*Amber Lee PoV*
Hoje acordei no horário certo, portanto não precisei sair correndo com um pedaço de pão na boca e um copo de café na mão. Isso não quer dizer que minha noite tenha sido mais tranquila. Aquele homem, seu olhar, seu calor, seu perfume, tudo nele assombrou meus sonhos.
Vou acabar enlouquecendo desse jeito…
Passo por um Starbucks a caminho do trabalho e o cheiro na porta é delicioso.
Eu tomei café, porém será que ele tomou? Ah, mas por que eu me importaria com isso afinal?
Mordo minha boca e, quando dou por mim, já estou na fila pedindo um expresso para ele. Pego um sachê de cada tipo de açúcar e adoçante, pois não sei qual ele gosta.
Amber Lee, não estou reconhecendo você. Nunca me preocupei em paparicar nem mesmo o Kevin…
Convenço a mim mesma que a razão é retribuir a ajuda que ele me deu no dia anterior, consertando meu computador.
M@l entro no prédio, Lauren me chama do balcão da recepção. Eu suspiro, provavelmente Rico já contou a ela sobre Michael ter ido no meu setor e que ficamos sozinhos um tempo. No que se refere a fofoca, Rico é pior que uma comadre velha à toa na janela tomando conta da vida alheia. Ela levanta uma sobrancelha para o copo na minha mão, que seguro com todo cuidado.
ㅡ Sem café em casa, amiga?
Dou um sorriso amarelo para sua piada e disfarço. De maneira alguma vou dizer para quem é de verdade.
ㅡ Pois, é. Esqueci de comprar.
ㅡ Bom, eu não a culpo. Afinal, depois de receber uma visita do Michael, eu também ficaria meio sem cabeça…
Ela apoia o queixo sobre a palma da mão e exibe um sorriso malicioso. Eu reviro os olhos.
ㅡ Michael não foi no meu setor me visitar. Ele foi consertar o meu computador e foi o Rico quem o chamou.
ㅡ O que mais?
Sua voz curiosa soa melodiosa, como que tentando me fazer falar.
ㅡ Mais nada. Tenho que ir agora, senão o café vai esfriar. Tchau!
Eu apresso meus passos até o elevador, porém ainda a escuto falar.
ㅡ Vou querer saber de tudo depois, viu?
Dou um aceno de mão por sobre o ombro e me escondo no elevador. No painel, escolho o andar do Michael e, no momento em que as portas quase se fecham, mãos femininas bem esmaltadas as seguram. Não posso acreditar na minha “sorte”.
ㅡ Olá, senhorita Taste.
ㅡ Olá, senhorita Smith.
Katherine aperta o botão do RH e eu me encolho ainda mais no fundo do elevador, tudo para manter uma certa distância dela. Então, ela se vira para mim, com um sorriso ardiloso no rosto.
ㅡ Chegou cedo.
ㅡ É, eu queria relaxar um pouco antes do trabalho…
Mostro o copo como se fosse meu. Ela levanta uma sobrancelha.
ㅡ No andar de Desenvolvimento e Tecnologia?
Finjo inocência e analiso o painel, apertando o botão do meu setor.
ㅡ Acho que me enganei por estar carregando o café. Obrigada.
Ela não diz mais nada, o que é uma dádiva. O andar dela é depois do meu, então sou obrigada a descer no Marketing para não levantar suspeitas. Afinal, como eu explicaria minha súbita ida a um setor que não tem nada a ver com o meu trabalho para a vaca de plantão?
Desço pelas escadas até o andar do Michael só para não dar o azar de esbarrar com mais ninguém no elevador. Assim que chego no andar, olho de um lado para o outro, sem saber para onde ir. Vejo salas cheias de maquinários, outras trancadas, outras com funcionários e estagiários em seus computadores. As pessoas sequer me notam e não quero ter que me expor para pedir informações.
Que ótimo! Eu não prestei atenção no número da sala dele.
Para a minha sorte, logo encontro uma sala com uma placa: Denver, Michael - Desenvolvedor Chefe.
Que chique…
Dou uma ajeitada no cabelo, equilibrando o copo de café com a mão livre. Bato na porta, porém ninguém atende. Testo a maçaneta e percebo que não está trancada. Abro-a lentamente e fico pasma com o ambiente. É sombrio, como o dono, com as luzes baixas. Noto sua mesa e engulo em seco ao vê-lo concentrado em um de seus computadores. Está com fones de ouvidos, a razão pela qual não me ouviu bater na porta. Enquanto caminho até ele, reparo na área glamourosa com frigobar e um belo e enorme sofá.
Não me lembro de ter visto algo assim na sala do Edward. Humpf! Deve ser aqui que ele dá umas escapadinhas do serviço. A Lauren disse que ele não se envolve com funcionárias, mas o que explicaria esse luxo em seu escritório?
Fico bem atrás dele e limpo a garganta para me anunciar. Nada. Está tão concentrado no que quer que esteja fazendo, além da música pesada alta nos ouvidos, que sequer me nota. Sou obrigada a pôr minha mão em seu ombro, o que lhe dá um baita susto. Ele me encara como se eu fosse uma inimiga mortal e não sei o que fazer. Não queria causar mais problemas do que já temos entre nós. Só queria quebrar um pouco o gelo.
Meu olhar recai sobre sua tela, cheia de códigos que não faço ideia do que são. Michael imediatamente fecha a janela e retira os fones. Ele parece furioso.
ㅡ Mas que infe®no! O que di@bos você está fazendo aqui?
Furioso é pouco. Ele está put0 da vida.
ㅡ Oh... Uh... Eu te trouxe um café... Para agradecer por ter arrumado meu computador ontem…
Que situação mais constrangedora. Ele encara o copo como se eu lhe apontasse uma arma. Leva um tempo absurdo para ele finalmente pegar o copo da minha mão e provar, com todo o cuidado do mundo, como se tivesse alguma coisa dentro.
Saco! Não está envenenado!
Então, me lembro do açúcar e busco os saquinhos na bolsa para dar a ele. Fico surpresa ao saber que ele não toma café com açúcar.
Quem em sã consciência faz isso?
Aos poucos, seu humor melhora e sua carranca suaviza. Seja lá o que ele estava pensando sobre a minha visita, fica no passado. Na verdade, o velho Michael que conheço começa a dar o ar da graça, me olhando como se me despisse.
Puxo uma conversa fiada sobre o seu trabalho, tentando saber mais desse homem. Ele é sempre muito vago e isso é frustrante. Nunca vi alguém tão reservado ao falar de si mesmo. Até parece que ele faz parte de alguma conspiração e tem uma missão secreta. O que é ridículo.
ㅡ Está tão interessada assim na minha vida?
Seu ar convencido só faz crescer e sua última pergunta me faz erguer o muro.
Não vou deixar ele achar que estou aqui com segundas intenções. Droga… Nem eu sei as minhas reais intenções para estar aqui em primeiro lugar.
ㅡ Suponho que você esteja mais acostumado a ter calcinhas jogadas na sua cara do que perguntas. Perdão por estar interessada em outro lado seu.
Cruzo meus braços na altura do peito e não me escapa quando seu olhar se perde na curvatura dos meus s&ios saltando pelo discreto decote.
S@fado!
No meio da nossa conversa, ele se aproxima de mim, praticamente colando seu corpo ao meu. Não posso evitar as borboletas que fazem uma revoada no meu estômago e o calor que sobe para as minhas bochechas. Escapo para o lado para fugir de seu domínio, rezando para que ele não perceba como sua presença me afeta. O que provavelmente ele já sabe, mas nem morta eu confirmaria se ele perguntasse.
No entanto, ele começa a mudar seu jeito de me tratar. Não há malícia, sarcasmo ou deboche, como se ele tivesse percebido que estou aqui por ele, ao invés de dar em cima dele.
Infelizmente, quando penso que nossa conversa vai evoluir, ele diz que tem que voltar ao trabalho. Bom, não poderíamos ficar aqui conversando eternamente, apesar de me pegar desejando isso. Quanto mais eu monto esse quebra-cabeça que é Michael Denver, mais interessante ele se torna. O ápice é quando ele me agradece pelo café. Não consigo evitar a minha surpresa.
ㅡ Estou ouvindo coisas ou você acabou de me agradecer?
Isso foi um avanço incrível e eu até me aproximo dele em sua cadeira para encará-lo de perto.
É inacreditável uma coisa dessas!
O brilho que se acende em seu olhos claros me alerta de que me aproximei demais, pois o que vejo é puro desejo. Apesar disso, não consigo me afastar. É como uma necessidade extrema estar perto dele. Tocar seus lábios com os meus e desvendar tudo o que ainda não vi de seu corpo perfeito.
Oh, Amber Lee! Controle-se!
ㅡ Você parece chocada.
ㅡ Apenas surpresa.
ㅡ De uma forma boa ou ruïm?
ㅡ Gosto de surpresas.
Até eu me surpreendo com a minha resposta. Estar perto dele desperta um lado meu que eu nunca havia conhecido antes. A vontade enorme de explorar isso é quase sufocante.
ㅡ Bom saber. Tenho que trabalhar agora.
Fico decepcionada, porém sei que ele está certo. Estamos no trabalho, contudo não sei quando poderemos ter outra oportunidade assim. Endireito meu corpo e meus olhos vagam sobre sua mesa, na tentativa de capturar mais alguma informação sobre ele antes de ir embora. Acho adorável ver partituras, a música realmente é parte da essência dele. Então, vejo uma pasta com um “Confidencial” em vermelho gritante e um nome do que só pode ser uma empresa.
O que é Grupo MEI? Nunca ouvi falar…
Rapidamente, Michael cobre a etiqueta da pasta com a mão. Seja lá o que for, ele não gostou de eu ter visto.
ㅡ Você é uma pequena fuxiqueira!
Voltamos à estaca zero, onde o grosseirão de plantão está de volta. Decido usar um pouco de sinceridade para aliviar a tensão.
ㅡ O que eu poderia estar procurando, além de uma forma de nos darmos bem, já que temos amigos em comum?
Por um milésimo de segundo, ele hesita. Como se o que eu disse tivesse atingido algo dentro dele. Porém, é só isso. Logo, ele volta a ser o Michael irritante e provocador.
ㅡ Você está interessada em mim, porém não quer admitir.
ㅡ Você é tão arrogante!
ㅡ É melhor você ir. Tenho outras coisas para fazer hoje e ser babá não é uma delas.
Mostro minha língua de descontentamento e decido ir embora. Queria que meus saltos ecoassem pelo piso, porém isso não acontece por causa do carpete.
Ele é o maior idïota que eu já conheci! Mesmo que me faça vibrar por dentro com apenas um olhar…