E então, ela se sacudiu. Seus olhos se abriram, vidrados, e seu corpo se contorceu sob minhas mãos. Uma tosse úmida saiu de sua garganta, com água jorrando de seus lábios enquanto ela se virava de lado, engasgando.
Angelina ofegou, com os pulmões puxando o ar com o desespero de alguém que havia provado a morte.
Viva.
Por um segundo, o mundo ficou em silêncio, exceto pela voz que se ergueu dentro de mim. "Companheiro salvo", murmurou Ragnar.
Seus cílios se juntaram, mas a desconfiança ardia ali, mesmo quando ela tremia em meus braços, encharcada até os ossos.
"Você não estava respirando", eu disse, com a voz baixa, como se tivesse que explicar por que eu a havia arrastado de volta da beira do abismo.
Seus lábios se separaram, tremendo levemente. "Você poderia ter me deixado morrer."
"Diga isso de novo", murmurei, inclinando-me para mais perto, "e eu a jogarei de volta".
Angelina empurrou meu peito, mas eu não a soltei. Meu aperto só aumentou em torno de sua cintura, sentindo a pulsação sob sua pele. "Agradeça-me", rosnei.
"Me jogue de volta na água", ela cuspiu, se desvencilhando do meu aperto, arrastando-se para trás pela grama molhada até suas costas baterem na base de uma árvore.
Eu me forcei a ficar de pé, cada músculo gritando enquanto eu me endireitava. Uma dor aguda atravessou minha lateral e cerrei os dentes, pressionando minha mão contra as costelas, e senti a dor inconfundível de algo rachado.
Com um rosnado frustrado, puxei a camiseta por cima da cabeça, o tecido molhado se agarrou teimosamente à minha pele antes de se soltar.
Seus olhos se arregalaram quando ela me encarou de onde estava sentada contra a árvore, com os lábios ligeiramente entreabertos. "O que... o que você está fazendo?" perguntou Angelina.
Olhei para o meu lado, passando os dedos cuidadosamente ao longo do hematoma feio que já se espalhava pelas minhas costelas. Cada toque provocava uma dor aguda o suficiente para fazer meu maxilar se contrair.
Seu olhar se demorou, e pude sentir o peso de seus olhos sobre mim. Angelina seguiu os sulcos musculares em meu peito, as linhas duras esculpidas por séculos de batalha, cada cicatriz uma história que ela nunca ouviria.
Seu olhar hesitou em meu braço direito, onde a marca n***a de Sorvane se enrolava em meu bíceps. A tatuagem não era tinta, tinha sido gravada em mim no dia em que deixei o demônio entrar.
Seus olhos voltaram para o meu peito e depois para baixo, onde a água deslizava em finos jatos sobre a superfície plana do meu estômago, traçando os profundos sulcos dos músculos.
Angelina parecia não saber se deveria continuar olhando ou desviar o olhar, e essa hesitação fez com que minha boca se contorcesse em algo próximo a um sorriso presunçoso.
"Você está encarando", eu disse.
Ela baixou o olhar, sua voz estava mais calma agora, como se quase se odiasse por perguntar. "Você... quebrou alguma coisa?"
Soltei um suspiro curto e passei a mão ao longo da caixa torácica, sentindo o hematoma profundo que se formava sob a minha pele. "Parece que sim", murmurei, flexionando meu ombro. "Não seria a primeira vez."
Seus olhos se voltaram para mim, apenas por um segundo, e depois baixaram novamente. "Não me importo", ela murmurou. "Por mim, você pode morrer."
"Majestade", Romeo chamou atrás de mim.
Eu me virei na metade do caminho.
Sua armadura estava amassada, os nós dos dedos ensanguentados. Havia uma mancha em sua bochecha que não parecia ser dele. "A rebelião foi contida. Aqueles que não foram mortos estão nas celas da prisão. Estamos aguardando suas ordens."
"Verifique se eles são úteis para o trabalho", eu disse. "Se não forem, executem-nos."
"Não!" A voz de Angelina estalou atrás de mim, mas nenhum de nós se virou.
"Feito", Romeo murmurou, já começando a andar.
Angelina veio atrás de nós, rapidamente. "Não façam isso", ela gritou. "Eles não são assassinos, apenas pessoas desesperadas para escapar de suas vidas miseráveis!"
Romeo parou e se virou lentamente, com um sorriso presunçoso em seu rosto. "E agora eles são pessoas mortas. Que alívio."
"Havia mulheres naquela multidão", ela sibilou, aproximando-se.
"Sim", disse Romeo com um encolher de ombros, "e cada uma delas escolheu estar lá"
"Elas escolheram porque a alternativa é mendigar, esfregar pisos nobres ou abrir as pernas aos dez anos de idade!" Ela se lançou, e eu joguei meu braço sobre seu peito, segurando-a.
Os olhos de Romeo escureceram quando ele se aproximou. "Eu não escrevo as regras. Eu as aplico. Você entra aqui? Você paga."
"Então me leve", ela cuspiu. "Prenda-me. Me mate. Eu sou um deles. A única razão pela qual eu não estava ao lado deles é porque eles pensaram que eu havia me juntado a você."
Ele riu, baixo e sem humor. "Olhe para você. Se você é tão nobre, pare de se lamentar. Seja um mártir. Ou melhor... feche essa boquinha bonita, como as meninas de dez anos já aprendem a fazer."
Senti seu corpo se mexer antes de ela se mover, mas não a impedi dessa vez. Angelina deu um passo à frente e lhe deu um tapa. Sua cabeça se inclinou para o lado.
Romeo se lançou, mas eu me aproximei, bloqueando-o com um lento balançar de cabeça. Seus olhos se estreitaram. O rosnado que saiu de sua boca era só de dentes. "Tente isso de novo quando ele não estiver aqui para salvá-lo." Sua voz era áspera.
Romeo olhou para mim. "Já faz um tempo, Ragnar." Ele manteve meu olhar fixo por um longo segundo, depois se virou e foi embora.
**
Naquela mesma noite, entrei na Cúpula para me reunir com o conselho, porque eu precisava saber como diabos o castelo havia sido invadido. As grandes portas de pedra se fecharam atrás de mim.
A sala, normalmente repleta de vozes, estava silenciosa. Apenas Romeo estava sentado em sua cadeira, com os cotovelos sobre a mesa e os olhos fixos à frente.
"Os conselheiros voltaram de Kiev?" perguntei, mas ele não se mexeu, apenas continuou olhando para frente. "O quê, estamos casados agora? Está me dando o tratamento do silêncio?"
Ainda nada.
Então, calmamente: "Há quanto tempo Ragnar está de volta, Alfa?"