CAPÍTULO NOVE

1020 Palavras
*GABRIELA BORGES* Eu não sou uma boa analista comportamental, mas a forma como o Marcus segurou o volante não me parecia nada boa. Segurei minha mochila no colo. — Marcus, eu... — ele passou direto da minha casa — pra onde está indo? — Você me bloqueia, não atende minhas ligações... Vou te levar a um lugar onde teremos privacidade para conversar. — Não tem ninguém na minha casa, teríamos privacidade lá — ele sorriu de uma forma que não me agradou. — Para, para o carro, quero descer, não quero conversar, não temos o que conversar, acabou, me deixa descer — gritei. Ele freou de repente. Como eu estava sem cinto, meu corpo foi para frente. Coloquei a mão na frente para não bater o rosto. Uma dor horrorosa surgiu no meu pulso, mas deixei para me preocupar com isso depois. Primeiro, queria sair daquele carro. — Você está louco, só pode — tentei abrir a porta, no entanto, estava travada. — Marcus, me dei... ai... Antes que eu pudesse terminar a frase, senti uma picada próxima ao meu pescoço. Virei-me para olhá-lo e ele tinha uma seringa na mão. — Você precisa se acalmar, relaxa... Logo você estará em casa! Levei a mão até o local onde ele aplicou sei lá o quê em mim. A incredulidade e o medo estavam me deixando paralisada... ou era uma reação do medicamento? Pisquei diversas vezes, tentando manter os olhos abertos, mas estavam pesados. — Marcus, o que você fez comigo? — Relaxa, eu vou cuidar de você! Ele tirou minha mochila do colo, jogando-a para o banco de trás, passou o cinto em mim e essa foi a última coisa que vi antes de apagar completamente. Vez ou outra eu acordava e via uns flashes da estrada. A primeira vez ainda era dia, na segunda já era noite. **** Acordei em uma cama confortável. Desejei que tudo não passasse de um sonho r**m, mas infelizmente não era. Eu ainda estava vestida com meu uniforme escolar, e meu pulso estava enfaixado. Me sentei na cama, observando o local: um cômodo grande dividido por ambientes. A parte onde eu estava era o quarto — tinha uma cama de casal, um baú e uma cômoda de seis gavetas. Me levantei da cama e caminhei até onde era a sala: um sofá em formato de C, uma estante, uma TV de 29 polegadas, um aparelho de DVD, um HD externo e um tapete no chão. A cozinha tinha uma mesa com duas cadeiras, micro-ondas e geladeira. Havia duas portas. Uma estava trancada e a outra era o banheiro. Não tinha janela nenhuma no local. O desespero me atingiu em cheio. Era um cativeiro muito bem planejado. Fui até a porta trancada e comecei a bater e gritar. Meu pulso doía com os socos que eu dava na porta. Bati e gritei até cansar, e ninguém apareceu. Não sei quanto tempo se passou. A porta abriu. Marcus segurava uma pequena mala na mão. — Conseguiu descansar? Se sente mais calma? — ele perguntou com naturalidade. — Trouxe roupas para você, espero que goste! — Você é louco? — Tome um banho, precisa se alimentar. Não comeu nada ontem. — Marcus, me deixa ir para casa! — Você está em casa. Vi que ele tinha deixado a porta aberta e corri para ela. Ele não correu atrás de mim. Passei pela porta e continuei correndo por um corredor longo. Ouvi os passos dele vindo e corri o mais rápido que pude até encontrar uma escada. Subi, encontrando uma porta de metal com senha para ser aberta. Suspirei frustrada. Chorar não adiantaria nada. E, para ser sincera, eu não queria chorar. Eu estava com medo e com muita raiva — raiva de mim por ter me colocado nessa situação e raiva dele por ser um maluco psicopata. Senti a mão do Marcus afagar meus cabelos. Estava tão distraída na minha frustração com a porta que não ouvi os passos dele. — Você precisa de um banho, amor — ele falou de forma carinhosa. — Marcus, me deixa sair, por favor! — implorei. — Faça para mim uma lista com os produtos que você gosta, que amanhã eu troco os que estão no banheiro! — ele segurou em meu braço, me guiando escada abaixo, me levando de volta. — Por que está fazendo isso? Me deixa ir embora. Vão sentir minha falta, Marcus — ele sorriu um sorriso amargo. — Quem? Seu vizinho que te come no tempo livre? Sua mãe? — ele segurou meu queixo com força. — Você só tem a mim, Gabriela. Agora chega. Você está há dois dias sem banho e sem comer, então para de graça e venha. — Você me botou para dormir dois dias? Ele me olhava como se fosse uma coisa normal de se fazer. De volta à minha nova "casa", ele me guiou até o banheiro. — Pode me dar licença? — pedi, já que ele entrou no banheiro e ficou encostado na parede com os braços cruzados. — Por favor! Ele saiu. Pensei em trancar a porta do banheiro, mas não tinha chave. Tirei minhas meias e comecei a abrir os botões da blusa. Em cima da pia do banheiro havia uma cesta com produtos de higiene pessoal. Peguei o que precisava e entrei no box. Tomei um banho rápido. Não queria arriscar que ele entrasse para me buscar. Vesti um vestido florido que ele me trouxe. Saí do banheiro. Ele estava retirando alguma coisa do micro-ondas. Fez sinal para eu me sentar à mesa. Meu estômago roncou ao sentir o cheiro da comida. Ele colocou uma travessa de lasanha em cima da mesa. Os pratos, copos e talheres eram descartáveis, talvez para que eu não tivesse acesso a vidro ou objetos cortantes. Ele cortou a lasanha e nos serviu. Apesar da fome, eu só comi depois que ele comeu. Comemos em silêncio, ele me observando como se eu fosse uma casa que precisava de reparos. — Baixei os filmes para você. Estão no HD externo. Tem TV a cabo. Se quiser, posso te trazer uns livros também
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