Ele estava mais velho agora (mais grosso no meio, cabelos mais grisalhos), mas a careta era a mesma. A maneira como ele me olhava como se eu fosse um objeto.
E, de repente, eu tinha quinze anos novamente.
"Sirva à direita!" Sua voz ecoou em minha memória tão claramente quanto naquela noite.
Um tapa!
Eu tinha apenas quinze anos quando a palma da mão dele bateu na minha bochecha com tanta força que minha cabeça se virou para o lado e eu senti o gosto de sangue.
Agora, o olhar dele se estreitou quando o reconhecimento surgiu. "De jeito nenhum", murmurou Noah. "A prostituta ruiva."
Meu sangue esfriou.
Aquele mesmo sorriso torto se desenhou em seus lábios quando ele me viu, como se tivesse encontrado algo melhor do que vingança. "Aquela ali... pegue-a!"
Corri em direção à escada. As botas me seguiram, mas dei dois passos de cada vez.
O som agudo de uma arma soou.
Clang!
E a bala atingiu o corrimão de ferro ao meu lado, lançando faíscas e um pedaço de pedra. Eu vacilei e escorreguei, meu pé deslizou para fora da escada. Meu ombro bateu no corrimão e rolei com força para o lado, caindo contra a borda da plataforma.
Senti uma dor no quadril, mas me levantei antes que eles pudessem me alcançar.
Lá embaixo, os humanos se espalharam por todos os corredores abertos, gritando uns sobre os outros: "Matem todas as mulheres e crianças que virem" e "Quero a cabeça do rei!"
Cheguei ao segundo andar, e o corredor se estendia longo e vazio diante de mim, iluminado apenas por flashes de luz de fogo que vinham de baixo. Na extremidade mais distante, um enorme vitral brilhava em vermelho e dourado por causa das chamas do lado de fora.
Corri para ele.
Mas o som de botas atrás de mim estava muito próximo... muito rápido. "Não..." Eu ofeguei.
Um tiro foi disparado.
A bala falhou, mas o som me congelou.
Girei, e lá estava Noah.
Bloqueando o corredor, respirando com dificuldade, com um pé de c***a pendurado nas costas e uma pistola firme em seu punho. Seus olhos brilhavam com algo vil. "Seu pequeno traidor", rosnou ele, aproximando-se. "Você ficou do lado dos lobos. Prostituta das feras."
Seu dedo apertou o gatilho.
Eu me afastei até minha coluna bater na pedra fria sob o arco de vitrais. "Eu não..."
"Cale a boca!" Noah latiu. "Eu deveria ter quebrado você quando tive a chance. Agora olhe para você... pensando que é um deles." Ele apontou a arma para o meu rosto. "Traidor. Você se juntou aos lobos para nos escravizar."
Fiquei olhando para o cano.
E, lentamente, fechei os olhos.
Ouvi a arma disparar. Um estalo ensurdecedor atravessou o corredor, mas, na mesma fração de segundo, algo bateu em mim pela lateral e braços se enroscaram em meu corpo.
Um braço apertou minhas costelas, outro se enganchou sob minhas coxas, e então estávamos nos movendo, não para longe da bala, mas através dela.
Através da janela.
Houve um estalo quando o vitral explodiu ao nosso redor, com milhares de cacos coloridos estourando, e eu os senti roçar minha pele, cortando meu braço, a lateral e a bochecha.
Um grito ficou preso em algum lugar entre meus dentes e minha garganta, estrangulado pela adrenalina, porque estávamos no ar.
E quando forcei meus olhos a se abrirem, vi o céu correndo ao nosso redor. Já estávamos caindo, mas eu estava em seus braços.
E então... impacto.
O estalo gelado da água roubou o ar de meus pulmões quando caímos sob a superfície. Meus olhos se abriram e, em meio ao borrão, vi o lago se estendendo infinitamente ao nosso redor, ondulando sob a luz do fogo do castelo acima.
Cacos de vitrais choveram como estrelas cadentes, afundando ao nosso redor enquanto meu corpo chutava.
Eu estava me afogando. Eu não sabia nadar.
**
Drakkar POV
A água nos engoliu por inteiro.
No momento em que batemos, apertei meu braço, tentando prendê-la a mim, mas a força da água nos separou. Ela escorregou pelos meus braços, com os braços se debatendo loucamente e as pernas se debatendo em pânico.
Sua boca se abriu em um grito, mas nenhum som saiu, apenas bolhas, estourando inutilmente enquanto a escuridão a engolia. Seu corpo se contorceu nas profundezas, afogando-se, com os olhos arregalados de terror.
O frio a esmagava por todos os lados, mas eu m*l o sentia.
Ela não voltou a se levantar. Ela não sabia... como nadar.
Droga.
Eu mergulhei atrás dela. O lago atrás do castelo descia rápido, enganosamente profundo, do tipo que engolia a luz tão facilmente quanto a respiração. A cada braçada, a superfície se esvaía e, ainda assim, eu não conseguia vê-la.
Chutei com mais força, o frio mordendo minha pele, juncos afiados passando, algo cortando meu ombro, talvez vidro, mas não parei.
Procurei na escuridão, com o peito apertado e os pulmões começando a arder. Então eu vi... cabelo, vermelho e solto, flutuando como sangue.
Ela estava afundando.
Empurrei-me em sua direção e, pouco antes que a escuridão pudesse tomá-la completamente, eu a peguei. Minha mão se fechou em seu braço e eu a puxei.
Para cima. Em direção à superfície.
Chegamos ao raso. Eu a arrastei para a grama, seu corpo mole em meus braços, com água escorrendo de sua boca. Seus lábios estavam ficando azuis.
"Não", murmurei. "Assim não."
Caí de joelhos na lama, com a água escorrendo de nós dois. Cerrei os dentes e puxei sua blusa encharcada, o tecido se agarrando teimosamente à sua pele. Ela se rasgou sob minhas mãos, as costuras se romperam e revelaram o sutiã escuro colado em seu peito.
Minhas mãos pressionaram o esterno dela, as costelas se mexendo com a força.
Um. Dois. Três.
"Respire, maldita seja", rosnei, minhas mãos fazendo compressões fortes em seu peito. "Não se atreva a morrer em cima de mim."
Inclinei sua cabeça para trás gentilmente, com os dedos tremendo enquanto apertava seu nariz. Depois me inclinei, selando minha boca sobre a dela. Seus lábios eram muito macios, flexíveis e imóveis sob os meus. Havia uma doçura neles, algo insuportavelmente humano e delicado.
Respirei fundo, com o calor da minha respiração expulsando o frio de seus pulmões, e me afastei, apenas o suficiente para olhá-la.
Seu peito se ergueu, depois se inclinou novamente.
"Volte", sussurrei contra seus lábios. "Respire." Outra respiração. Mais forte dessa vez. "Vamos, Angelina..."