trás.
Milk arregala os olhos e corre na cama pegando o lenço e colocando em cima da cabeça de qualquer jeito. Zyan dá um meio sorriso.
- Desculpe... - Milk pedia, explicando-se. - É que está um calor h******l, e estava suando...
- Tudo bem! - Ele apenas a observa admirado.
- Tudo bem? - Milk paralisa.
- São lindos. - Ela pisca algumas vezes tentando entender o que acontecia ali.
- Ah... obrigada. - Lembrou-se que ele cresceu na América, lá as mulheres não cobriam a cabeça, por certo ele já estava acostumado. Sentiu-se um pouco menos envergonhada.
Zyan sabia que era errado estar sozinho com a garota em seu quarto, mas não conseguia sair dali. Estava fascinado com cada traço dela, com cada nova coisa que descobria sobre ela.
- Me permitiria um passeio amanhã pela manhã? - Propõe a garota que o encara ainda segurando firmemente o pano sobre a cabeça.
- Mas você tem que sair com as outras garotas, também, não tem? - Milk se recriminava na mesma hora por estar questionando um sheik, mas que d***a ele queria saindo só com ela? Ele que escolhesse outra! Ela já tinha dito!
- Eu escolho com quem saio e quando saio... - Suas palavras foram firmes, mas seu rosto tinha um sorriso. A verdade era que ele estava irritado pelas palavras dela. Queria se esquivar dele, mas aceitara ficar, e enquanto estivesse ali, ele tentaria conhecê-la melhor, e quem sabe até fazê-la mudar de ideia e querê-lo, assim como as outras queriam.
- Ok. - Concordou sem sorrir. Zyan maneou a cabeça não completamente satisfeito, mas saiu do quarto.
Viu-o virar-se e sair de seu quarto, deixando-a a sós. Alguns minutos depois entra uma mulher no quarto. Deve ter por volta dos seus 40 anos, é morena, baixa, de olhos escuros e feições simpáticas.
- Boa noite, senhorita. - Ela fez um reverência e Milk estranhou.
- Que isso...? - Ela ergueu a mulher. - Prazer, sou Milk Al-Armari.
- Me chamo Zahara. Estarei ao seu dispor. - Mais uma vez a mulher se inclina, fazendo Milk rir.
- Não precisa dessas formalidades. E obrigada. - Soube quando chegaram que teriam uma dama de companhia, para lhe ajudarem a vestir-se e sabe-se lá mais para quê. Afinal passara a vida toda se vestindo sozinha, não precisava de ajuda. Mas não arrumaria problemas ali.
- Então, Zah, quanto tempo trabalha aqui? - Milk, sentou-se animada na cama.
A mulher a olhava com um ar de curiosidade, mas respondeu. - Desde os meus 16 anos mais ou menos.
- Uau... bastante tempo.
- Você é doente? - A mulher perguntou e Milk deixou o sorriso morrer.
- Não.
- Porque é tão branca? Até os cabelos... - Milk desejou não ter tirado o seu hijab.
- Sou albina. - Forçou um sorriso. - Já ouviu falar?
- Nunquinha.
- Sério? - Milk explicou para a mulher o que era, dando detalhes de alguns problemas que eles podem ter, mas ela não tinha nenhum, apenas a falta de melanina mesmo.
- Que incrível! - Ela tocou nos cabelos de Milk. - Que bom que não te mataram no nascimento.
Milk detestava quando falavam algo do tipo. Afinal, achavam que ela era uma aberração? - Porque me matariam? - Fez uma cara brava, que fez Zahara se desculpar.
- Desculpe, não quis ofendê-la... apenas costumam m***r crianças defeituosas.
- Obrigada, pelo defeituosa! - Bufa e se deita na cama. Era a vida toda algum inconveniente a chamando de estranha, f**a, cara pálida... ainda bem que sabia que isso era normal, que sempre estudou, e seus pais, nunca a destrataram, ou correria o risco de acreditar que era defeituosa mesmo.
- Oh, meu Deus! Me perdoe senhorita... Milk...
- Tudo bem. Estou cansada, vou descansar um pouco.
- Quer que lhe ajude no banho? - Milk senta-se na cama a encarando.
- Não! - A mulher ainda a encarava séria.
- Milk, por favor me desculpe a imprudência, juro que não acontecerá mais. - Milk fez uma careta. - Eu posso ajudá-la em qualquer coisa que quiser, mas não me dispense. - Ela falava e retorcia as mãos no tecido do longo vestido.
- Tá bom, acalme-se mulher! Não farei isso!
A mulher respirou visivelmente aliviada. - Obrigada. - Baixou os olhos.
- Mas se você tiver outros afazeres pode ir tranquila. - Queria era ter um pouco de paz, mas pelo jeito estava difícil.
- O-ok... mas não tenho.
- Te pagam só para ficar comigo? - Que desperdício! Pensou Milk de cenho franzido.
- Nesse momento sim! - A mulher ainda parecia assustada.
- O que foi, Zahara? Porque essa cara? Já disse que tá tudo bem... só não quero que me dê banho!
- O Sheik manda me m***r se descobrir que destratei uma convidada. - Milk duvidava que Zyan fizesse isso.
- Zyan não parece ser tão r**m assim... - Diz em voz alta.
- Ele não... mas o pai, sim!
- Ah... - MIlk arregala os olhos lembrando-se que o Sheik real ainda era seu pai. Zoey Al-Bahdadi. - Por mim nunca aconteceu. - Sorriu para a mulher. - Agora sente aqui e me conte sobre esse sheik mau aí. - Afinal já dizia um ditado. "Tal pai, tal filho."
- Bem, ele é... não sei se devo falar de meu patrão. - Milk revira os olhos e é repreendida por Zahara.
- Não haja de forma tão m*l educada, falo para o seu próprio bem. - Milk encarou a mulher. Era bem contraditória ela, uma hora pedia desculpa depois a destratava de novo. Suspirou. Já sentia falta de sua casa. Quem sabe se revirasse os olhos para o sheik Zyan ele a mandasse embora. Se bem que aceitara ficar. Mas nem perguntara porque ele queria que ela ficasse. Fechou os olhos e revirou-os sem mostrá-los.
- Vou me banhar. Fique aqui. - Disse e virou-se para a porta que indicava ser o banheiro. - Mas peraí... eu não tenho roupas para usar. Não deixaram entrar com nada. - Disse encarando Zahara de olhos assustados. Será que teria de ficar com a mesma roupa por tempo indeterminado?
Zahara sorriu da inocência de Milk. - No guarda-roupas. Está cheio de roupas para você.
Milk abriu-o e se assustou com a quantidade de vestes. - Como sabiam meu tamanho?
- Não sabem... estou aqui para ajustar tudo que for preciso.
- Hummm, entendi. Obrigada. - Pegou uma roupa que julgou ser de dormir e foi para o banheiro.
Milk encarava aquela coisa pendurada na parede há cerca de meia hora. - Mas o que isso? d***a! - Saiu do banheiro enrolada na toalha.
- Zahara... - Chamou.
- Sim, senhorita! Digo, Milk!
- Como se toma banho aqui? - Em sua casa tomavam banho de bacia. E a água era tirada do poço. E aqui não havia nenhuma grande bacia, para se banhar.
- Ah... claro! - Zahara entrou e girou uma maçaneta de metal na parede em baixo do chuveiro. - Aqui liga o chuveiro e depois desliga.
Milk abriu a boca. - Eu tenho um chuveiro no meu quarto? - Quase gritou, fazendo Zahara segurar o riso. Até que ela estava gostando da menina branquela.
- Todas tem Milk.
- Uau... são ricos mesmo não é?
- A senhorita nem imagina!
- Obrigada. - Deu um sorriso a Zahara. - Pode sair, por favor.
Colocou-se em baixo da água que estava levemente morna, causando uma sensação de refrescância. Era a primeira vez que tomava banho de chuveiro. Sentia a água escorrendo e era como se seu corpo se derretesse junto pelo ralo. Demorou-se mais do que qualquer banho em sua vida.
O banheiro era bonito, em tons claros. Possuía um quadradinho envolto pela cortina rosa, que era onde ficava o chuveiro. Uma privada e uma pia, com um armário com escova de dentes, cabelos, entre outros itens de higiene pessoal.
Milk se olhou no espelho em cima da pia. Nunca se achou linda, mas f**a também não. Na verdade nunca se importara muito, tudo que queria era poder ser livre e fazer o que tinha vontade. Mas sua mãe sempre disse que beleza era importante, que ela deveria se arrumar bem, e ela sempre acatou. Não que tenha servido de algo, afinal ninguém nunca se interessou por ela, e ela agradecia aos céus por isso. Ou teria problemas, já que sua família tão pobre aceitaria qualquer um para casar-se com ela.
Saiu do quarto e encontrou Zahara no mesmo lugar de antes. De pé na beirada da cama.
- Eu vou dormir, Zah. Obrigada pela ajuda.
- Que isso? Meu dever... além do mais você nem me deixou te ajudar... - Milk sorri.
- Boa noite Zah!
Zahara maneia a cabeça e se retira do quarto.
- Boa noite, Milk.
Milk finalmente se deita sentindo-se aliviada. Os cabelos espalhados pelo travesseiro. - Coisa boa uma cama grandona como essa... - Ri e vira-se de lado, pensando em como aceitara ficar ali de boa vontade, sendo que o homem a tinha liberado da obrigação...