— Lamento o meu comportamento também, senhor. Você também merece um pedido de desculpas da minha parte. Não devia ter gritado tudo aquilo com você, meu Deus, que barbaridade. Disse, baixando ligeiramente o olhar e mordendo o lábio. — Você também deve ter ficado com uma má impressão de mim.
— Não, por favor, tenho a melhor impressão de você. Respondi e ela voltou a me olhar.
A porta do elevador abriu e eu a guiei até o escritório. Liam nos olhava fixamente. Talvez ele estivesse se perguntando o que dia*bos estava acontecendo com o chefe dele, mas se nem eu mesmo entendia o que estava acontecendo comigo, muito menos os outros. Abri a porta para Maria José e fechei atrás de mim.
Ela ficou de pé novamente no meio do meu escritório.
— Você realmente precisa que eu explique algo sobre fluxo de caixa ou por que eu nunca liguei para você?
Sorri e aproximei-me dela a passos lentos, sem conseguir mais controlar essa ansiedade de estar perto dela.
— Nenhuma das duas. Respondi e ela franziu a testa. — Só quero que me explique como é que em todos esses anos você nunca cruzou o meu caminho.
Ela mordeu o lábio inferior e eu não consegui resistir, mas meu polegar pousou sobre os seus lábios, libertando-os dos seus dentes.
— O que o senhor quer de mim, senhor Marlow? Ela perguntou diretamente. Embora tentasse parecer segura. Notavam-se os seus nervos, como tentava controlar o tremor no corpo.
— Primeiro, que me chame pelo meu nome, por favor, só Julian, e segundo, que aceite um jantar, eu gostaria que você saísse para jantar comigo. Prometo que comigo você estará segura. Sou um cavalheiro.
— Jantar? Ela perguntou.
Concordei. — Só jantar, Maria José. Então? Insisti, incapaz de esconder minha impaciência.
O silêncio entre nós se estendia mais do que a minha ansiedade podia suportar. Maria José permanecia diante de mim, com os seus olhos castanhos fixos em algum ponto indefinido do meu escritório, evitando deliberadamente o meu olhar. As suas mãos brincavam nervosamente com a borda do caderno, um gesto que eu achava inexplicavelmente cativante.
Acabava de convidá-la para sair. Eu, que jamais pedia duas vezes nada a ninguém, estava aqui, prendendo a respiração, esperando a sua resposta como um adolescente.
Nunca tinha sentido isso, esse fogo ardendo no meu peito, essa vontade incontrolável de beijar uma mulher, de tê-la perto. Sempre detestei o contato físico, os afetos desnecessários. A única a quem eu permitia essas proximidades, era a Martina, minha irmã mais nova. Então, como era possível que Maria José tivesse se tornado o meu maior anseio desde aquela noite no clube?
— Está bem. Ela respondeu finalmente, e senti como um sorriso, aquele que normalmente só era reservado para os meus irmãos, se desenhava no meu rosto sem que eu pudesse evitar.
— Preciso que você diga o dia e a hora. Respondi, tentando manter certo controle. — Do resto, cuido eu.
Vi ela piscar rapidamente, como se a minha resposta a tivesse apanhado de surpresa. É que a minha impaciência estava me levando ao limite da loucura.
— Tenho aulas à noite na universidade. Ela explicou. — Menos às sextas-feiras porque tenho aula de francês.
Levantei as duas sobrancelhas surpreso. Então, ela não só estava prestes a ser uma das melhores contadoras do país, como também estudava. E francês, nada menos.
— Então, você também fala francês? Você é cheia de surpresas, Senhorita Ramírez. Disse a ela num francês fluente.
O rubor que subiu às suas bochechas foi imediato e delicioso de contemplar. Claramente não esperava que eu também dominasse aquele idioma.
— Não sou especialista, mas me viro bem. Ela respondeu num francês bastante competente.
Sorri, satisfeito. Havia algo nela que me parecia irresistível. Não era só o físico, era ela, o quão inteligente e interessante ela me parecia.
— Embora amanhã eu só precise ir à universidade para entregar meu portfólio e não tenha aulas. Ela acrescentou, fazendo os meus olhos brilharem com a possibilidade.
— Então amanhã posso te buscar na universidade? Perguntei, sem conseguir esconder o meu entusiasmo.
Vi ela morder o lábio inferior, e lá estava de novo aquele gesto que a caracterizava, percebi-os em tão pouco tempo, um gesto inocente, mas que acendia algo em mim, um fogo que jamais havia sentido por ninguém. Meu autocontrole, aquela couraça de gelo que eu havia construído durante anos, parecia derreter diante da sua presença.
— Vou esperá-lo... Ela começou, para logo se corrigir rapidamente. — Vou te esperar.
Sem conseguir me conter, estendi o braço e com o polegar toquei suavemente a sua bochecha, retirando um pequeno cílio que havia caído sobre a sua pele. Foi um gesto automático, ínti*mo, impróprio para mim. A sua pele era macia, lisa, exatamente como eu a imaginava. Todo o seu corpo também será macio? Eu precisava apagar aquela imagem da minha mente se não quisesse passar vergonha com o volume na minha calça ou, no pior dos casos, acabar na cadeia por denúncia de coação se8xual.
Ela me olhou com certo temor, como se o meu contato a tivesse assustado. Estava prestes a me desculpar quando a porta do meu escritório se abriu sem aviso prévio.
O rosto de Sandra Blackwell, ao nos ver, dizia tudo. Os seus olhos se estreitaram avaliando a cena: eu, inclinado para Maria José, a minha mão ainda suspensa no ar entre nós. Vi como Maria José se tensou instantaneamente, mas eu não me abalei. O que realmente me incomodou, profundamente, foi que aquela mulher tivesse entrado sem avisar. Com certeza aproveitando a ausência de Liam no seu posto.
Sandra arqueou uma sobrancelha e deu um passo para dentro do meu escritório, uma ousadia que me irritou até o indizível.
— Socializando com os novos funcionários? Ela disse com tom desdenhoso, com o olhar frio avaliando Maria José de cima a baixo.
Senti o sangue começar a ferver. Sandra sempre teve a habilidade de tirar o pior de mim. Se antes me irritava, agora o fazia ainda mais.
— Você precisa de alguma coisa, Sandra? É por isso irrompe no meu escritório como se fosse seu? Perguntei com voz gélida. — Acaso não deixei claro que você deve se anunciar com o meu assistente antes de entrar sem autorização?
O rosto de Sandra passou por uma gama completa de cores. Eu a havia humilhado na frente de uma subordinada, algo que eu sabia que feriria especialmente o seu orgulho.
— Se o seu assistente permanecesse no seu posto de trabalho. Respondeu de má maneira, querendo desprestigiar Liam. Mas algo que eu jamais faria seria isso. Liam, se se ausentava, era porque ia alguns minutos ao banheiro ou preparar algum café, ou chá e nada mais. Eu sabia muito bem. Mas essa mulher parece que vai aproveitar a ausência dele para fazer das suas.
— Você é igual a todos os funcionários desta empresa. Continuei, sem dar a ela a chance de responder. — E a você se aplicam as mesmas regras que a todos. Não se ache com benefícios que você não tem, e também não lhe diz respeito o que eu faço ou deixo de fazer com meus funcionários.
Apertei as mãos em punhos, contendo-me para não dizer algo do qual pudesse me arrepender depois. Mas meu olhar, eu sabia, transmitia todo o ódio e irritação que eu sentia naquele momento.
— Eu me retiro, senhor. Interveio Maria José, claramente desconfortável com a situação.
— Desculpe-me, por favor. Eu disse a ela, virando-me para ela com um olhar muito mais suave. — Há certas pessoas que se acham com direitos que não têm na minha empresa.
Vi Maria José baixar o olhar, evitando ser arrastada para o conflito entre Sandra e eu.
— Volte para o seu escritório. Indiquei, mas de uma forma delicada, carinhosa, um tom que jamais usava com ninguém além de Martina. — Amanhã passo para pegar você às oito.