Scarlett.
Levo um tempo para perceber que o alívio é real — não sei quanto —, mas, pouco a pouco, meu corpo finalmente começa a ceder. O tremor diminui. Minha respiração desacelera. O pânico, que antes me sufocava, recua o suficiente para que eu consiga pensar.
Ele não fez.
Ele não foi até o fim.
Ele não me forçou.
Ainda assim… é difícil acreditar.
Eu senti. Senti o quanto ele estava tenso, o quanto me queria. Não havia motivo algum para ele demonstrar misericórdia. Eu não sou uma mulher qualquer que ele encontrou por acaso — sou a inimiga que tentou feri-lo, que quase conseguiu.
Ele deveria ter aproveitado.
Deveria ter se alimentado do meu medo, da minha fraqueza, do jeito como eu implorei.
Deveria ter me quebrado.
É isso que eu esperaria de alguém como ele.
Baixo a cabeça, encarando minhas pernas nuas, tentando encontrar algum sentido naquilo. Christian De Luca não é inexperiente — muito pelo contrário.
De acordo com o dossiê, ele entrou para a Marinha dos Estados Unidos logo após o ensino médio e, poucos meses depois, já estava no programa de treinamento dos SEALs. Quase não há detalhes sobre suas missões — a maioria é classificada —, mas uma coisa está clara: eram perigosas.
Extremamente perigosas.
E então veio o motivo da saída.
Assassinato.
O homem que me mantém prisioneira matou o próprio comandante oito anos depois de iniciar o serviço… e desapareceu nas selvas da América do Sul.
Há um vazio de quatro anos no histórico.
Um buraco escuro.
Mas, eventualmente, ele reapareceu.
Como o braço direito de Zaytsev.
Letal.
Confiável.
Implacável.
Um arrepio percorre meus braços, e um instinto — algo profundo, primitivo — me faz erguer o olhar de repente.
E então eu vejo.
Dois pares de olhos escuros me observam pela janela.
Um deles é grande, cercado por cílios longos e densos. O outro, levemente amendoados.
Duas mulheres.
Jovens.
A dona dos cílios espessos se abaixa rapidamente, desaparecendo de vista, como se tivesse sido pega em flagrante. A outra permanece por um segundo a mais.
Ela tem mais ou menos a minha idade. Pele bronzeada, traços suaves, cabelos escuros moldando o rosto. Bonita.
E curiosa.
Muito curiosa.
O olhar dela me prende por um instante — avaliando, absorvendo cada detalhe da cena —, antes que ela também se abaixe e suma.
Fico olhando para a janela, confusa, esperando que voltem.
Mas elas não voltam.
Em vez disso, ouço passos.
Meu corpo enrijece automaticamente quando viro a cabeça e vejo Christian entrando no quarto, carregando outra cadeira.
Ele a posiciona diante de mim com calma calculada, senta-se e cruza os braços sobre o peito.
— Muito bem, Scarlett.
O olhar dele percorre meu corpo nu sem pressa, frio, avaliador… e então retorna ao meu rosto.
Não há mais vestígio do desejo de antes.
Apenas dureza.
— Que tal começar me contando a sua história?
O alívio acaba ali.
Engulo em seco, tentando manter a calma, tentando organizar meus pensamentos enquanto o medo volta a se infiltrar.
— Posso… tomar um pouco de água?
Minha garganta está seca, mas não é só isso. Eu preciso de tempo.
Qualquer tempo.
Ele não se move.
— Fale. Depois eu te dou.
Observo a rigidez da mandíbula dele. Não há espaço para negociação.
— O que você quer saber?
Talvez eu consiga controlar isso. Dar o suficiente… sem dar tudo. Como fiz antes.
— Você disse que começou aos onze.
O olhar dele é cortante.
— Me fale sobre eles. As pessoas que te recrutaram.
Droga.
— Eu não sei muito — respondo, mantendo a voz estável. — Eles me davam missões. Só isso.
Os olhos dele se estreitam.
Ele sabe que estou mentindo.
— É mesmo?
A voz é baixa. Enganosamente calma.
— E entrar na Universidade Estatal de Moscou… também foi uma missão?
— Foi.
Não adianta negar.
— Eles falsificaram meus documentos. Me colocaram lá para que eu pudesse viver em Moscou… e me aproximar de pessoas importantes do governo russo.
— Se aproximar como?
Ele se inclina levemente para frente, e algo escuro lampeja em seus olhos.
— Como exatamente esperavam que você cumprisse essa missão… linda?
Eu não respondo.
Mas ele entende.
Claro que entende.
— Quantos?
A voz dele agora corta como uma lâmina.
— Quantos você teve que levar para a cama para “se aproximar”?
Sinto o peso da pergunta como um soco.
— Três.
Minha voz sai firme, apesar do nó de vergonha que se aperta dentro de mim.
— Dois oficiais de menor escalão… e um amigo de Romanov.
Levanto o olhar, sustentando o dele.
— Eu tive que me envolver com três.
Faço uma pausa, então acrescento, sem pensar:
— Zaytsev teria sido o quarto… mas eu acabei com você.
O erro é imediato.
Vejo isso no jeito que os olhos dele se estreitam ainda mais, no brilho perigoso que surge ali.
Meu pulso dispara.
Por que eu disse isso?
Provocá-lo é uma péssima ideia.
Eu deveria estar apaziguando, não incendiando.
Mas o desprezo no rosto dele…
É como uma faca atravessando meu peito.
Ele se levanta de repente, alto, ameaçador, dominando o espaço ao meu redor. Eu inclino a cabeça para trás para encará-lo, me recusando a demonstrar medo… mesmo sentindo cada fibra do meu corpo em alerta.
Por um segundo, acho que ele vai me bater.
Mas, em vez disso, ele agarra meu cabelo com força, puxando minha cabeça ainda mais para trás.
A dor explode no meu couro cabeludo.
— Você queria eles?
A voz dele é baixa, carregada de algo perigoso.
— Seu corpo reagia assim pra eles também?
— Não.
A resposta é imediata.
Verdadeira.
— Não era assim. Era… só o que eu precisava fazer.
Não sei por que estou tentando explicar.
Não quero que ele ache que foi especial.
Mas também não consigo mentir sobre isso.
— Era o meu trabalho.
— Assim como eu era seu trabalho.
Ele me encara de cima, e por baixo da raiva, vejo algo mais.
Algo escuro.
Algo que ainda queima.
— Você usou seu corpo comigo… para conseguir informações.
Eu não n**o.
Vejo o peito dele expandir ao puxar o ar, como se estivesse se segurando.
Espero p************s.
Julgamento.
Mas não vem.
Em vez disso, o aperto no meu cabelo afrouxa um pouco. O suficiente para que meu pescoço não doa tanto.
— Scarlett…
Há algo diferente na voz dele agora.
— Quantos anos você tinha… quando ficou com o primeiro?
Pisco, surpresa.
— Dezesseis.
Ou pelo menos foi quando começou.
Boris Montgomery. Deputado. Mais velho. Influente.
Ele me apresentou ao mundo que eu precisava alcançar.
Christian repete, tenso:
— Dezesseis?
Um músculo pulsa na lateral do rosto dele.
— Quantos anos ele tinha?
— Quarenta e oito.
Respondo sem hesitar.
— Ele achava que eu tinha dezoito.
Silêncio.
Por um instante, acho que ele vai continuar pressionando.
Mas não.
Ele solta meu cabelo.
Dá um passo para trás.
— Chega por enquanto.
Aquela nota estranha volta à voz dele.
— Continuamos depois.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele se vira e sai.
Um minuto depois, ouço a porta da frente abrir… e fechar.
E então eu sei.
Estou sozinha novamente.
Mas, desta vez… o silêncio parece ainda mais pesado.