Eles desapareceram na escuridão, então continuei andando, um pé na frente do outro, com as solas dos pés dormentes por causa do piso congelado. O zumbido da refrigeração ficou mais alto.
Ele não havia trancado a porta atrás de si, provavelmente planejava voltar. Hoje à noite.
A maçaneta estava fria sob meus dedos, coberta de condensação, então hesitei, apenas por um segundo, e depois a abri.
O ar lá dentro estava tão frio que roubou o fôlego de meus pulmões.
Fileiras de gavetas de aço inoxidável forravam as paredes, fechadas com travas grossas, como em um necrotério. Mas nem todas estavam fechadas. Algumas estavam abertas, algumas com lençóis brancos sobre o que estava dentro, outras totalmente expostas, como se alguém tivesse parado no meio da organização dos mortos e simplesmente ido embora.
Um som estrangulado saiu de minha garganta, meio gemido, meio soluço, mas foi engolido pelo zumbido da refrigeração.
Elas estavam por toda parte.
Mulheres humanas.
Minha mão voou para minha boca quando a bile subiu, meu estômago se revirou violentamente ao ver uma mecha de cabelo escuro saindo de baixo de um dos lençóis.
Algumas ainda usavam as camisolas delicadas e transparentes com as quais haviam sido vestidas; uma tinha sangue seco nos cantos da boca; outra tinha hematomas na parte interna das coxas que escureciam contra a pele pálida.
Eu não conseguia me mexer.
Eram muitas.
E ele as matou.
Meus joelhos se dobraram e tive de me agarrar à borda da gaveta mais próxima para não cair.
"Oh, meu..." Uma inspiração aguda escapou de mim, minha garganta se apertou enquanto eu me movia, com a intenção de me aproximar, mas antes que meu pé pudesse tocar o chão, algo se agarrou à minha cintura.
Uma mão sufocou minha boca.
"Deusa!" Tentei gritar, mas o som saiu abafado contra a palma da mão.
"Não faça isso", uma voz sussurrou em meu ouvido. "Sou eu."
Rose.
Ela se inclinou para perto de mim, com os olhos voltados para a porta, como se estivesse esperando alguém entrar. "Você não deveria estar aqui", ela sibilou. "Se eles virem você..."
Rose não terminou a frase. Ela não precisava.
"Vamos sair daqui." Rose soltou minha boca, mas agarrou minha mão e seus dedos estavam gelados.
**
Durante as primeiras horas da manhã, a porta se abriu sem aviso, e a estrutura de Drakkar preencheu a entrada, seu tamanho era tão esmagador que parecia que a estrutura de madeira poderia se estilhaçar ao seu redor.
Seu olhar se fixou em mim instantaneamente, um predador avistando algo que ousou se mover sem permissão. "Você estava no freezer."
Fiquei em silêncio, sentada rigidamente na cama, com os dedos enrolados nos lençóis.
"Não gosto de bisbilhoteiros", continuou ele, entrando na casa, e o lento baque de suas botas contra o chão provocou pequenos tremores em mim. "Você vai ficar exatamente onde eu disser. A menos que queira acabar como os outros."
"Os outros?" Minha voz ficou um pouco trêmula. "Você quer dizer aqueles que você matou?"
Um músculo de sua mandíbula se contraiu e, por um momento, sua expressão escureceu. Em dois passos, Drakkar estava na beira da cama, as sombras da luz da vela esculpindo linhas duras em seu rosto.
Sua mão se estendeu, com os dedos agarrando meu tornozelo com força. Um puxão forte me arrastou para mais perto, com os lençóis se enroscando em minhas pernas.
"Cuidado, pequena humana", disse Drakkar, seu tom caindo para um rosnado. "Você não quer que eu responda isso."
"Você não me assusta", sussurrei, embora meu coração estivesse batendo tão violentamente que me perguntei se ele poderia senti-lo através do meu tornozelo.
"Não?" Um sorriso predatório curvou seus lábios enquanto seu olhar deslizava até onde minha perna tremia. "Então por que você está tremendo?"
Seu aperto de mão se intensificou, puxando-me ainda mais para perto, até que seus joelhos roçaram a borda do colchão e pude sentir o calor de seu corpo.
Meus dedos deslizaram por baixo dos lençóis, enrolando-se no pedaço de vidro que eu havia escondido ali.
Prendi a respiração até que seu corpo se inclinasse o suficiente, perto o bastante para que eu pudesse sentir o sussurro de sua respiração contra minha pele nua, e então me movi.
O vidro cortou seu abdômen em um único movimento. Sua inspiração aguda encheu a sala e o cheiro metálico de sangue inundou o ar. "Filho da p**a", rosnou Drakkar.
Ele nem sequer olhou para o ferimento. Seus olhos... aqueles olhos azuis frios e abrasadores estavam fixos em mim.
Antes que sua mão pudesse me apertar novamente, eu me empurrei para trás, soltando-me da cama e correndo pelo chão.
Eu me joguei.
Cada esquina que eu virava parecia estreita demais, cada corredor longo demais, e a imagem do sangue dele em minhas mãos só fazia meu coração bater mais forte.
Se ele me pegasse...
Então, fui direto contra ele.
Um soldado.
Sua mão agarrou meu braço, empurrando-me para trás com tanta força que quase perdi o equilíbrio. "Majestade?", ele gritou, olhando por cima do meu ombro enquanto a silhueta de Drakkar enchia o corredor.
Seu tom era incerto, com os olhos passando entre o sangue na camisa do rei e o pânico em meu rosto. "Ela atacou você? Quer que eu a leve para as celas?"
Mal tive tempo de respirar antes que Drakkar diminuísse a distância.
Ele não respondeu. Sua mão disparou, envolvendo minha garganta enquanto ele me arrancava das garras do soldado como se eu não pesasse nada.
Meu corpo colidiu com o dele, o calor de seu peito queimando o tecido fino de minhas roupas.
Seu aperto era firme o suficiente para me segurar e me fazer sentir completamente presa, mas havia uma precisão na forma como ele me segurava, como se soubesse exatamente quanta pressão usar.
Drakkar me bateu contra a parede com tanta rapidez que o impacto fez minha coluna estremecer, mas sua mão permaneceu firme em minha garganta.
"Você está dispensado", disse ele ao guarda, sem nem mesmo olhá-lo de relance.
O soldado hesitou por meio segundo, depois se afastou apressadamente, deixando-me sozinho com o monstro.
O aperto de Drakkar se intensificou, e um som áspero escapou de mim enquanto meus pulmões ardiam por ar. "Argh..."
Seu rosto estava próximo. "Só vou dizer isso uma vez", rosnou ele, com voz baixa e perigosa, cada palavra roçando em meus lábios. "Eu não quero você..."
"É claro que vou desobedecer a você", gritei. Meu peito pesou contra o dele, e forcei as palavras através do aperto em minha garganta. "Não tenho intenção de obedecer a um tirano."
Sua mandíbula se cerrou, o músculo se contraindo enquanto seus olhos me examinavam. "Você deveria me agradecer", disse Drakkar. "Eu a tirei daquele bordel imundo e lhe dei uma vida melhor do que você merece. Você nasceu para abrir as pernas para quem quer que lhe jogasse um punhado de moedas."
A raiva explodiu em mim de forma tão violenta que nem pensei.
Um tapa!
A parte plana da minha palma atingiu seu rosto, mas senti a pontada que subiu pelo meu braço com o impacto.
Sua cabeça se virou com o golpe, não muito, apenas o suficiente para que o ângulo de seu pescoço mudasse, mas ele não reagiu da maneira que eu esperava.
Ele não recuou, não rosnou, não retaliou.
Drakkar simplesmente ficou imóvel.
Seu peito se ergueu uma vez, lento e controlado, e então seu olhar voltou para mim, não arregalado de choque ou estreitado de fúria, mas concentrado.
Que a Deusa me proteja!