Ao chegar ao escritório, tentei agir com normalidade. Saudei a todos com o meu melhor sorriso ensaiado e fui direto para minha mesa. Bill já estava lá, concentrado no seu computador.
— Bom dia, Bill. Cumprimentei, tentando fazer a minha voz soar casual.
Ele levantou o olhar e sorriu, tão amável como sempre.
— Bom dia, Maria José. Como foi o seu fim de semana?
O seu tom era cordial, mas havia algo diferente no seu olhar. Uma reserva, uma distância sutil que antes não existia. Não podia culpá-lo. Eu o havia rejeitado, e embora ele tivesse sido compreensivo, as coisas não podiam simplesmente voltar a ser como antes.
— Tudo bem. Menti. — Estudando principalmente. E o seu?
— Igual. Nada de extraordinário.
Concordei e comecei a organizar o meu espaço de trabalho, grata por ter uma desculpa para não continuar a conversa. A culpa me corroía por dentro. Bill era um bom rapaz, alguém que merecia muito mais do que eu podia oferecer-lhe enquanto a minha mente e o meu coração estivessem divididos.
A manhã transcorreu com aparente normalidade. Concentrei-me nos números da minha tela, nos relatórios que precisava preencher, em qualquer coisa que mantivesse a minha mente ocupada e longe de pensamentos sobre olhos intensos. Evitava olhar para Bill mais do que o necessário, para não sentir mais culpa do que já carregava.
O silêncio do escritório só era interrompido pela digitação constante, pelas conversas em voz baixa e pelo ocasional toque de telefone. Era quase meio-dia quando aconteceu.
A porta principal do apartamento abriu-se de repente, e foi como se alguém tivesse pressionado o botão de pausa num filme. A digitação cessou. As conversas foram interrompidas no meio da frase. Até o ar pareceu parar, tornando a respiração um esforço consciente.
— Bom dia. Pronunciou uma voz clara e potente, uma voz que reconheceria entre mil.
Julian Marlow estava parado na entrada do departamento de contabilidade, vestindo um terno cinza-escuro impecável que realçava a sua figura imponente. O seu cabelo ne*gro perfeitamente penteado para trás e o seu maxilar quadrado tenso lhe davam aquele ar de autoridade inabalável que fazia jus ao seu apelido: "o tubarão Marlow".
Mas o que me deixou sem fôlego foram os olhos dele. Aqueles olhos que agora, ignorando todos os outros no escritório, pousavam diretamente em mim com uma intensidade que me atravessou como uma corrente elétrica.
— Bom dia, senhor Marlow. Responderam todos em uníssono, como um coro bem ensaiado.
E ali estava aquele homem, aquele que nunca descia a nenhum departamento, aquele que não saía da presidência, agora casualmente estava alguns andares longe do seu luxuoso santuário e acho que sei muito bem a razão.
Julian
O relógio marcava seis horas da tarde de sexta-feira e eu ainda estava no meu escritório quando a maioria dos funcionários já havia deixado o prédio há uma hora. Meu telefone vibrou sobre a mesa. Era Thomas.
— Você ainda está no escritório?
Respondi-lhe imediatamente com um simples "Sim".
— Que estranho. Ele respondeu com aquele sarcasmo tão característico dele.
Não me dei ao trabalho de responder. O que eu poderia dizer a ele? Não conseguia explicar que estava tentando escrever uma simples nota para acompanhar a caixa de chocolates suíços que tinha pedido a Liam para conseguir esta tarde há duas horas. Duas m*alditas horas para algumas poucas linhas que soassem corretas.
Eu, o homem que conseguia fechar negócios multimilionários sem pestanejar, estava aqui, suando sobre um pedaço de papel, incapaz de encontrar as palavras certas para uma mulher.
A porta do meu escritório abriu sem aviso prévio. Thomas nunca se dava ao trabalho de tocar ou anunciar, uma das muitas liberdades que tomava por ser meu irmão.
— Trabalhando até tarde como sempre? Ele perguntou enquanto se deixava cair na cadeira em frente à minha mesa.
O seu olhar parou na elegante caixa de madeira sobre a minha mesa. Vi como os seus olhos reconheceram a marca gravada na tampa.
— Te enviaram chocolates? Ele brincou, embora ambos soubéssemos que ninguém me enviaria algo assim.
Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba incipiente de um dia longo demais. Tomei uma decisão impulsiva.
— Vamos ver, leia este bilhete e me diga se é romântico e educado o suficiente. Estendi o papel onde eu estava escrevendo para ele. — Preciso parecer um cavalheiro sem parecer desesperado e muito menos um perseguidor.
Thomas pegou o papel e começou a ler, franzindo os lábios enquanto os seus olhos percorriam as minhas palavras. Não consegui decifrar a sua expressão até que, de repente, ele irrompeu numa sonora gargalhada.
— Sério mesmo, Julian? Ele disse entre risos. — Tenho certeza que só na sua mente isso soa romântico.
Revirei os olhos, arrependendo-me instantaneamente de ter pedido a opinião dele.
— É que não sei como soar romântico sem parecer que a estou assediando. Confessei, algo que jamais admitiria para mais ninguém.
Thomas mantinha aquele sorriso irritante que sempre fazia quando achava que estava certo sobre mim.
— Bem, isso parece mais uma desculpa a um cliente. Ele riu novamente, desta vez mais alto. — Prezada senhorita Ramírez, tenho o prazer de lhe enviar este presente como prova do meu mais sincero... Em que século você vive, irmão?
— Você não ajuda em nada, Thomas. Declarei, sentindo a minha frustração crescer.
— Você vai enviar uma caixa de chocolates com esta nota de desculpas...
— Sim, vou levar na sua casa amanhã. Interrompi ele.
Thomas assentiu lentamente, aquele gesto que fazia quando achava que estava prestes a cometer um erro crasso.
— Ahá. Ele respondeu enquanto apertava os lábios com os dois dedos indicadores, claramente contendo outra gargalhada. — E você só vai lá, deixa o chocolate e sai correndo, é isso? Não entendo. Você quer que ela pense que você não está assediando-a escrevendo uma nota, mas você vai à casa dela sem ser convidado. Que convincente.
Suspirei exasperado e joguei a minha caneta sobre a mesa, recuando na cadeira. Odiava admitir, mas ele estava certo.
— O que posso fazer então, Romeu? Perguntei-lhe com ironia.
— Não, não sei. Ele deu de ombros. — Geralmente são as mulheres que vêm até mim. Eu não tenho necessidade de enviar chocolates para elas nem de procurá-las.
Típico do Thomas. Sempre se gabando das suas conquistas, como se isso fosse uma conquista quando você é jovem, bonito e milionário.
— E quando você se apaixonou por...? Comecei, mas parei abruptamente ao perceber o meu erro.
O rosto de Thomas escureceu imediatamente. O tema ''ela'' ainda era tabu entre nós, mesmo depois de tanto tempo. Levantou-se sem dizer nada, a sua expressão agora completamente séria.
— Lá vai você com as suas bobagens de amor, Julian. Ele disse enquanto caminhava para a porta. — Fico feliz que finalmente uma mulher desperte interesse em você, mas se me perguntar, direi que todas são iguais: querem dinheiro e desaparecem depois. Então não sei, não sou bom conselheiro para isso.
A amargura na sua voz era notória. Aquela mulher o tinha mudado, transformando meu irmão romântico neste cínico que eu tinha diante de mim.
— Jantamos algo no meu apartamento hoje? Perguntou, mudando abruptamente de assunto.
Arqueei uma sobrancelha, surpreso com o convite.
— Você não tem nenhuma reunião hoje?
Thomas ne*gou e o sorriso voltou ao seu rosto, embora já não chegasse nem à metade.
— Não, não tenho vontade de passar uma noite tranquila. Além disso, hoje jogam os Lakers.
Concordei. Talvez fosse bom passar um tempo com meu irmão e esquecer por um tempo Maria José, aquela pequena colombiana que não saía da minha cabeça desde que a vi na sala de reuniões.
— A que horas eles jogam? Perguntei, considerando seriamente o convite.
— Às nove. Ele respondeu, olhando para o relógio.
— Nos vemos num momento. Prepara umas cervejas bem geladas. Respondi.
— Sam também vai. Ele acrescentou antes de sair.
— Perfeito, nos vemos. Respondi, pensando que seria bom ver os meus dois irmãos juntos.
Quando Thomas fechou a porta, olhei novamente para a caixa de chocolates e para a nota inacabada. Talvez meu irmão estivesse certo. Apresentar-me na sua casa sem avisar, com uma caixa de chocolates e uma nota formal, seria estranho. Demasiado intenso, demasiado... desesperado.
Peguei o papel e amassei-o, jogando-o na lixeira. Precisava de outra abordagem e uma resma de papel.
Uma hora depois guardei tudo, desliguei o computador, peguei a caixa de chocolates para levar comigo, pensando no que realmente faria. Talvez Thomas estivesse certo e precisasse de um plano melhor do que simplesmente aparecer na porta dela. Talvez o mais direto fosse falar com ela no escritório. Pedir que ela viesse ao meu escritório e perguntar-lhe diretamente por que nunca me ligou, porque reagiu daquele jeito ao me ver.