Episódio 33

1090 Palavras
Maria José Quando as portas do elevador se abriram no meu andar, senti como se tivesse uma pedra no estômago. As minhas pernas se moviam por puro automatismo enquanto eu avançava pelo corredor em direção ao departamento de contabilidade. Empurrei a porta do apartamento e, como se alguém tivesse pressionado o botão de pausa num vídeo, todo movimento cessou. Todos os olhares se voltaram para mim. Os dedos pararam de teclar, as conversas foram interrompidas no meio da frase, até me pareceu que alguns estavam prendendo a respiração. Eu contive a minha por um momento, desejando que a terra me engolisse. Com a cabeça baixa, caminhei até a minha mesa e me encolhi na cadeira, incapaz de encarar meus colegas. Concentrei-me na minha tela como se ela contivesse os segredos do universo. Quando finalmente reuni coragem para levantar o olhar, os meus olhos encontraram os de Bill. Ele estava sério, sua expressão era fria, quase hostil. Senti uma pontada de culpa, embora eu dissesse a mim mesma que não tinha por que sentir isso. Não lhe devia explicações. Rachel, por outro lado, lançou-me um olhar cúmplice da sua mesa. Pelo menos tinha uma aliada neste campo minado. — Tudo bem, Marijo? Perguntou Anderson, que saiu apressadamente do seu escritório ao me ver voltar. — Tudo bem, senhor, não há nada com que se preocupar. Respondi, sentindo o meu rosto queimar. Anderson olhou-me fixamente por alguns segundos, como se estivesse tentando decifrar se eu estava dizendo a verdade. Finalmente ele assentiu e voltou para seu escritório sem dizer mais nada. Até ele ficou surpreso com o que aconteceu. — Como é que Julian Marlow desceu ao nosso departamento? Que alguém me explique, por favor. Declarou Ivonne, quebrando o silêncio. "Genial, Julian Marlow, justo agora te ocorre descer para me buscar", pensei enquanto o meu coração batia descontroladamente. O que eu poderia dizer? Como explicar algo que nem eu mesma entendia completamente? — Talvez ele estivesse subindo para a presidência e lembrou-se que tinha algo pendente e fez uma parada para pedir pessoalmente. Tentei justificar, embora até para mim soasse ridíc*ulo. — Sim, claro que sim. Ivonne sorriu com m*alícia. — Eu acho que há um interesse. — Que interesse? Perguntei, começando a hiperventilar. — Pois parece que alguém o cativou na reunião e queria vê-la novamente. Brincou, e todos me olharam, esperando uma resposta. — Não diga essas coisas, Ivonne, que não é verdade. Defendi-me apressadamente. — O senhor Marlow não tem nenhum interesse em mim, é meramente profissional. Cada palavra que saía da minha boca parecia uma mentira. Especialmente depois que Julian Marlow me pediu para sair com ele num encontro que não tinha nada de profissional. — Mmm, eu só digo. Insistiu Ivonne com gestos travessos. Bill continuava a olhar para mim com uma seriedade incomum. Podia sentir a tensão emanando dele. — Não diga isso, Ivonne. Interveio Rachel. — Maria José já explicou que é só por causa do trabalho que a chamou ao seu escritório. Melhor não dizer essas coisas para não chegar aos ouvidos do CEO e sermos demitidas. Lancei um olhar de agradecimento para Rachel. Ela sabia parte da verdade e estava tentando me ajudar a manter as aparências. Felizmente, a conversa mudou para outros assuntos depois disso, e pude me concentrar no meu trabalho, embora a minha mente continuasse revivendo cada segundo do meu encontro com Julian no seu escritório. Quando chegou a tarde e terminei a minha jornada de trabalho, eu estava emocionalmente exausta. Peguei as minhas coisas e fui para o elevador, pensando nas aulas que teria na universidade naquela noite. Mas, na verdade, a única coisa que ocupava a minha mente era Julian e o encontro que eu tinha aceitado para amanhã. — Maria José, espera. Ouvi uma voz que me obrigou a parar ao sair do prédio. Era o Bill. Virei-me para olhá-lo, notando a tensão no seu rosto. — Sim, Bill? O que aconteceu? Perguntei, um pouco nervosa. — Nada, só... Ele parou, e pude perceber certa hostilidade no seu tom. — Tudo bem com o Marlow? Algo que queira me contar? Perguntou, surpreendendo-me. Franzi um pouco a testa. — O que devo te contar, Bill? Não entendo. Respondi, mais ríspido do que pretendia. Eu não gostava daquela atitude dele, como se eu lhe pertencesse e lhe devesse explicações sobre as minhas interações com outras pessoas, especialmente depois de ter deixado claro em Coney Island que eu não estava pronta para um relacionamento. — Não sei, é estranho. Julian Marlow não desce pessoalmente para buscar uma funcionária, muito menos para... Ele calou-se abruptamente, como se estivesse prestes a dizer algo inapropriado. — A uma o quê? Perguntei, já definitivamente indignada. — A uma simples auxiliar nova estrangeira? Acrescentei, colocando-me na defensiva. — Não, não foi isso que eu quis dizer, Marijo, não interprete m*al as minhas palavras. Apressou-se a esclarecer. — Então não entendo, Bill. Ou por acaso você está chateado porque não é a você que ele pede a explicação? Confrontei-o diretamente. — O quê? Não, de maneira nenhuma, Maria José. Não tenho inveja. Respondeu, embora o seu tom sugerisse o contrário. — Simplesmente me estranha o comportamento do CEO ao te chamar ao escritório dele. Só tenha cuidado, por favor. Havia algo nos seus olhos, algo que eu não soube identificar. Ciúmes? Desconfiança? Fosse o que fosse, me incomodava. — Não se preocupe comigo, Bill, estou bem. O senhor Marlow é bastante respeitoso. Assegurei a ele, embora uma parte de mim se perguntasse se isso era totalmente verdade, considerando a intensa química que sentia quando estava perto dele e como ele me olhava, querendo até mesmo me devorar com os olhos . — Tenho que ir, tenho aula e preciso chegar na universidade em meia hora. Despedi-me rapidamente, grata por ter uma desculpa legítima para terminar aquela conversa que não levava a lugar nenhum. Enquanto saía do prédio e caminhava para a parada de ônibus, a minha mente voltou para Julian e o nosso encontro do dia seguinte. Estava cometendo um erro? Provavelmente. Poderia ser perigoso me envolver com meu chefe? Definitivamente. Conseguia parar de pensar nele, nos seus olhos cinzas intensos, na sua voz grave que pronunciava o meu nome como se fosse algo precioso? Absolutamente não. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR