Houve uma pausa, uma leve recuperação em sua respiração. "Ela está aqui há mais de uma semana. Ela nunca se vestiu como os outros. Presumi que... você não estava interessado." Ele engoliu com dificuldade antes de continuar. "Minhas desculpas, Majestade. Mas você está realmente me interrogando por tratar uma humana da maneira que ela merece? Se ela não tem utilidade entre as pernas, então ela não tem utilidade alguma."
Deixei que o silêncio se estendesse entre nós enquanto eu dava as costas. "O propósito da humana aqui é meu para determinar."
Atrás de mim, sua voz se elevou novamente. "Mas ela está na ala leste, não está? Isso a torna uma deles. Uma prostituta. Se eu lhe fizer uma visita, ela não poderá nem dizer não..."
O resto nunca saiu de sua boca, porque Ragnar veio à tona antes que minha mente pudesse detê-lo. "Não!"
Meu corpo estava se movendo. Sem hesitar, cruzei o espaço entre nós, com a mão já fechada na frente de seu uniforme, levantando Saulo do chão, com os pés raspando contra o solo antes que ele estivesse no ar.
Sua respiração ficou presa em um suspiro, "Gkh!", pouco antes de suas costas baterem com força contra a mesa.
Eu não o soltei.
Nem sequer pisquei.
Uma mão permaneceu firme em seu colarinho, mantendo-o preso onde estava, enquanto meu outro braço estava apoiado ao lado de sua cabeça.
"Repita isso", eu me inclinei, perto o suficiente para que ele pudesse sentir o tremor sob minha pele que não pertencia a mim. Era o Ragnar. "Eu não o ouvi."
Ele abriu a boca, mas não saiu nada. Apenas um ruído seco de medo.
"Você fala dela como se fosse algo que pudesse tomar", murmurei, "mas deixe-me esclarecer uma coisa, Saulo, nada é seu até que eu diga que é. E quando algo é meu. E quando algo é meu..." Eu o puxei para mais perto, "...eu não deveria ter que dizer uma palavra sequer."
Seus olhos me encararam, mais atordoados com a velocidade do que com a violência.
Eu o mantive ali por mais um suspiro, depois o soltei com um empurrão. "Vá."
Ele caiu como um peso morto, tossindo e ofegando, com uma mão agarrada à garganta enquanto se arrastava para trás pelo chão.
Ela não era minha, mas Ragnar havia deixado uma coisa clara: ela não pertencia a mais ninguém.
**
Angelina POV
Três noites.
Eu comi. Tomei banho. Dormi... e me odiei por tudo isso. Porque toda vez que eu engolia algo doce, pensava nas meninas que não recebiam migalhas. Toda vez que me afundava naquele colchão macio demais, lembrava-me de como eram os pisos de pedra e de como era dormir enrolado debaixo das mesas.
Mas a ala leste nunca dormia.
Todas as noites, eu ficava acordado, com os lençóis puxados até o peito, ouvindo o som que agora eu tinha certeza que viria. Logo depois que os guardas faziam a ronda, uma batida suave e, em seguida, a voz de uma garota. "Estou pronta."
Eu havia dito a mim mesmo para parar de ouvir, mas hoje à noite, quando ouvi uma batida, passos lentos, o estalo silencioso de uma porta se abrindo, levantei-me, fui até a porta, encostei meu ouvido na madeira e esperei.
"Pronta, querida?", perguntou o guarda.
"Sim, é claro. Eu... Ouvi dizer que ele prefere que não falemos, a não ser que falem com ele. Isso é verdade?"
Ele deu um risinho baixo. "Depende da noite. Mas fique quieta e você ficará bem."
"Eu estava esperando minha vez", acrescentou ela, mais suave agora. "Algumas das garotas disseram que é uma honra."
O silêncio que se seguiu foi mais alto do que as palavras.
Abri a porta, apenas o suficiente para ver que eles já estavam de costas para mim: a mão do guarda enrolada firmemente em torno do braço fino da garota, a cabeça dela virada para baixo, o cabelo cobrindo metade do rosto.
Meus dedos se enroscaram na borda da porta. Será que ele realmente matava uma garota todas as noites?
Entrei no corredor, descalço, e o corredor estava frio, mas minha pele queimava enquanto eu me movia silenciosamente, seguindo-os à distância, mas eles desapareceram na esquina.
Droga!
Encostei-me à parede, com o coração batendo forte, e então ouvi passos, novos passos, vindos da direção oposta. Esgueirei-me para trás de um pilar grosso bem a tempo.
Quando a figura passou, virei a cabeça e olhei.
Não era o mesmo guarda de antes. Esse era mais velho, mais largo nos ombros, e o que ele carregava nas costas fez com que minha respiração ficasse presa na garganta.
Uma garota.
Seu corpo estava mole, os braços balançando frouxamente a cada passo, a cabeça inclinada para o lado, o cabelo caindo como uma cortina sobre o rosto.
Não estava inconsciente ou dormindo. Estava morta.
Ele não se apressou, apenas caminhou como se essa fosse apenas mais uma tarefa em uma longa lista.
Esperei até que ele passasse pela esquina e saí, com meu pulso pulsando constantemente atrás das orelhas. Segui-o à distância, mantendo-me nas sombras e abaixado.
O corredor foi ficando mais escuro à medida que nos aprofundávamos no castelo, o piso mais áspero, as paredes mais frias, até que finalmente ele parou em frente a uma porta de ferro embutida na pedra.
Ele deixou a garota cair sem cerimônia a seus pés, seu corpo aterrissando com um baque úmido, e puxou um molho de chaves.
Deusa!
Naquele momento, outros passos se aproximaram de uma passagem lateral. Um segundo guarda emergiu da escuridão, mais jovem. "Esse aí já está?", perguntou ele, acenando com a cabeça para o corpo. "Não chegou nem ao nascer do sol?"
O homem mais velho grunhiu ao girar a chave. "m*l chegou à meia-noite."
O mais jovem se agachou ao lado da garota por um segundo, verificando o pulso dela em busca de um pulso que não estava lá. "Eles estão ficando mais fracos", disse ele. "Ou ele está ficando com mais fome."
A porta se abriu com um rangido e o cheiro me atingiu... podridão.
O guarda mais velho chutou o corpo para a frente com sua bota, arrastando-a por um braço através da porta. "Ela vai com os outros", ele murmurou. "A pilha está ficando alta."
Engoli com força, meu estômago se revirou, mas me forcei a segui-lo, ficando longe o suficiente para não ser visto. A porta de ferro não havia se fechado completamente, e eu passei pela a******a estreita pouco antes de ela se fechar.
O que havia além não era apenas uma sala, era um corredor refrigerado, estreito e estéril, com as paredes curvas revestidas de painéis brancos. As luzes do teto zumbiam instáveis, lançando uma tonalidade fria e azulada que fazia com que tudo abaixo dela parecesse sem sangue.
Os dois guardas avançavam, suas sombras se estendiam pelas paredes e o corpo da garota se arrastava entre eles como se ela não passasse de um saco de pano.
"Quanto tempo falta para ele pedir outro?", perguntou o mais jovem ao virarem uma esquina.
"Ele já pediu", disse o mais velho. "Hoje à noite."