Episódio 29

1777 Palavras
A velha sorriu de forma travessa, como se tivesse descoberto um segredo. — Maria José? Ah, você deve ser um dos amigos dela da faculdade. Ela disse, embora o tom dela sugerisse que ela achava que eu era algo mais do que um simples amigo ou quisesse tirar informações sobre quem eu era. — Algo assim. Respondi vagamente. A mulher explicou-me que Maria José não morava com ela. Ela apontou para um pequeno caminho que levava a uma casinha no fundo da propriedade, uma estrutura que parecia mais uma garagem convertida. — Ela aluga esse espaço. Explicou a velha. — Gostaria de te deixar entrar, mas vi que ela saiu há um tempo e não voltou. Apertei os lábios, sentindo uma pontada de decepção que me surpreendeu pela sua intensidade. — Quer deixar algum recado para ela? Perguntou a velha, olhando curiosamente a caixa nas minhas mãos. — Não, voltarei outro dia. Respondi, mas após um momento de dúvida, entreguei a caixa a ela. — Você poderia me dar isso, por favor? É só um presente. A mulher assentiu, pegando a caixa com cuidado. — Claro. E quem eu digo que está enviando isso para ela? — Só... um amigo. Respondi sem mais detalhes. Algo na sua expressão mudou ligeiramente. — Eu lhe darei assim que ela voltar. Ela garantiu. Desculpei-me pelo incômodo e virei as costas, voltando para o meu carro com uma estranha sensação de vazio. Enquanto caminhava, não pude evitar me perguntar: o que está acontecendo? Acaso ela não é para mim? A pergunta ressoou na minha mente enquanto eu ligava o motor e me afastava daquele lugar. Não estava acostumado a que as coisas não saíssem como eu queria. Não estava acostumado a perseguir em vez de ser perseguido. E definitivamente não estava acostumado a sentir essa mistura de ansiedade e temor diante da ideia de ver uma mulher. Na segunda-feira, decidi. Na segunda-feira eu a procuraria no escritório e teríamos aquela conversa pendente. Só nós dois, frente a frente. Cheguei ao escritório antes das sete da manhã de segunda-feira. Como sempre, fui o primeiro a entrar no prédio, cumprimentando com um gesto o guarda de segurança que já estava acostumado a me ver chegar a essas horas impossíveis. O meu escritório permaneceu exatamente como eu o deixei na sexta-feira. Aproximei-me da janela e contemplei o Canadá despertando lentamente sob um céu cinzento. As mãos nos bolsos, a mente nela. Exatamente às sete em ponto, ouvi três batidas suaves na porta. Liam, pontual como um relógio suíço. — Bom dia, Sr. Marlow. Ele cumprimentou, entrando com o meu café da manhã. — Seu café. — Obrigado. Respondi, virando para pegar a xícara. O aroma intenso lembrou-me que hoje eu precisava estar mais alerta do que nunca. Liam começou a recitar metodicamente os afazeres do dia enquanto dava o primeiro gole no meu café, amargo e forte, exatamente como eu preferia as coisas na vida. Reunião com investidores, almoço com o representante de uma empresa japonesa, chamada com Londres às quatro... Assentia automaticamente enquanto a minha mente divagava. Ela teria gostado dos chocolates? Ela teria entendido a minha intenção? Ou ela pensaria que era algum tipo de suborno do chefe dele? — Mais alguma coisa que precise, senhor? Perguntou Liam, terminando o seu relatório matinal. — Não, por enquanto é só isso. Liam assentiu e saiu, deixando-me sozinho com os meus pensamentos e uma pilha de documentos que exigiam a minha atenção imediata. Tentei me concentrar. Revisei contratos, analisei gráficos, respondi e-mails urgentes. Mas a cada cinco minutos, os meus olhos desviavam-se para o relógio. 8:15. 8:20. 8:25. A esta hora ela já deveria estar na sua mesa. Às 9h45 não aguentei mais. Era ridíc*ulo, eu sabia. Julian Marlow, o homem que conseguia fazer presidentes de multinacionais esperar, estava ali, contando os minutos para ver uma auxiliar de contabilidade. Levantei-me de um impulso e caminhei em direção à porta. Abri-a com decisão e passei pela frente da mesa de Liam, que levantou o olhar do computador com evidente surpresa. — O senhor está se retirando, senhor? Ele perguntou, confuso. Não era para menos. Em todos esses anos que trabalhava comigo, Liam sabia que eu só saía do meu escritório se fosse abandonar o prédio, e sempre o avisava com antecedência. — Oh, não. Só vou descer um momento na contabilidade. Respondi como se fosse a coisa mais natural do mundo. Vi como a mandíbula dele literalmente caiu de surpresa. Rapidamente tentou recompor-se, mas o dano estava feito. Até mesmo o meu próprio assistente achava o meu comportamento incomum. Dirigi-me ao elevador privado e pressionei o botão do andar da contabilidade. As portas fecharam-se e, pela primeira vez, notei o meu reflexo no espelho do elevador. Parecia tenso, quase... nervoso. E o que eu diria exatamente? Não tinha um plano, algo completamente impróprio para mim. Passei a mão pelo rosto, tentando clarear as minhas ideias. — É ridí*culo. Disse para mim mesmo. — Eu sou o chefe, me*rda, posso passear por todo o prédio se eu quiser. Mas mesmo para mim, soava como uma desculpa barata. O elevador parou no andar da contabilidade. Ajeitei a gravata com um movimento automático e saí com passo firme, como se realmente tivesse um propósito definido para estar ali. Caminhei pelo longo corredor, ouvindo os meus próprios passos ecoarem no chão. À medida que me aproximava das portas do departamento contábil, sentia o meu pulso acelerar de uma forma que não experimentava desde a minha primeira aquisição hostil. Empurrei a porta com decisão. Um silêncio imediato caiu sobre o escritório. Uma parede de olhos voltou-se para mim, alguns com surpresa, outros com evidente temor. Mas eu só procurava um par de olhos em particular. O meu olhar percorreu a ampla sala até finalmente pousar nela. Maria José estava sentada na sua mesa, aparentemente absorta em algum documento, até que o silêncio a alertou. Levantou o olhar e os nossos olhos se encontraram. — Bom dia. Cumprimentei com a minha voz naturalmente rouca e grave, sem poder evitar que o meu olhar ficasse fixo nela por alguns segundos a mais do que o apropriado. Meu Deus, que linda. O seu cabelo castanho preso num ra*bo de cavalo baixo, seus olhos grandes e expressivos, aqueles lábios que… Rapidamente desviei o olhar para o escritório de Anderson para não ser muito óbvio. Através das paredes de vidro, pude ver como o diretor do departamento se levantava, claramente surpreso com a minha visita inesperada. Caminhei em direção ao seu escritório com passo decidido. Anderson abriu a porta para mim antes mesmo de eu chegar, com uma expressão que misturava respeito e desconforto. — Senhor Marlow, que surpresa. Ele disse, apertando a minha mão. — Em que posso ajudá-lo? — Anderson. Saudei com um gesto seco. — Estava revisando alguns pontos do balanço que apresentaram na sexta-feira e há certos aspectos que não me ficaram totalmente claros. Era mentira, claro. Jamais deixaria uma reunião com dúvidas sem resolver, mas precisava de uma desculpa crível. — Claro, senhor. Terei prazer em esclarecer tudo. Ele respondeu rapidamente. — Na verdade. Continuei, mantendo o meu tom profissional. — Gostaria de levar por um momento à minha sala, sua auxiliar, Maria José. Há um ponto específico sobre o fluxo de caixa projetado que preciso que ela me explique em detalhes. Anderson piscou lentamente, processando o meu pedido. Vi a confusão nos seus olhos. Por que o CEO gostaria de falar pessoalmente com uma auxiliar sobre um detalhe técnico? Mas se suspeitava de algo, foi inteligente o suficiente para não manifestá-lo. — Claro, senhor Marlow. Você é o chefe. Assenti, satisfeito, e saí novamente do escritório, seguido por Anderson. Parei no meio do corredor e virei para a mesa de Maria José, que parecia estar tentando se tornar invisível atrás do monitor. — Senhorita, por favor, siga-me ao meu escritório. Disse com tom autoritário. — Preciso perguntar algumas coisas sobre o fluxo de caixa. Maria José abriu os olhos de par em par e pude ver como ela empalidecia visivelmente. Por um momento temi que ela se ne*gasse ou, pior ainda, que sofresse outro ataque de pânico como o de sexta-feira. — Só será um momento. Acrescentei, suavizando ligeiramente o meu tom. — Não vou tomar muito do seu tempo. Ela levantou-se lentamente, como se cada movimento lhe custasse um esforço enorme. Podia sentir os olhares de todos os seus colegas a segui-la, alguns com curiosidade, outros com evidente surpresa. Foi então que notei Bill, o garoto que, segundo Martina, tinha certo interesse nela, nos observando fixamente da sua mesa. Havia algo no seu olhar que não me agradou, uma espécie de possessividade ou ressentimento. Os nossos olhos encontraram-se brevemente antes que ele abaixasse o olhar para o computador. Esperei que Maria José pegasse um caderno e uma caneta. Quando ficou pronta, abri a porta para ela cavalheirosamente. Ela passou por mim, tão perto que pude sentir o seu perfume, aquele aroma requintado de baunilha e algo floral que me transportou momentaneamente para aquela noite no clube. Saí atrás dela e deixei a porta se fechar. O silêncio no corredor era tenso enquanto caminhávamos em direção ao elevador, ela alguns passos à minha frente, a sua postura rígida traindo o seu nervosismo. Apertei o botão do elevador e esperamos em silêncio. Podia sentir os nervos emanando dela em ondas quase tangíveis. Ela estava assustada? Ou simplesmente irritada por ter sido tirada do seu ambiente de trabalho por um pretexto tão evidente? As portas do elevador abriram e entramos. Ali, permiti-me observá-la pelo reflexo do espelho. Tinha o olhar fixo no chão, os nós dos dedos brancos de apertar o caderno. O que você está fazendo, Julian? Me perguntei. Isso não era próprio de mim. Inventar desculpas, procurar pretextos, agir como um adolescente... Tudo por uma mulher que nem sabia se tinha algum interesse em mim. Ela levantou o olhar quando o elevador começou a subir, os seus olhos fixos nos meus. — Você gostou dos chocolates? Perguntei com uma careta de sorriso. — São os melhores chocolates que provei na minha curta vida. Ela respondeu, surpreendendo-me e corando completamente, e senti um calor subir por todo o meu corpo. — Fico feliz. Eu disse, e ambos nos mantivemos afastados, grudados nas paredes do elevador, eu mantendo as mãos nos bolsos para evitar o impulso de tocá-la. — Você esteve na minha casa? Ela disse enquanto nos olhávamos fixamente. Assenti levemente. — Queria desculpar-me pessoalmente pelo que aconteceu na sexta-feira, pela má impressão que teve de mim. Em nenhum momento quis causar-lhe tal m*al-estar. Jamais lhe faltaria com o respeito. Ela me olhou e algo se suavizou no seu rosto.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR