°•°• Bell Wang P.O.V °•°•
A voz de Tomy, parecia sair de alguma ventilação, abafada, longe, e baixa. Sempre ouvia ele em algum momento, era como se estivesse sempre tão perto e tão longe ao mesmo tempo, tentava imaginar seu rosto mas era como um imensidão escura e sombria, como uma prisão, um quarto escuro e silencioso.
Aos poucos, como todos os dias, aquele lugar se iluminava, fraca como a chama de uma vela, iluminando o suficiente só para que eu visse minhas próprias mãos.
Mas foi diferente, a luz não era oscilante como antes, estava firme mesmo sendo baixa, uma carícia tocou minha pele, um mão quente e macia.
Pude ouvir a voz dele novamente, carregada de angústia, mas cheia de carinho também, consegui mentalizar seu rosto por alguns segundos, e sorri.
Eu queria tanto responder todas as vezes que eu escutava a sua voz, pedir ajuda pedir que me tirasse daqui, dizer que sim, eu posso ouvi-lo, seu chamado não foi em vão eu ainda estou aqui e eu posso ouvir cada palavra todos os dias, mas da minha boca não sai som algum, ja tentei gritar.
Não sabia o que queimava mais a agonia de não consegui ser ouvida ou as lágrimas que deixaram minhas bochechas marcadas.
Abri os olhos, com medo, depois de ver tão brevemente em minha imaginação aquele sorriso tão iluminado, aqueles olhos brilhantes e cheios de vida, eu temi abrir os olhos e ainda estar presa nesse inferno.
Ele estava ali? Não seria possível, mas senti sua mão tocar a minha, em silencio, apenas devolvi aquele carinho em sua mão.
Um choque brusco de repente, como um susto apenas, me fez abrir os olhos, sentir o ardor na minha retina com a luz tão forte.
— Ela acordou mesmo, ela acordou! - Ouço Taeyoun dizer animado e espantado me deixando confusa.
— Olha pra mim... Olha pra mim, oi Bell voce vai ficar bem o medico ta vindo ok? Não feche os olhos, se fizer isso, eu vou ficar muito puto!
(...)
Se passou muito tempo, ou como vou saber se nem acesso as horas eu tenho, mas passou, sinto que passou tempo de mais que eu não me levantava, foi feito tantos e tantos exames, no decorrer do dia, ou dos dias, desde que abri os olhos vi o sol se por três vezes pela janela. Eu só quero sair daqui, e logo.
— Acordada? - Guil entrou no quarto, segurando uma pasta.
— Não, apenas dormindo de olhos abertos...
— Ei, qual é, você ta bem ríspida esses dias seja gentil, vai acabar logo!
— Você disse isso ontem...
— Mas... Isso aqui na minha mão seria uma piada?
— É a minha alta?
— Na verdade é sim... E isso aqui, ele tira do bolso, um anel brilhante de prata. — É seu presente, eu comprei como um troféu por ser tão forte, e de aniversário vamos se vista e vamos pra casa...
Meu sorriso nunca foi tão sincero, porém, algo tinha que dar "errado".
— Licença... Posso conversar com você? - A voz feminina me fez virar instantâneamente, eu estava vestida e pronta para ir embora, mas, quem eu menos esperava ver apareceu.
— Mãe...
— Eu ia dizer que ela estaria esperando a gente na sala de espera como foi o combinado...
— Sabia que ela estava aqui e não me disse? - perguntei ao meu irmão.
— Eu não quero brigar...- era notável o rosto abatido, os olhos vermelhos e o nariz rosado, ela estava m*l, me partiu o coração e um nó se formou em minha garganta, nada disso foi culpa dela mas ela mesma poderia ter evitado tanta coisa.
— Tive medo... Fui covarde e fugi, mas eu corri pro lado errado filha... Por favor me perdoa, eu nunca imaginei que um dia chegaria tão longe... Eu quase perdi a pessoa que eu mais amo no mundo, eu quase perdi a minha filha, por medo de dizer "não" e eu nunca vou me perdoar por isso... Não me expulse da sua vida, não me odeie, eu não vou te obrigar a morar comigo... Volte quando se sentir bem, quando quiser voltar... Mas me perdoa filha, nunca mais vou deixar ninguém te fazer mal... Eu juro! - Ela dizia com a voz falha, entre soluços e lágrimas se ajoelhou no chão sem forças por tanto chorar. Me abaixei em sua frente e abracei com força.
— Eu nunca vou te odiar minha mãe, a culpa não foi sua, aquele monstro destruiu nossas vidas, eu achei que tivesse perdido a minha mãe, mas agora eu a tenho de volta... eu te perdoou se me perdoar por ter ficado tão distante da senhora, quando mais precisou, eu também tive medo e também fugi pro lado errado...
(...)
Depois de alguns minutos chorando abraçadas, nos levantamos conversei com meu irmão e decidi que voltaria pra casa, e ficaria ao lado da minha mãe, com uma unica condição, que ele fosse comigo.
Como Guil ja morava sozinho, ele se mudar pra minha casa não faria diferença mas algumas coisas deveriam ser ditas, como esclarecer com nossas familias quem eramos, e essa parte correu muito bem, agora minha mãe tinha sua antiga amiga de volta, superaram as diferença a do passado e até marcaram de sair.
E eu voltei ao meu quarto, a minha casa onde eu cresci, mas aquele quarto não era o mesmo, tinha mais um quarto, um outro cômodo onde seria o quarto de meu irmão mas devidos os acontecidos dentro daquelas quatro paredes, eu pedi para trocar.
Novo quarto, um novo recomeço, achei que nunca mais abriria os olhos pra ver o quintal e o jardim dessa casa novamente, as flores morreram, e a grama esta alta, vou ter muito o que fazer nos próximos dias.
(...)
A recuperação está sendo tranquila, em todos os sentidos, é bom estar de volta em casa, não vou ficar longe do meu irmão e nem da minha mãe.
Tudo esta como antigamente agora, mas claro me refiro aos bons tempos, sem o Tonto, mas ainda sim é um bom momento para estar viva.
(...)
Estava em casa a uma semana a adaptação de Guil foi muito tranquila, minha mãe o tratava como filho. Hoje eu iria me encontrar com Taeyoun, estava pronta para sair, marcamos noite passada um pouco em cima da hora já que ele estava um pouco sem tempo para me ver, depois q me recuperei Tom ficou mais ausente, talvez por que passou tanto tempo naquele hospital que nem pôde ficar com a própria familia depois de ter recuperado a memoria com tão pouco tempo.
Por um momento, senti aquele vazio novamente, a quanto tempo estávamos nesse ciclo, e ele não se lembrava de forma alguma e ta cada vez mais distante, vale a pena insistir nisso? "Eu o amo o suficiente a ponto de continuar tentando? Ou o suficiente pra esquecer isso pra sempre?".
Não tenho uma resposta pra essa pergunta, quem eu amei, não é esse Tom, quem eu amei esta morto, talvez seja melhor aceitar que ele se foi. "De novo esse dilema, esses pensamentos" O que eu devo fazer então? Eu amo esse novo Tom, o verdadeiro? Ou, eu só vejo a imagem de um amor que se foi em alguém que eu não conheço?
— Bell? - Guil me chama.
— Ah... O que?
— Eu to saindo quer que eu te leve?
— Eu acho que... Vou ficar em casa hoje...
Ele concordou com a cabeça sem questionar e saiu, peguei meu celular e liguei pra Taeyoun que atendeu de imediato.
— Ah tudo bem se a gente deixar pra outro dia? Eu... Não quero sair hoje... Mudei de ideia, preciso ficar... Sozinha... - Eu quero ficar sozinha, quero um tempo, ele ficou bem silencio mas logo concordo dizendo um tudo bem, e então eu me despedi e desliguei.
(...)
A tarde morna, com cheiro de verão, o sol se pondo aos poucos deixando o rastro de calor pelas ruas, respirei fundo e me levantei do jardim, os vasinhos que antes estavam com resto de plantas mortas, agora estavam limpos, amanhã iria atrás de sementes para fazer novo plantiu.
Deixei meu celular de lado, a tela trincada estava fria, nunca fiquei tanto tempo longe daquela tela mas me senti tão bem.
(...)
Depois de um banho, fui até a cozinha, comemos todos juntos e eu não disse muito sobre meu dia, e deixei que Guil e minha mãe conversassem mas isso não passou despercebido.
— Você esta bem? - Meu irmão perguntou.
— Sim, eu acho que sim, alias... Pode me levar para comprar sementes amanhã? Estou refazendo meu amado jardim... E todas minhas flores se foram... Então preciso de novas sementes!
— Claro que levo, que horas quer ir?
— Na hora que você for sair, sem pressa... Ah... mãe, pode me trazer uma mudança daquela rosa que tínhamos?
— Ah sim, tem onde eu trabalho eu dou um jeito de trazer sim!
(...)
O gosto r**m da pasta de dente na minha boca ia sumindo aos poucos, era quase duas da manhã, mas eu ainda encarava o teto do quarto, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. Flores brotam nessa época do ano, o que eu sinto por Tom, só existiu no passado, é uma projeção do que ja foi real, ou eu também me apaixonei pelo outro Tom que eu conheci?
"Eu preciso dormir..."
Se passou uma semana os primeiros Brotinhos se exibiam radiantes na terra adubada e eu sorri orgulhosa, estão brotando, a onde havia flores mortas agora nascem novos brotos, pequenos e frágeis.
A campainha de casa tocou, lavei minhas mãos na torneira do quintal, e corri para abrir a porta, era Tom, parecia triste e bravo.
— O que fez aqui? - Sorri.
— O que eu faço aqui? É serio? Você não fala mais comigo, então tive que vim sem avisar...
— Ah eu to pensando bastante e refazendo meu jardim, eu só preciso de tempo.
— Tempo? Mais tempo? Bell você ta me deixando... Esta quebrando a sua promessa, esta desistindo...
— E por que se importa, "nós" nunca existimos... O que eu quero dizer é que ainda estou com uma duvida... Se eu amo você ou quem você foi...
— Você... Me ama?
— Amo o Tom que eu conheci, mas não sei se insistir nisso vale a pena, mas eu ainda quero continuar, então me diz, é por que eu estou projetando o passado em você ou por que me apaixonei por essa nova versão sua, esse outro você?
— E se for os dois... Bell... Não sei se é amor ou não, mas penso em voce o dia todo, quero ficar perto de você sempre que você passa pela minha cabeça ou seja sempre... Eu quero... Poder te abraçar toda noite pra dormir quero te ver sorrir... Eu amo o seu sorriso.
— Tom esta morto, e eu já decidi isso... Você não vai se lembrar... E eu não quero viver com essa duvida, não quero estar com você e ainda ter essa vontade... Essa... Dor no peito por você não ser quem eu quero que seja!
— Então você ta me deixando também...
— O que?
— Não tenho culpa de não lembrar, não tenho culpa se você se sente assim, mas e eu? O que eu sinto não importa? Eu sendo quem eu fui ou quem eu sou, lembrando ou não é com você que eu quero ficar... Eu te amar tanto quanto o outro eu ja te amou não conta? Como quer recomeçar uma nova vida, se não conseguir superar isso, e me dar uma chance uma chance pra eu Taeyoun, esse que você ta vendo agora...
— Eu não consigo... Eu não sei o que eu sinto por você... Eu não conheço esse você...
— Saimos tantas vezes... Como diz que não me conhece... Esta dando desculpas a si mesma, seja sincera...
— Não quero que se queime, eu tranformei isso tudo num incêndio... E você não merece sofrer por um passado que não se lembra, então eu prefiro queimar sozinha!
— Eu quero me queimar! Não pode me impedir de amar você... Não pode controlar o que sente!
— Voce não sabe o que eu sinto!
— Sim, eu sei... - Ele se aproxima e pega em minha cintura, sinto seus labios nos meus e meu coração dispara e sinto minhas mãos esfriarem.
Separei o beijo lentamente e ele me olhava nos olhos, os olhos brilhantes que transmitiam toda a chama daquele incêndio, e eu não estava mais sendo queimada, a sensação de segurança que aquele beijo me trouxe, acelerou meu coração e acalmou minha mente, respirei fundo, e notei ter prendido a respiração sem querer.
— Você sente o mesmo... Mas tem medo, posso não lembrar do que a gente viveu mas eu te amo, e te prometo dias e noites tão lindos quanto o por do sol de verão... Recomece comigo... E eu te provo ser o mesmo Tonto, mesmo sem memória.