Sim, eu faria isso. Na segunda-feira eu a chamaria ao meu escritório e teríamos uma conversa cara a cara. Sem notas desajeitadas, sem chocolates, sem intermediários. Só ela e eu, como deveria ser desde o início.
Peguei as minhas coisas, apaguei as luzes do meu escritório e fui para o elevador. Enquanto descia para o estacionamento, peguei-me sorrindo com a perspectiva de como ela conseguiu entrar no meu sistema daquela maneira e me dominar completamente, como se ela fosse uma peça que faltava na minha vida. Pela primeira vez em muito tempo, estava ansioso para que chegasse o início da semana de trabalho.
Cheguei ao apartamento do meu irmão exatamente às 20h45. Thomas e Sam já estavam acomodados na luxuosa sala. Thomas saía da cozinha com um pote cheio de nachos e várias cervejas nas mãos, enquanto Sam estava sentado no longo sofá de couro italiano, ajustando o brilho da tela gigante que cobria quase toda a parede.
— Chegou a tempo. Disse Sam ao me ver.
Não tinha encontrado o meu irmão mais novo desde ontem. Caminhei até ele e demos aquele aperto de mãos que era a nossa saudação entre irmãos. Então, inclinei-me para beijar a sua cabeça. Era um gesto que o papai fazia com a gente, e eu o tinha adotado como uma espécie de tradição com meus irmãos.
— Como vai tudo? Perguntou Sam, olhando para mim com aquela expressão que sugeria que Thomas já havia contado a ele sobre o meu dilema com os chocolates.
— Tudo sob controle. Respondi, tirando o paletó e a gravata, deixando-os ao lado do sofá.
Acomodei-me em uma das poltronas reclináveis individuais e aceitei a cerveja gelada que Thomas me entregou.
— Hoje os Lakers ganham. Disse Thomas com a confiança de quem acha que sabe o futuro.
— Isso ainda está por ser visto. Eles jogam contra os Celtics, vão dar trabalho. Respondi, sorrindo enquanto fixava o meu olhar na tela.
Em minutos começava o jogo. Passar tempo com meus irmãos era exatamente o que eu precisava: cerveja gelada, esportes e aquela camaradagem que só existe entre irmãos. Sem perguntas desconfortáveis, sem pressões, sem ter que manter a fachada do implacável "tubarão Marlow".
Pelo menos a noite de sexta-feira foi muito agradável. Sair da rotina diária faz bem a qualquer pessoa, mesmo a alguém como eu, que vive por e para o trabalho.
No dia seguinte, acordei cedo, como sempre. Não importava se era sábado ou segunda-feira, o meu relógio interno me acordava às 5h30 sem falta. Dirigi-me ao meu ginásio privado no sótão e comecei a minha rotina de boxe. Era minha forma favorita de liberar tensões.
Golpeava o saco com força, sentindo o suor escorrer pelas minhas costas enquanto a minha respiração ficava cada vez mais ofegante. Mas nem mesmo o exercício intenso conseguia tirar da minha mente a ideia de ir para a casa de Maria José. O seu rosto, seu aroma, seus olhos, seu corpo... tudo me chamava como um m*aldito viciado em busca da sua próxima dose.
Um, dois, três, gancho, esquiva, gancho.
Eu continuava batendo, mas minha mente permanecia fixa naquela castanha de olhos castanhos que me cativara e que, contra todas as probabilidades, havia virado a minha vida de cabeça para baixo.
Ao meio-dia, sentei-me para atender alguns negócios enquanto almoçava uma salada com muita proteína. A caixa de chocolates continuava sobre a minha mesa, chamando-me, convidando-me a fazer uma loucura que ia contra tudo o que Julian Marlow representava.
Peguei um cartão pequeno e decidi escrever algo simples, direto, mas que soasse um pouco mais pessoal do que a nota formal que eu tinha tentado redigir ontem.
Isso é tudo. Sim, chega. Eu iria levar o chocolate para ele e simplesmente diria que estava passando por ali casualmente e que queria deixar algo para ela.
Comecei a embrulhar a caixa como se fosse um especialista em embalagem. Para minha surpresa, ficou perfeito. Talvez em outra vida eu pudesse ter sido um empacotador profissional em vez do temido CEO da Marlow Industries.
Às três da tarde, tomei outro banho e passei a mão no cabelo mil vezes tentando acalmar os meus nervos. Me vesti casualmente: jeans escuros, camisa azul e uma jaqueta que raramente usava. Peguei a caixa de chocolates e saí do meu apartamento sem me permitir pensar mais no absurdo da situação.
Sim, foi isso que você me tornou. Estúp*ido e idio*ta em questão de horas, Maria José Ramírez.
O trajeto até foi mais longo do que eu me lembrava. O Canadá estava particularmente congestionado naquele sábado, como se toda a cidade conspirasse para me dar tempo de me arrepender. Mas eu não fiz.
Finalmente cheguei ao endereço e fiquei ali, estacionado, olhando para a modesta casa de dois andares com o seu jardim da frente bem cuidado.
É aqui? Revisei novamente o endereço que tinha dela. Sim, deve ser.
Respirei fundo e continuei estacionado, contemplando a casa como se fosse me revelar algum segredo sobre o seu ocupante. Armei-me de coragem, saí do meu Aston Martin e caminhei alguns passos antes de perceber que tinha esquecido a caixa de chocolates.
Genial. Voltei para o carro, peguei a caixa e dei mais alguns passos em direção à casa. Parei.
M*erda, Julian, o que está acontecendo com você? De que você tem medo? Não te chamam de "o tubarão" nos negócios porque você é um cabrão medroso.
Recompus a minha postura e caminhei a passos decididos até a porta principal. Bati duas, três vezes. Ninguém respondeu. Tentei de novo, desta vez com mais insistência.
— Já vou, já vou! Ouvi uma voz gritando de dentro. — Não peçam tanto a esta pobre velhinha.
Franzi a testa, confuso. Eu tinha me enganado no endereço?
Então, uma mulher de quase 80 anos abriu a porta para mim. Os seus olhos, surpreendentemente vivos para a idade, examinaram-me de cima a baixo com evidente curiosidade.
— Sim, jovem, o que deseja? Ela perguntou com uma voz forte que contrastava com a sua aparência frágil.
Engoli em seco e pigarreei, sentindo-me estranhamente nervoso.
— Boa tarde, senhora. Procuro a Maria José. Ela está?