Episódio 32

1675 Palavras
Concordei, tomando nota mentalmente. Era inestimável ter alguém que conhecesse Maria José me aconselhando. — E não lhe dê joias, mm, não faça isso. Continuou Martina. — Nada disso. Ela não é daquelas mulheres com as quais vocês, os machos alfa Marlow, estão acostumados. Não pude evitar sorrir com a descrição dela. — Leve flores, um pequeno buquê, ou algo mais especial. Sugeriu. — Algo que demonstre que você a observou, que conhece os seus gostos. Escutava atentamente cada conselho. Nunca tinha tentado conquistar uma mulher, e menos ainda alguém como Maria José. As mulheres com quem eu tinha estado eram... transacionais. Sabiam exatamente o que queriam de mim, e eu delas. Mas isso era diferente. Ela era diferente. A porta abriu-se novamente, e Thomas apareceu com o seu habitual sorriso despreocupado. — Dando conselhos de amor ao nosso novo Romeu? Perguntou, aproximando-se de Martina. Ele se inclinou para beijá-la na cabeça, e ela o abraçou brevemente. Martina parou por um momento, farejando o ar. — Hummm, você cheira bem, diferente. Ela comentou. — Você mudou de perfume? Será que é a nova fragrância da Amouage? Thomas revirou os olhos. — Nada escapa de você, não é? Ele respondeu, enquanto se sentava ao lado dela na outra cadeira em frente à minha mesa. — E aí? Perguntou Thomas, dirigindo-se a mim com aquele sorriso zombeteiro que só ele tem. — Já lhe contou que escreveu uma carta de amor que parecia que estava enviando uma carta de condolências? Soltou uma gargalhada que me fez arrepender instantaneamente de ter pedido conselho a ele na sexta-feira. — O que você escreveu para ela, Julian? Perguntou Martina, virando-se para mim com os olhos arregalados. — Nada, um bilhete de desculpas e pronto. Respondi, tentando minimizar a importância. — Este to*lo exagera. — Sim, sim, Romeu, o que você disser. Thomas inclinou-se para Martina em tom conspiratório. — Prezada Senhorita Ramírez... Não terminou a frase porque já estava rindo muito alto. Martina bateu na testa com a mão, claramente horrorizada. — Não sei o que farei com você, Julian. Ela disse, balançando a cabeça. — Definitivamente você não tem o dom do romantismo. Menos m*al que me tem, caso contrário, sabe Deus o que terias feito. — Eu te digo. Interveio Thomas, enxugando uma lágrima de riso. — Rapitava a pobre garota e a trancava no seu sótão até que ela dissesse que o amava. Os meus dois irmãos caíram na gargalhada ao mesmo tempo, enquanto eu revirava os olhos, tentando manter a minha dignidade. — Sim, sim, chega os dois. Disse, embora não pudesse evitar que um sorriso escapasse de mim. — Tenho trabalho a fazer. — Claro. Respondeu Martina, recompondo-se. — O seu trabalho mais importante agora: não estragar as coisas com Maria José. Ela se levantou e alisou a saia com um gesto elegante. — Te ligarei amanhã para te dar mais dicas antes do seu encontro. Disse. — E não, não é opcional. Vou te ligar e você vai atender. — Sim, senhora. Respondi com fingida solenidade. Thomas também se levantou, mas antes de sair, inclinou-se sobre a minha mesa. — Sério, irmão. Ele disse, seu tom repentinamente mais suave. — Fico feliz em te ver assim. Faz muito tempo que não te via sorrir tanto. Essas palavras, vindo de Thomas, significavam mais do que ele provavelmente imaginava. Quando a porta se fechou atrás deles, inclinei-me na cadeira, pensando no quão estranho tudo isso era. Durante anos, eu havia construído a minha vida em torno do trabalho, da disciplina e do controle. E agora, aqui estava eu, nervoso por um encontro, recebendo conselhos dos meus irmãos mais novos, sorrindo sem motivo. Tudo por uma mulher. Uma mulher que agora, por alguma incrível reviravolta do destino, trabalhava na minha empresa e tinha roubado a minha atenção sem sequer tentar. Mas assim é o destino, não é? Às 19h45 eu estava em frente à universidade, esperando ao lado do meu Aston Martin, de onde Maria José deveria sair. Os minutos passavam com uma lentidão exasperante enquanto eu verificava o meu relógio a cada trinta segundos e passava os dedos pelos cabelos tantas vezes que perdi a conta. Nunca me senti assim antes de um encontro. Na verdade, ela nem conseguia se lembrar da última vez que teve um "encontro" de verdade. Os meus encontros com mulheres sempre foram calculados, eficientes, mais próximos de uma troca de algo. Elas me davam prazer e eu dinheiro. Do que a este turbilhão de nervos que sentia agora. Repassava mentalmente todos os conselhos que Martina me dera naquela tarde por telefone: Não seja intenso. Não a pressione para que ela conte mais do que quer dizer. Vá devagar, Julian, pelo amor de Deus. E por favor, não a aborreça com temas de política socioeconômica ou sobre a bolsa de valores. Sorri ao lembrar da minha resposta: "Sobre o que falaríamos então?" Martina tinha bufado antes de me dar uma lista de temas "seguros": música, cinema, lugares favoritos, sonhos... Meu telefone vibrou. Uma mensagem de Thomas: "Já a sequestrou para levá-la para sua cobertura?" Revirei os olhos e guardei o telefone sem responder. E então eu a vi. Ela saía pela entrada principal, ainda usando o uniforme da Marlow Industries e assim estava perfeita. — Olá! Cumprimentei quando ela se aproximou, e pude ver como ela corou sem conseguir esconder. — Boa noite, Julian. Respondeu, e ouvir o meu nome nos seus lábios, sem o "senhor Marlow" no meio, me derreteu por dentro. — Pronta? Tudo bem? Perguntei, tentando soar calmo, natural. Ela assentiu. — Sim. Abri a porta do carona para ela e esperei que entrasse antes de contornar o carro e tomar meu lugar ao lado dela. O silêncio inicial estava carregado de uma tensão que nenhum dos dois sabia como quebrar. — A noite está muito linda. Disse finalmente, odiando-me por recorrer ao tópico mais básico e chato do mundo. Tempo atmosférico. Brilhante, Julian. — Sim, as noites geralmente no Canadá são lindas. Ela respondeu, olhando pela janela. Olhei para ela por alguns segundos antes de voltar a minha atenção para a estrada. — Então você gosta do clima do Canadá. Continuei. Ela me olhou com um sorriso divertido. — Você está me perguntando sobre o clima? Até eu achei um pouco estúp*ido, e não consegui evitar rir também. — Bem, sim. Maria José riu, e a sua risada era como música, leve e nada incômoda. Se fosse outra mulher, eu já a teria calado com um olhar assassino. — Sim, mas gosto mais do clima da minha linda Colômbia. Respondeu com sinceridade, e pude detectar certa melancolia na sua voz. — Sente falta do seu país? Perguntei, interessado. Ela suspirou, e aquele pequeno gesto me disse mais do que mil palavras. — Mais do que o meu país, sinto falta dos meus entes queridos. Aos meus avós. — E seus pais? Perguntei instintivamente, para imediatamente me arrepender. Ela ficou em silêncio por um momento, e lembrei-me das palavras de Martina: Não a pressione para que ela te conte coisas. Estava prestes a mudar de assunto quando ela respondeu: — Morreram quando eu era muito pequena, m*al me lembro deles. A sua voz continha uma tristeza, como uma ferida que havia cicatrizado, mas que nunca desapareceria completamente. Não quis continuar com o assunto e decidi ficar em silêncio, dando espaço. Finalmente chegamos ao restaurante, um dos mais exclusivos da cidade. Ao sair do carro, um homem impecavelmente vestido se aproximou de nós. — Boa noite, Sr. Marlow, bem-vindo. Saudou com deferência. Era o gerente, alguém que me conhecia bem. O sobrenome Marlow era conhecido em toda a cidade, e esse sobrenome tinha mais peso do que qualquer outra coisa em círculos como este. — A sua reserva está pronta conforme solicitado. Acompanhem-me, por favor. — Obrigado, Robert. Respondi, colocando suavemente a minha mão nas costas de Maria José para guiá-la. Enquanto caminhávamos pelo restaurante principal, notei que muitos olhares se voltavam para nós. Não era de estranhar. Provavelmente era a primeira vez que me viam num lugar público com uma mulher. As pessoas sussurravam, e embora eu não pudesse ouvir o que diziam, eu podia imaginar. O tubarão Marlow saindo com uma mulher, quem será? Maria José também pareceu notar, porque se tensionou ligeiramente sob a minha mão. Dei-lhe um aperto suave, querendo transmitir-lhe que ignorasse os olhares curiosos. O gerente nos guiou por uma escada curta que nos levou ao terraço. Quando as portas se abriram, pude ver os olhos de Maria José se iluminando. A varanda estava vazia, exceto por dois garçons que esperavam discretamente para nos atender. As luzes da cidade se estendiam aos nossos pés, e o céu estrelado sobre nós criava uma atmosfera quase mágica. — Seja o que for, não hesite em me avisar, Sr. Marlow, que aproveite a sua noite. Sugeriu o gerente antes de se retirar com uma reverência. Maria José aproximou-se da balaustrada, claramente cativada pela vista. — Não sei como as pessoas preferem jantar lá embaixo, trancadas naquele salão, e perder essa vista maravilhosa. Ela comentou, enquanto eu parava ao seu lado. O que ela não sabia era que naquela noite eu havia reservado todo o terraço só para nós dois. Por ela, não me importava gastar grandes somas de dinheiro. — Bom, esta noite será só para nós. Respondi, e ela virou-se para me olhar, sem entender completamente o que eu tinha dito nem por quê. — Não é linda? Perguntou de novo, voltando o olhar para a cidade iluminada. — É, realmente linda. Declarei. Mas eu não estava olhando para a cidade. Eu estava olhando para ela, o perfil do seu rosto recortado contra as luzes da cidade, a forma como o vento brincava com algumas mechas soltas do seu cabelo, a curva suave dos seus lábios. Naquele momento soube que estava perdido. Que faria qualquer coisa por esta mulher. Que todas as muralhas que eu construí ao meu redor por anos estavam sendo derrubadas. E pela primeira vez na minha vida, não me importava sentir-me vulnerável.
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