Scarlett.
Finjo estar dormindo enquanto Christian se veste e sai silenciosamente do meu apartamento.
Permaneço imóvel, respirando de forma lenta e regular, mesmo quando ouço o som suave do zíper da jaqueta, o leve ranger do assoalho sob seus passos. Ele hesita por um segundo perto da porta — ou talvez seja apenas minha imaginação — e então a fechadura automática clica quando ele sai.
O som ecoa pelo pequeno estúdio.
Estou grata por ele ter trancado.
Em Moscou, não se deixa uma porta aberta nem por alguns minutos. Ladrões são ousados, organizados e praticamente onipresentes. Uma oportunidade basta.
Fico com os olhos fechados por mais um minuto inteiro, contando mentalmente até sessenta para ter certeza de que ele não vai voltar.
Só então me levanto.
A mudança brusca de posição faz um leve incômodo se manifestar entre minhas pernas. Um lembrete físico da noite passada.
Automaticamente, meus pensamentos deslizam para a causa daquela dor suave — e, junto com ela, retorna aquela estranha pontada de tristeza.
As chances são de que eu nunca mais veja Christian de luca.
Pare com isso, repreendo-me com firmeza. Não há motivo para se apegar. Nós transamos. Só isso.
O que realmente importa agora é saber se Petrov conseguiu agir enquanto de luca estava fora do caminho. Se sim, minha missão aqui acabou. Minha cobertura é sólida, mas quando os russos perceberem que houve um vazamento, a suspeita inevitavelmente recairá sobre todos os envolvidos.
Inclusive sobre mim.
Pego o telefone enquanto me visto.
— Alguma novidade? — pergunto assim que Petrov atende.
— Temos um plano — ele responde, direto. — Conseguimos rastrear o Boeing C-17 de Zaytsev. É o único jato privado daquele porte programado para decolar nas próximas horas. Nosso contato no Uzbequistão cuidará do resto.
Eu paro no meio do movimento de fechar a bota.
— O que você quer dizer com isso?
— O exército uzbeque disparará um míssil quando o avião entrar no espaço aéreo deles — diz ele, como se estivesse comentando o clima. — Acidentalmente, claro. Os russos não ficarão satisfeitos, mas não vão iniciar uma guerra por causa de um traficante de armas. Nosso contato pegará prisão e rebaixamento, mas a família dele será devidamente compensada.
— Vocês vão derrubar o avião de Zaytsev?
Um nó frio se forma na minha garganta.
Não me importo com o destino de Zaytsev.
Mas a imagem de Christian morrendo dentro de uma carcaça de metal retorcido, ou sendo dilacerado por uma explosão no céu…
— Sim — responde Petrov. — Seria arriscado demais atacá-lo aqui. Ele tem quase cinquenta mercenários com ele. Não há outra forma viável.
— Entendo.
Minha pele fica gelada, como se alguém tivesse passado sobre minha própria sepultura.
— Então todos vão morrer.
— Se tudo correr conforme o planejado, sim. Eliminamos a ameaça de uma vez só e sem baixas do nosso lado.
— Certo. Tento colocar um tom adequado na minha voz — profissional, satisfeita — mas não sei se consigo. Tudo o que consigo ver é o corpo grande de Christian queimado, destruído, os olhos claros fixos no vazio do céu.
Não deveria importar.
Ele não significa nada para mim.
— Precisamos tirar você daí — continua Petrov. — Se os russos investigarem a fundo e nosso contato no Uzbequistão decidir falar, não levará muito tempo para descobrirem como a informação chegou até nós. Sempre soubemos que esta missão tinha riscos.
— Tudo bem. Onde encontro a equipe?
— Pegue o metrô até a estação mais próxima. Um carro estará esperando.
E a ligação termina.
Levo menos de vinte minutos para arrumar tudo.
Vivo em Moscou há seis anos, mas acumulei poucas coisas que realmente importam. Maquiagem. Escova de cabelo. Uma troca de roupas íntimas. Passaporte falso. Minha arma.
Tudo cabe na minha grande bolsa Gucci.
Também verifico minha aparência no espelho. Jeans de grife enfiado dentro de botas de cano alto sem salto. Suéter de cashmere. Casaco grosso e elegante. Aquecida e estilosa.
Se alguém me observar saindo, verá apenas uma jovem profissional indo trabalhar em um inverno brutal.
Depois de fechar a bolsa, passo um pano em todas as superfícies do apartamento, eliminando impressões digitais. Não deixo nada que possa me vincular ao local.
Tranco a porta com cuidado ao sair.
Não me importo se ladrões entrarem depois disso, mas não há motivo para facilitar.
A rua parece normal. Ainda assim, mantenho atenção redobrada. Olhares reflexivos em vitrines, passos sincronizados atrás de mim, carros parados por tempo demais — tudo é analisado.
Nada suspeito.
Mesmo assim, quando me aproximo da estação de metrô, os pensamentos sobre Christian retornam.
Será rápido?
Ou lento?
O míssil o matará instantaneamente? Ou ele permanecerá consciente o suficiente para entender o que está acontecendo?
Ele suspeitaria de mim?
O nó na minha garganta aperta até quase sufocar.
Por um momento insano, sinto o impulso avassalador de ligar para ele. Avisá-lo. Dizer para não embarcar naquele avião.
Minha mão chega a entrar na bolsa.
Eu a retiro bruscamente e enfio no bolso do casaco.
Estúpida.
Eu nem sequer tenho o número dele.
E mesmo que tivesse, avisá-lo significaria trair Petrov.
Trair meu país.
Trair Misha.
Não.
Respiro fundo enquanto desço as escadas para o metrô lotado. A essa altura, a operação já não está sob meu controle. Petrov e sua equipe conduzem tudo. Meu único objetivo agora é sair da Rússia sem levantar suspeitas.
Além disso, mesmo que Christian de luca não estivesse ligado a um homem que acaba de se tornar inimigo da Ucrânia, não há espaço para romance na minha vida.
Se ele morrer ou sobreviver não deveria importar.
Porque, de qualquer forma, eu nunca mais o verei.
O trem chega, abarrotado como sempre. Sou empurrada junto com a multidão e consigo entrar antes que as portas se fechem.
Seguro firme no corrimão, comprimida entre duas mulheres de meia-idade. Um homem mais velho sentado à minha frente me lança um olhar lascivo. Ignoro.
Mais algumas horas, e deixarei isso para trás.
Voltarei para Kiev.
Fecho os olhos e tento me concentrar nessa ideia. Em casa. Em Misha.
Meu irmão tem quatorze anos agora. Já vi fotos recentes. Está alto, bonito, os mesmos olhos azuis brilhantes. Sempre sorrindo. Sempre cercado de amigos.
Feliz.
Toda vez que recebo uma foto, fico horas olhando. Pergunto-me se ele se lembraria de mim. Se reconheceria meu rosto na rua.
Provavelmente não. Ele tinha apenas três anos quando foi adotado.
Mas gosto de imaginar que alguma parte dele se lembraria.
Da maneira como eu o protegi naquele ano brutal no orfanato.
Um anúncio chiado interrompe meus pensamentos.
O trem está desacelerando.
— Pedimos desculpas pelo atraso — anuncia o condutor. — O problema será resolvido em breve.
Um coro de reclamações ecoa pelo vagão.
Eu suspiro e verifico o celular.
Sem sinal.
Ótimo.
Guardo o aparelho, tentando controlar a irritação. Com sorte, será apenas um reparo rápido. No mês passado, um cano estourado causou atrasos de três horas.
Se isso acontecer hoje, talvez eu chegue ao ponto de encontro apenas no fim da tarde.
E, no fim da tarde…
O avião de Christian provavelmente já estará sobrevoando o espaço aéreo uzbeque.
Talvez ele já esteja morto.
Meu estômago se revira violentamente.
Pare com isso, Scarlett .
A sensação piora — um vazio ácido.
Então percebo.
Eu não comi nada hoje.
Saí às pressas. Nem uma maçã.
Claro.
É só fome.
Nada a ver com Christian.
Repito isso para mim mesma como um mantra.
Quando o trem voltar a andar, vou comer alguma coisa.
Vou chegar ao meu destino.
Vou estar segura em Kiev.
E nunca mais pensarei em Christian de luca.