Episódio 31

1122 Palavras
Maria José corou novamente, mas assentiu e dirigiu-se para a porta. Não me importei nem um pouco que Sandra estivesse lá, vendo e ouvindo tudo. De fato, era melhor assim. Que soubesse de uma vez por todas como as coisas estavam. Quando Maria José saiu, Sandra permaneceu de pé, olhando para mim com o rosto contorcido pela raiva. — Uma auxiliar, Julian? Ela rosnou. — Você me trata assim por uma simples auxiliar? Dei as costas para ela e caminhei em direção à minha mesa. Não tinha nem tenho por que dar explicações a ela de nada. — Vou deixar claro pela última vez. Disse sem olhá-la, com um tom de desprezo que nem tentei disfarçar: não se atribua poderes que não lhe pertencem só por ser afilhada da minha mãe. Virei-me para enfrentá-la, queria que ela visse nos meus olhos a seriedade das minhas palavras. — De mim você não é nada. Você não é meu sangue, nem a minha família. Nem sequer somos amigos. Continuei, querendo que de uma vez por todas entrasse na cabeça dela. — Você é minha diretora administrativa, limite-se a cumprir as mesmas regras que regem todos os meus chefes e funcionários. Sandra empalideceu, mas manteve a postura, aquela arrogância que sempre detestara nela, acreditando-se melhor que todos e que ninguém estava à sua altura. — Não me obrigue a deixá-la fora da empresa. Acrescentei como um aviso final. — Porque você sabe que nem a minha mãe, nem ninguém, poderá fazer nada quando eu tiver tomado uma decisão. O silêncio que se seguiu era denso com uma hostilidade que se sentia. Nunca tolerei as suas insinuações e a sua mania de atribuir-se direitos que não lhe correspondiam, mas este confronto marcava um novo nível no nosso antagonismo. — Você não sabe o que está fazendo. Disse ela. — Não tem por que me tratar assim e menos na frente dos seus funcionários. E duvido muito que a sua mãe goste de saber que agora você tem fascinação por seus auxiliares. — Isso. Respondi, sentando-me na minha cadeira e abrindo deliberadamente um dossiê para indicar que a conversa havia terminado— Não é da sua conta e muito menos da minha mãe. Então, mantenha-se fora dos meus assuntos pessoais, Sandra. Não me caracterizo por ser bondoso com as pessoas. Foi uma ameaça tácita para ela. Sandra permaneceu alguns segundos mais, como se esperasse que eu reconsiderasse as minhas palavras. Quando ficou claro que eu não faria isso, ela virou-se sobre os calcanhares e saiu do meu escritório, fechando a porta com mais força do que o necessário. Reclinei-me na minha cadeira, exalando lentamente. Não me arrependia do que havia dito, mas sabia que acabava de criar um problema. Não é que eu tenha medo dela, nem um pouco. Mas, Sandra não era apenas minha diretora administrativa. Ela era a afilhada da minha mãe, alguém com quem eu tinha crescido, embora nunca nos tivéssemos dado bem. Bom, para dizer a verdade, ela nunca me agradou porque para ela eu sou o amor impossível dela e agora eu a tinha humilhado por Maria José. Mas enquanto pensava no nosso encontro de amanhã, em ver aquele sorriso tím*ido de novo, em ouvir a voz dela... soube que valeria a pena. Pela primeira vez em muito tempo, algo, ou melhor dizendo, alguém, importava mais para mim do que as políticas corporativas e as questões familiares. A sensação era estranha, eu me encontrava sorrindo o tempo todo sem motivo aparente. Naquela tarde, enquanto revisava alguns contratos no meu escritório, Liam me avisou que minha irmã Martina estava lá fora. Segundos depois, a porta se abriu. — Olá, irmãozinho. Martina, deixou-se cair com elegância na cadeira em frente à minha secretária. Com o seu vestido bege e o seu cabelo loiro preso num coque impecável, ela era a imagem viva da nossa mãe. Desta vez ela nem se incomodou em me dar nenhum beijo de saudação. Parecia cansada. — E então? Insistiu, inclinando-se para a frente. — Você enviou os chocolates e a nota de desculpas como eu sugeri? Concordei, permitindo-me um sorriso que fez Martina bater palminhas animada. — Eu sabia! Ela exclamou. — E o que ela te disse? Gostou? — Gostou, mas falei pouco com ela, m*al hoje. Não a vi no fim de semana, ela não estava. Respondi. Martina sorriu e depois ne*gou para si mesma. — Hoje vou vê-la na universidade. Ela acrescentou rapidamente. — Tive um fim de semana louco, mas hoje vou falar com ela. — Quer que eu diga algo a ela? Perguntou Martina com um sorriso travesso. — Posso contar todas as suas virtudes, que são poucas, mas existem. — Tenho uma grande virtude que você não sabe. Respondi, e ela fez um gesto de nojo. — Você é um porco. Ela disse. Ignorei o insulto dela e contei sobre o nosso jantar programado para amanhã. Martina recebeu mais aplausos enquanto fazia pequenos movimentos de dança sem se levantar da cadeira. — Ela é uma garota maravilhosa, Julian. Ela disse com sinceridade. — Inteligente e com um grande coração. Prometo que se você der uma chance ao amor, não se arrependerá. As suas palavras me tocaram profundamente. Amor. Uma palavra que eu nunca tinha associado a mim mesmo. — Pela primeira vez sinto que é real. Confessei, surpreendendo-me por me abrir assim. — Que é uma mulher autêntica, sem pretensões. Martina me observava com um olhar de surpresa e alegria. Não era comum eu expressar os meus sentimentos tão abertamente. — E onde você a levará para jantar? Ela perguntou, mudando habilmente de assunto antes que eu me fechasse novamente. Cocei o queixo, percebendo que não tinha pensado nisso. — O que você me aconselha? Perguntei, reconhecendo a minha inexperiência nessas questões. — Onde você acha que seria bom levar uma mulher como ela? Martina levantou uma sobrancelha, subitamente desconfiada. — Uma mulher como ela? Como assim? Ela perguntou, o seu tom sugerindo que ele havia interpretado m*al as minhas palavras. Mas eu sorria, incapaz de me conter. — Assim, tão especial, tão maravilhosa. Esclareci. — Uma mulher fora deste mundo. A expressão de Martina mudou rapidamente, e pude ver novamente a emoção nos seus olhos. — Estou tão feliz por vocês. Ela disse com sinceridade. — Maria José merece um homem como você, e você merece uma mulher como ela. Depois, ela se inclinou para a frente, entrando no modo de planejamento. — Leve-a ao Le Ciel. Sugeriu, referindo-se a um dos restaurantes mais exclusivos da cidade. — Reserve o terraço de cima só para vocês. Maria José é tím*ida, e se estiver rodeada de pessoas, não se abrirá para você. Mas se ela se sentir à vontade, será a melhor companhia.
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