*Michael PoV*
Amber Lee não parece tão contente quanto deveria estar por causa do disco. Seu sorriso é montado, como se fizesse um grande esforço para mantê-lo. Sei que a culpa é minha. Ela está confusa com o que quase aconteceu nos bastidores.
Eu não poderia ter me deixado levar. Sabia que havia a possibilidade de uma gravadora nos notar, no entanto o que eu sinto por ela falou mais alto naquele momento.
Algumas fãs nos cercam. Pete está distribuindo sorrisos e rindo como um bobo. Eu também deveria estar assim, é como eu sempre fui, ainda mais agora com esse novo contrato. O velho Michael tiraria o maior proveito da situação. Hoje em dia, não é mais isso que eu quero.
Monto meu personagem e dou autógrafos, tiro fotos, porém, cada vez que uma dessas estranhas tenta me tocar, sinto a mesma coisa de quando estou na presença da Katherine. Repulsa.
Tanto Pete, quanto Rico, tinham razão quando disseram que eu estava de quatro por Amber Lee. Nem eu mesmo estou me reconhecendo.
Minha tecladista vai embora com Rico e Lauren pouco tempo depois, o que só aumenta minha angústia e, por consequência, minha irritação. Tento ser educado, tirando as patas dessas garotas de cima de mim com gentileza. Infelizmente, uma delas é muito incisiva. Até busca sentar no meu colo e eu me levanto da cadeira bruscamente. Ela quase vai ao chão.
Já cansei disso!
ㅡ Pessoal, está na minha ho®a. Até mais.
É o que digo e começo a me retirar.
ㅡ Ah, qual é, parceiro! Fique mais um pouco. A noite é uma criança!
Encaro meu amigo com um sorriso torto.
ㅡ Aproveite então, Pete!
Continuo meu caminho para sair, porém a fã que quase sentou no meu colo segura o meu antebraço. Eu a encaro com impaciência, contudo tento manter as boas maneiras mesmo assim.
ㅡ Quer outra foto?
ㅡ Ah, não… Sabe, eu estive pensando… Eu moro sozinha. Você não gostaria de ir lá em casa beber alguma coisa?
Ela se esfrega em mim, até sinto seus s&ios roçando no meu braço. Eu bufo e a afasto.
ㅡ Não vai dar, garota. Levanto cedo para trabalhar. Boa noite.
Quando penso que me livrei dela, ela dá a volta e se coloca diante de mim, apoiando as duas mãos sobre o meu peito.
ㅡ Vamos lá, gostosão… Estou louca para conhecer a sua fama de deus na cama…
Ela realmente é bem direta, dou esse crédito a ela. Mas, é só.
Afasto suas mãos de novo e sussurro em seu ouvido.
ㅡ Esse é um privilégio que está reservado para outra pessoa.
A garota arregala os olhos e eu vou embora sem olhar para trás.
Não pude tirar Amber Lee da minha cabeça a noite toda. Ainda sinto o calor dos seus lábios de tão próximos que estivemos.
ㅡ Mais alguma coisa, chefe?
Olho para o Daniel, com seu tablet fazendo anotações.
ㅡ Por enquanto, não. Reunião encerrada, pessoal.
Oscar e Daniel assentem com a cabeça e se retiram da minha sala. Ao fecharem a porta, eu afundo em minha cadeira com um longo suspiro. Logo, o meu celular toca e atendo com muita má vontade. É o meu baterista e tenho a leve impressão que ele vai fazer algum comentário sobre ontem.
ㅡ Fala, Pete.
ㅡ Nossa... Tão cedo e já está de mau humor? Você tem algum problema, só pode!
ㅡ Já passa das onze da manhã. Tive duas reuniões com funcionários enquanto você roncava.
ㅡ Não tenho culpa se o meu trabalho é mais legal que o seu!
Ele ri abertamente e eu uso de toda ironia possível. Estou a fim de descontar a crescente irritação dentro de mim.
ㅡ Pelo menos o meu paga melhor…
ㅡ Ah, você é um exibido. Pensei que estaria pulando de alegria. Vamos gravar um disco! Um disco, cara!
ㅡ Sim, ouvi quando você falou ontem.
ㅡ Tem certeza? Acho que você estava mais concentrado na Amber Lee. Até dispensou as tietes, de tão inconsolável que ficou quando ela foi embora. Nunca pensei que o veria rejeitar um s&xo fácil sem pensar duas vezes.
Seguro o palavrão que me vêm à boca. Não quero dar a ele mais munição.
ㅡ Não sei do que está falando. Como eu disse, eu já tive duas reuniões. Rejeitei aquelas garotas para não chegar acabado no trabalho. Bom, estou querendo marcar os próximos ensaios e...
ㅡ Uau! Vai me jogar para escanteio assim, na cara de p@u? Apesar da minha euforia ontem, percebi que rolou um clima entre vocês dois. Só quis ser discreto.
Eu quase rio de incredulidade.
ㅡ Pete, você não saberia o significado de discrição, mesmo que estivesse escrito em uma placa enorme bem na sua frente!
ㅡ Hum... ㅡ Não gosto de como ele soa irônico. ㅡ Vocês estavam quase se beijando... Ou vai dizer que imaginei?
ㅡ Sim, você imaginou.
ㅡ Put@ merd@, Michael! Saia dessa casca. Aproveite que uma garota legal apareceu na sua vida, ao invés do monte de piriguetes que nos cercam em cada show.
Batuco com meus dedos sobre a mesa bufando.
Conversa irritante… Para início de conversa, se ele não tivesse aparecido, eu a teria beijado. Se bem que, a essa altura, com essa nova fase da banda, me envolver com ela poderia ser um assassinato para a Everlasting.
ㅡ Foi só para dizer isso que me ligou? Posso voltar a trabalhar agora?
Ele suspira do outro lado da linha e limpa a garganta.
Lá vem...
ㅡ Eu entendo que, como ela faz parte da banda agora, você não quer misturar as coisas. Também entendo que, toda vez que vocês se encontram, o clima fica extremamente tenso. Isso não vai fazer bem nenhum para ninguém. Em algum momento, vocês dois vão se estranhar. De novo.
ㅡ Tenho tudo sobre controle.
ㅡ A quem você quer enganar? Só se for a si mesmo. Quer saber o que eu acho?
ㅡ Não.
ㅡ Pois, vou te dizer mesmo assim. Você está com medo de se envolver, não por causa da banda, isso é só uma desculpa. Você tem medo de se apegar à ela e depois se machucar. Tem medo de se apaixonar e quebrar a cara. Não é porque um monte de merd@ aconteceu na sua vida, que sempre será assim. Mesmo que o pior aconteça, amar sempre vale a pena.
ㅡ Você está sendo ridículo. Bom, tenho que trabalhar agora. Tchau.
Encerro a ligação sem deixá-lo responder e jogo o aparelho sobre minha mesa de qualquer jeito. Saio da cadeira e fico circulando pela sala, sem rumo. Cruzo os braços atrás da nuca e tento controlar minha respiração.
Eu gosto muito dela, não vou negar. Mas, amar?
*Amber Lee PoV*
Sequer consegui dormir direito. Não tirei Michael da minha cabeça por mais que eu tentasse. Nem a alegria da Lauren e do Rico quando cheguei no trabalho me animou. Eles ficaram felizes quando souberam que vamos gravar um disco, porém eles não sabem o que aconteceu nos bastidores. Ou melhor, o que quase aconteceu.
Ele ia me beijar, tenho certeza disso. Porém, recuou e fingiu que nada aconteceu depois. Não entendo…
Quanto mais eu penso, mais a minha cabeça ferve com todas as possibilidades.
Todas as lindas coisas que ele me disse após o show, a forma como se confessou. Para se afastar em seguida daquele jeito…
Eu bufo e afasto alguns fios da franja que não querem ficar no lugar hoje. Ouço as rodinhas da cadeira do Rico se aproximando, porém me mantenho com a atenção no meu monitor.
ㅡ Ojitos, estou tão feliz por vocês! A apresentação foi perfeita e vocês vão gravar um disco! ㅡ Eu murmuro concordando, ainda sem olhar para ele, o que o deixa preocupado. ㅡ O que foi? Pensei que fosse estar pulando de alegria, afinal, não era isso o que você queria?
Eu queria muitas coisas. De repente, aquele sonho que está se tornando realidade não é o suficiente. Falta algo. Alguém.
ㅡ Estou feliz, Rico. Só preocupada.
ㅡ Com o quê?
ㅡ Todos nós sabemos que eu sou apenas uma substituta. E se a Dorothy resolver voltar, agora que a Everlasting ganhou a atenção de uma gravadora? Se isso acontecer, vou ser jogada para escanteio, como uma bola murcha…
ㅡ Ah! Não se preocupe com isso. Sinceramente? Eu nunca vi a Everlasting tocar daquele jeito. Eles sempre foram fantásticos, porém havia uma energia ali, entre você e Michael, que foi incrível. Ele me disse que sempre quis adicionar um teclado ao grupo, então, mesmo que a Dorothy volte, seu lugar está garantido. Você arrasou! Ele seria muito burro se te dispensasse.
Não é desse tipo de dispensa que tenho medo…
Eu me surpreendo com meus próprios pensamentos. Ao invés de estar preocupada em ser chutada para fora da banda, minha agonia vem da possibilidade de ser chutada da vida dele. Isso é desesperador.
ㅡ Espera um pouco… ㅡ Ele estreita seu olhar sobre mim e eu me encolho. ㅡ Aconteceu alguma coisa nos bastidores? Você está tensa desde o fim do show.
ㅡ Eh… Nada! Vamos trabalhar?
Fujo de todas as suas tentativas para descobrir minha real razão de estar triste. Jamais contaria a ele que eu e Michael quase nos beijamos.
Vou levar isso para o túmulo comigo!
*Michael PoV*
Ainda estou perdido em mim mesmo, em pé no meio do meu escritório, quando batidas na porta me fazem dar um pulo de susto.
ㅡ Entre.
Uma jovem ruiva sardenta entra com uma pasta em mãos.
ㅡ Senhor Denver? Perdão pelo incômodo. A senhorita Smith me pediu para te trazer a documentação dos estagiários.
Ah, isso...
ㅡ Entregue tudo ao Lincoln. Coloquei ele como responsável.
ㅡ Quem?
Ela me encara com seus grandes olhos dourados solícitos. No entanto, sua presença começa a me irritar. Provavelmente, é por causa da cor dos seus cabelos que, mesmo que sejam em um tom mais claro, me lembram da Amber Lee. Eu busco, bem fundo dentro de mim, um restinho de auto-controle para não enxotá-la daqui.
ㅡ Daniel Lincoln. É um dos meus assistentes. Você deve encontrá-lo em alguma dessas salas aí fora.
ㅡ Pode me informar qual delas, por favor?
Encaro-a impaciente. Deve ser nova e não conhece a minha fama. Mesmo assim, minha cabeça está tão cheia, que não consigo evitar despejar tudo em cima dela.
ㅡ Se eu soubesse exatamente qual sala teria dito! Mais alguma coisa…? Como é mesmo o seu nome?
ㅡ Mayra Hills. Obrigada pela atenção, senhor Denver. Vou providenciar que isso chegue às mãos do senhor Lincoln. Tenha um bom dia.
A resposta dela é seca, porém segura. Sequer gaguejou. Normalmente, quem vem ao meu escritório e se depara comigo nesse estado de nervos, sai quase aos prantos. Pelo menos, ela é uma visão bem melhor do que a Katherine e seus “atributos” siliconados.
Sacudo minha cabeça em negativa para me livrar da visão ridícula da gerente do RH. Então, a lembrança do que senti ontem durante a apresentação me invade de forma fulminante. Ainda não acredito no quanto fiquei abalado e das coisas que disse a ela.
Como será das próximas vezes? Amber Lee e eu temos que manter o profissionalismo, porém acho que as coisas podem ficar ruïns depois do nosso quase beijo ontem. Talvez, se passássemos mais tempo juntos, praticando as músicas e nos acostumando um com outro, talvez, fiquemos em paz.
Volto para a minha mesa e abro o programa de e-mails da empresa. Digito uma frase simples e procuro ser o mais conciso e educado possível.
“Oi. Você quer ir lá em casa essa noite para praticar?”
Longos minutos se passam antes que a resposta chegue.
“Você quer praticar comigo?”
Leio duas, três vezes a mensagem. Então, releio o que enviei e acabo rindo ao perceber o duplo sentido da conversa.
Minha vontade de tê-la é tão grande, que a ambiguidade se infiltra automaticamente em tudo o que faço ou falo. Será que ela percebeu? Provavelmente.
Resolvo continuar nessa linha. É divertido e ainda quero uma resposta.
“Você parece surpresa por eu querer praticar com você.”
“Você não costuma fazer esse tipo de proposta. Tem certeza que está falando com a pessoa certa?”
Sempre desconfiada. Acabo sendo mais incisivo.
“Definitivamente. Então, você vem? Sim ou não?”
Estou me esforçando para ser gentil, porém ela bem que poderia baixar a guarda um pouco.
“Tudo bem. Entretanto, saiba que posso fazer da sua noite um infe®no.”
Sorrio para mim mesmo. Se apenas o infe®no fosse menos tentador, eu estaria tranquilo.
“Minha vida tem sido assim desde que te conheci.”
“Vou encarar isso como um elogio.”
Eu suspiro e combino de esperá-la na entrada da empresa. Nesse mesmo instante, chega um e-mail do McGregor.
“Vou precisar de um parecer seu sobre aquele orçamento por escrito. E. M.”
Hoje o dia vai ser longo...
*Amber Lee PoV*
Ainda não entendo como ele funciona. Primeiro, ele quase me beija, depois se afasta. Agora, vem com essa conversa esquisita sobre ensaio, falando de um jeito cheio de sugestões.
Quando me lembro das garotas que o cercavam ontem, não consigo deixar de me perguntar qual delas ele levou pra cama. Ou, talvez, o que o Pete disse seja verdadeiro e ele não tenha saído com nenhuma delas.
De qualquer forma, não pretendo ser uma presa fácil.
Passo o resto do dia me lembrando dos seus defeitos, ao invés das qualidades que ele começou a mostrar. Enumero um por um na minha cabeça, só para ter ao que me agarrar, caso ele fique meloso de novo.
Edward me pediu um trabalho extra. Por sorte, Michael também estava atolado no trabalho. Termino minha tarefa cinco minutos depois dele me avisar que estava liberado. Entro no elevador e aperto o botão do térreo, ainda pensando em tudo o que não gosto nele.
ㅡ Ele é um chato, irritante e presunçoso. Sabe muito bem o quão atraente ele é. Não consegue falar três palavras sem se exibir ou tirar sarro.
De repente, escuto uma risada masculina discreta no fundo do elevador. Por estar tão distraída, não percebi que não estava sozinha. Eu o examino cuidadosamente. O homem é elegante, com um terno de corte perfeito, porém não faço ideia de quem seja.
Deve ser algum diretor. Oh, céus! Espero que não tenha escutado as besteiras que falei alto!
Dou-lhe um sorriso tímido, enquanto ele mexe em seu celular, e tento ser educada. Apesar da visível classe, ele é muito simpático. Tem um ar paternal, até. É o tipo de pessoa que te deixa à vontade para conversar, como o Rico.
ㅡ Esse pobre homem parece ter uma lista interminável de defeitos.
ㅡ Assim como muitos outros, porém você interrompeu a lista dando risada.
Parece que ele acha a minha situação divertida, mesmo não fazendo a menor ideia de quem eu esteja falando.
ㅡ Quando uma mulher começa a listar os defeitos de um homem, é porque ela não é indiferente a ele.
ㅡ Estou simplesmente me condicionando para não matar alguém...
ㅡ Claro...
Sinto minhas bochechas esquentarem de vergonha e desejo arduamente que não estejam vermelhas.
ㅡ Bem, é meu problema.
ㅡ Compreendo. Coragem... Você está prestes a fazer da vida desse homem um...
ㅡ Infe®no?
ㅡ Esse tipo de relacionamento geralmente termina como fogos de artifício. Lindo, porém barulhento.
Eu acabo rindo de sua metáfora. Acho que nem eu descreveria meu relacionamento com Michael tão bem.
ㅡ Vou me certificar que seja, sobretudo, barulhento.
Ao sairmos no saguão, ele faz a gentileza de me deixar sair primeiro do elevador, segurando a porta para mim. Encontro com Michael do lado de fora do prédio. Ele parece surpreso.
ㅡ Você conversa sempre com o McGregor?
Fico chocada e vejo, pelo canto dos olhos, aquele homem elegante entrar em uma limusine de luxo.
Não creio!
Michael começa a rir da minha cara de p@spalha e eu permaneço congelada no lugar.
Por que eu, Senhor?