Fonte termal

2173 Palavras
POV DEMETRIA O reencontro com Iker não foi bem sentimental como eu esperava. Nossos corpos falaram por nós. Certo. Essa cama tem uma armação de madeira simples, um colchão feito de palha e revestido de tecido de algodão costurado, e os cobertores de lã, eu estou deitada analisando o teto sem graça na penumbra. No quarto há um candelabro de bronze com vela e alguns fósforos, mas não a acendo para economizar. Não tenho medo do escuro mesmo. Eu vivia na “ solitária” do convento quando era criança porque tudo o que acontecia de m*l era culpa minha segundo as freiras. Enfim, coisas do passado. E o passado não move moinhos. É um quarto bem simplório, mas incrivelmente eu gosto. Quando o peso de uma coroa não está sobre minha cabeça é bem mais fácil dormir. Agora que paro para pensar, mesmo que minha cama fosse de penas de ganso como rainha, eu ainda não conseguia pregar o olho. Mas vamos esquecer ser rainha por agora. Vamos recapitular: Primeiro, Serper disse que me daria um presente se eu saísse do labirinto e então o Espelho das Memórias vivas se quebrou e é o meu dedo mindinho que começa a contagem insana dos fatos. Então, o dedo anelar; segundo, eu atravessei o espelho e fui parar num campo de guerra dizimado por Iker e Fedrer. Uma guerra de Ratifar contra Fenit que eu desconheço. Terceiro, o dedo médio; pela jovialidade de Iker e seu cabelo não chegar ainda a cintura, mas sim estar um pouco abaixo dos ombros, eu suponho que tenha sido bem antes de eu ser trazida para Tretagon por Kalahan. Quarto, o dedo indicador; Fedrer não me devorou o que quer dizer que ele simpatiza comigo mesmo em sua forma animal. Quinto; eu dormi com Iker como uma meretriz qualquer e agora sou uma serva de prazer dele e da corte de Dragomir. Ah, só perfeito. Iker me deixou depois do nosso momento passional. E eu não consigo parar de pensar que a primeira coisa que eu tenha feito com ele foi isso e não tenha matado a saudade de um jeito mais dócil e sentimental. Não que fazer amor não seja um ato cheio de saudade, mas não sei. Foi muito precipitado me entregar a ele. Contudo não é como se eu pudesse chegar dizendo: Ei, eu sou a rainha banida de Fenit, sua futura esposa e nós já casamos numa outra realidade. E eu te perdi. Nem pensar. Então o que eu tenho que fazer? Como devo agir? Como vai ser o desenrolar dessa história. Em que ano estou? Em quanto tempo vão me buscar na Terra? Estou no escuro. Como nesse quarto. Ouço batidas na porta. E quando levanto, a abro, vejo a jovem menina de pele clara e cabelo louro avermelhado preso num coque, iluminada, pela chamas da tocha que atingem formando estranhas sombras as pedras nuas e claras do palácio. Seus olhos são verdes oliva e me são familiares. Ela é só linda. Ela está com a mão estendida para mim. A vestimenta dela é só elegante, como os antigos gregos, o vestido rosa prende-se ao seu ombro com um broche, o tecido colado ao seu corpo pequeno e cheio de curvas. — Vamos as fontes termais, minha Lady. Que vir conosco? É uma nova serva de prazer, não é? Cativou o príncipe, ele se animou com você e disse que não era como nós, te deu até o bracelete da escama de Fedrer para que ninguém a desrespeite. — Ela analisou meu pulso com um sorriso. — Deve querer se banhar. E mesmo que ainda esteja cedo, podemos ir, antes que os nobres acordem. — Falava fenitense com um lindo sotaque. Eu toco sua mão e ela enrosca a sua a minha com um sorriso cúmplice de quem entende os horrores de ser usada para prazer e descartada. Seus lábios pequenos em forma de arco e suas feições de menina ainda tão tenras, seu b***o ainda pequeno como o meu. Meu coração bate rápido. Como bateu com Hela. —Ainda é tão menina para... para... esse tipo de coisa. — Eu tento dizer algo em draconiano. Ainda estou horrorizada. Apesar da beleza dela me deixar sem palavras. Ainda é muito moça. Seu corpo ainda é muito pueril, como o meu. Mas ainda sim... ainda sim... — Nem todos tem a sorte de minha irmã de conseguir a estima do príncipe Iker. Sou Cinder, a irmã mais nova de Lady Cecily e filha bastarda de Vermont. Apesar dela negar que somos irmãs e de meu pai negar que sou sua filha, estou a notificando porque saberá quando formos a corte, então é melhor ouvir por mim. — Ela se apresentou, sua voz afável, seus modos tenros e delicados. — O príncipe me pediu para cuidar de você. Eu toquei o rosto dela encantada. E ela sorriu, sorriu como se não entendesse o motivo de eu estar tão cativada, se ela pudesse ver a luz que tem, sua beleza física e espiritual. Lembrei-me que quando vim pela primeira vez a Tretagon, Cecily me emprestou um vestido dizendo que era de sua irmã. Será que era dessa criatura tão pequena e linda? — Esse seu espanto, minha Lady... Não sou tão nova quanto aparento. Sou apenas baixa como você — Ela comentou casualmente. Seus olhos verdes espertos encontraram-se com os meus. — É minha então? — Perguntei ainda em dúvida, eu a abracei, era diferente de abraçar Gaia ou Fedrer, sim, diferente. Mas acabei sentindo um nó no meu coração me atando a ela profundamente. Toquei o cabelo dela, era loiro acobreado, não era ruivo como o de Cecily que parecia chamas. Era algo mais suave. Acabei tirando a presilha de prata e vendo cair em suaves ondulações ao redor de seu rosto e toquei os fios sedosos que pareciam cetim, ela passou o braço ao redor do meu ombro e eu ouvi um suave som de seus lábios. Eu meio que tremi. E o os olhos dela me fitaram com confusão e as bochechas dela ganharam violenta cor. — Sim. — Ela respondeu com um sorriso suave agora. — Sou sua, minha Lady. — Ela disse simplória e eu senti certa inquietação. — É minha mestra agora. — Continuou as palavras quase provocantes como as de uma amante sussurradas no meu ouvido. — O príncipe me designou para ser sua dama de companhia. Serei fiel a você e a todos os seus segredos. E estou ciente de que minha irmã é sua rival. Mas não importa o quê, ficarei ao seu lado. Eu sabia que suas palavras eram sinceras. Como? Não sei. O dom de sempre. Eu apenas assenti com a cabeça e me separei dela para não assustá-la. — Irei com você para as fontes termais. — Concordei. — Vamos então? Ela me deu sua mão novamente e, eu a arrebatei de imediato. E fechando a porta do meu quarto, ela me guiou. Passamos pelo corredor. Alguns degraus de pedra. Era sem acabamento algum essa parte do castelo e só as pedras claras que o ornavam podiam ser vistas e as tochas em lugares estratégicos a medida que caminhávamos. A observei. Eu a peguei olhando para mim. E ela desviou o olhar. — Não sou bonita como você, não é? — Perguntei. — Deve me odiar por... pelo príncipe ter me escolhido... — Não odeio, mas as outras servas sim. Eu não tenho interesse algum no príncipe. — Ela comentou quase cortante e parecia ofendida pelo jeito que seus olhos viraram chamas verdes. Então me mirou como se percebesse que foi um tanto rude. — Desculpe. Eu não quis... Você é linda. Os fios cor de fogo de minha irmã e os olhos de esmeralda dela, realmente são em um primeiro momento algo que arrebata o coração e enche de cobiça os olhos dos homens. Mas é como uma cobra que envolve a presa em seu feitiços e depois dá o bote. Mas quando o príncipe tiver uma nova favorita e ela for você, bem, quero ver como será quando Cecily perder o posto. O príncipe não me interessa. Nunca interessou. — Desculpe. Eu não quis te irritar, Cinder. — Você é estranha. Me chamando pelo nome e agindo como se fôssemos amigas. Se desculpando com uma reles serva de prazer. — Ela desdenhou de si mesma e me analisou com um sorriso de lado dos lábios cheios de venenoso escárnio. — Não será mais só isso. — Eu garanti, sentindo a dor do abandono dela, parei de andar e segurei a mão dela. — Não quero que seja só isso. Eu vou recuperar o que é meu, então... quando o fizer, quando descobrirem quem realmente sou... eu vou realizar todos os seus sonhos. Só espere. Espere até eu pensar em tudo. Ela sorriu minimamente, os olhos frios, como se não acreditasse em nada do que falei. — Só do príncipe herdeiro me fazer sua dama da companhia, eu já decidi que estou grata o suficiente. — Ela murmurou cabisbaixa e amargurada. — Por que diz essas coisas e tenta me dar esperança de que posso ser algo além de um objeto que serve de entretenimento aos nobres de meu reino? Eu apenas toquei o rosto dela e a fiz me olhar. — Confie em mim. Porque eu vejo você, Cinder. — Sussurrei e rocei meu nariz no dela. O cheiro de rosas dela me arrebatou de imediato. — É só uma criança que se sente perdida e abandonada. E eu vou fazer o meu possível para te arranjar um bom casamento com um cavaleiro e para que você seja feliz. Eu prometo que quando conseguir meu poder novamente e estiver no topo, você também vai estar comigo. “Como um dia sua irmã esteve.” Acrescentei mentalmente. — Minha lady... — Ela sussurrou com lágrimas nos olhos, passando os braços ao meu redor. Não era maternal como com Gaia, como Fedrer o meu dragão amado, e Fedrer o meu primo que criei como meu filho. Eu senti meu corpo ansiar por ela como ansiou por Hela. Essa menina linda, eu me senti tão envergonhada, eu quis afastá-la de mim. Eu arranjaria um bom casamento para ela quando eu me revelasse a herdeira do trono de Fenit. Apesar de não querer uma guerra agora. Eu senti seu beijo em meu pescoço, seus lábios ousadamente em minha pele e eu por mais que a quisesse, que meu corpo ansiasse por cada toque, eu a afastei. A luz alarajanda das tochas ainda nos preenchia com seu calor. Ela me encarou confusa por eu a ter dispensado. Ela podia ouvir minha respiração falha, ver meu corpo rendido a ela como o dela estava rendido ao meu. — Sou bem mais velha do que pareço, querida. — Sussurrei como se quisesse me desculpar. Iker era meu marido, ele teria que ficar comigo mesmo que eu fosse mais velha que ele como eu o fiz quando foi o contrário. Mas eu não podia tocar nessa menina tendo conhecimento de que era mais velha que ela. — É linda para mim, minha Lady. — Ela sussurrou amuada. — Eu quero realmente você. Não é ... — Ela abaixou os olhos. — Uma obrigação como é com os outros. Linda! Ah, diabos. Eu me pergunto se o Kai se sentia assim. Sabendo sua idade real. Sabendo que os mortais viam uma coisa que não condizia com a realidade. Eu parei de raciocinar e a beijei. A textura macia dos seus lábios, eram só tão quentes e tinham um gosto de menta. Ah, ouvi seus gemidos contra mim. Cinder. Tão doce. Tão menina. Tão linda. Um sorriso veio aos meus lábios ao saber que eu era mesmo a aberração que as freiras diziam, o monstro, eu gostava da inocência dela, sim, definitivamente eu pertencia a homens e mulheres... Eu parei o beijo. E os olhos verdes dela se abriram. A puxei pelo cabelo louro acobreado enfeitiçada por ele. E ela tremeu em meu braços com seu corpo macio e feminino contra o meu. Não era fria como Hela. Era tão quente. Tão quente e macia. Ela sorriu para mim. — Minha lady. A entrega dela alcançou minha alma. Eu a soltei. Ela apenas sorria um tanto boba. Eu apenas tentei recuperar meu fôlego. — Eu vou te arranjar um bom casamento. — Garanti novamente ainda sentindo meus lábios formigando e minha língua querendo prová-la. Ela assentiu e pegou minha mão. Caminhamos por vários corredores e várias degraus de decida até finalmente chegarmos a fonte termial. Homens e mulheres juntos dentro da piscina natural de água cujo vapor subia. Homens e homens. Mulheres e mulheres. Todos nus naquela água e saciando seus corpos cheios de paixão. Cinder apenas deu de ombros e deixou escapar tocando meu cabelo: — Ignore-os. Só me deixe banhá-la e então vesti-la e pentear seu cabelo. Eu apenas virei o rosto sentindo em meu próprio corpo os primeiros inícios da paixão. E assenti com a cabeça para a sugestão dela.
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