Episódio 26

1476 Palavras
A minha mente imediatamente foi para o pior cenário: ela veio me cobrar o aluguel que eu ainda não tinha pago este mês. Já tinha preparado o meu discurso: prometeria a ela que o pagaria assim que recebesse o meu salário, e até ofereceria um pouco mais como juros pelos dias de atraso. Mas a senhora Peterson era incapaz disso. Nesses quatro anos, nunca me senti pressionada por dinheiro, entendendo perfeitamente a minha situação como estudante estrangeira tentando sobreviver num país tão longe do meu. — Maria, hoje à tarde, por volta das cinco, veio um homem te procurar. Ela disse com uma expressão que não soube interpretar. Senti como se o chão sob os meus pés estivesse se movendo. — Um homem, me procurar? A minha voz soou estranha, nervosa. — Quem? A velhinha sorriu de um jeito que me lembrou as avós cúmplices das novelas que eu assistia com a minha lela na Colômbia. — Nestes quatro anos que você mora aqui, é a primeira vez que um homem vem perguntar por você. Ela comentou com certo tom malicioso. — Mas deixe-me dizer que ele é o homem mais bonito e alto que vi na minha vida. O meu corpo inteiro começou a tremer. A respiração ficou curta, como se de repente o oxigênio tivesse abandonado a minha pequena casa de madeira. Minha mente, traiçoeira, começou a imaginar coisas que eu não acreditava serem possíveis. Não podia ser ele, ou podia? — O que ele te disse que queria? Perguntei, tentando manter a compostura. — Ele te disse o nome dele? A senhora Peterson ne*gou levemente com a cabeça, e aquela pequena esperança de confirmar as minhas suspeitas se dissipou. — Não, ele só achou que você morava comigo. Ela explicou. — Mas eu expliquei para ele que você mora aqui, que eu alugo este quartinho para você. Foi muito curto e sério. A minha mente trabalhava a toda velocidade. Quem poderia ser? Talvez o Paulo? Não, impossível, ele teria me mandado uma mensagem antes e também sabia que eu morava no fundo. Eu teria entrado diretamente sem perguntar à senhora Peterson. — Eu disse a ele que vi você sair momentos antes. Continuou a senhora Peterson. — Perguntei a ele se queria deixar alguma mensagem para você, mas ele disse que não, que voltaria em outra ocasião. Ele se desculpou como um verdadeiro cavalheiro e se retirou. Ah, mas isso não é tudo, ele me entregou uma caixa para você. O meu pulso estava muito acelerado. Tinha medo de ter um colapso e desabar ali mesmo na frente da senhora Peterson. — Uma caixa? Ela assentiu. — Mas quando já estava vindo para cá, lembrei. Ficou lá em casa. Então a senhora Peterson se aproximou um pouco mais, como se estivesse prestes a compartilhar um segredo de estado. — Mas Maria, deixe-me dizer que pela forma como ele se vestia e pelo carro que dirigia, ele era um daqueles homens muito, muito ricos. Levei uma mão à testa, sentindo como todo o meu corpo começava a tremer sem controle. Só podia pensar numa pessoa que se encaixava nessa descrição. Julian Marlow. Ele tinha vindo me procurar na minha casa? Como ele conseguiu meu endereço? E o mais importante: Para quê? A senhora Peterson notou a minha reação imediatamente. A sua expressão mudou de curiosidade para preocupação maternal. — Você está bem, querida? Ela perguntou, colocando uma mão enrugada no meu braço. — Você ficou pálida. — Estou... estou bem. Menti, tentando controlar o tremor na minha voz. — Quer falar o que está acontecendo? Ela ofereceu com doçura. — Fiz chocolate quente e estou sozinha esta noite. Se quiser me acompanhar... de quebra te dou o que aquele homem te deixou. Eu sabia o que aquele convite significava. Havia momentos em que eu percebia que a senhora Peterson simplesmente queria companhia. Em noites como esta, ela me convidava para tomar chocolate quente, me mostrava fotos antigas e me contava histórias de seus filhos, que agora moravam longe, ou do seu falecido marido, a quem ela continuava amando com a mesma intensidade do primeiro dia. Normalmente, essas noites eram uma bênção para ambas. Ela obtinha a companhia que tanto ansiava, e eu encontrava nas suas palavras a sabedoria que só a experiência pode dar. Mas esta noite, com a minha mente em caos por causa de Julian, Bill e a visita misteriosa, não tinha certeza de conseguir ser boa companhia. No entanto, ao ver o seu rosto esperançoso, não pude ne*gar. Talvez um pouco de normalidade, de calor humano, fosse exatamente o que eu precisava para acalmar a minha ansiedade. Além de estar morrendo de curiosidade para saber o que aquele homem misterioso, nem tão misterioso assim, tinha me deixado. — Adoraria. Respondi com um sorriso sincero. A senhora Peterson sorriu amplamente, e juntas, de braço dado, caminhamos em direção à casa principal. Enquanto entrávamos na sua sala aconchegante, com seus móveis antigos, pude sentir definitivamente o aroma de chocolate quente e, de certa forma, parecia reconfortante para o meu coração. A senhora Peterson já estava tirando o seu álbum de fotos favorito, aquele com capas de couro desgastadas pelo tempo e pelas inúmeras vezes que havia sido aberto. Sentei-me ao lado dela no sofá, aceitando a xícara fumegante de chocolate que ela me oferecia. — Deixe-me contar sobre a vez em que Harold me pediu em casamento. Ela começou, com aquele brilho especial nos olhos que aparecia toda vez que ela falava do marido. — Foi um desastre, mas o desastre mais lindo da minha vida. Sorri, permitindo-me ser transportada para outro tempo, para outra história de amor. Enquanto isso, no fundo da minha mente, uma pergunta persistia: O que Julian Marlow queria de mim? Quando já tinham se passado umas duas horas, decidi me retirar para que a senhora Peterson pudesse descansar. — Oh, menina, espere, aqui tenho o que aquele homem te deixou. Me alterei novamente, já tinha esquecido por um instante ao ouvir a linda história da senhora Peterson. Com mãos trêmulas peguei, era uma caixa preta fina com um laço prateado, não havia mais nada e a minha curiosidade era extrema, o que eu queria era correr até a minha casinha para abrir a caixa e ver o que havia dentro. — Boa noite, senhora Peterson, descanse. — Você também, Maria. Obrigado pela sua companhia. Afastei-me apressadamente pelo caminho do jardim lateral em direção à minha casinha. Me tranquei ali e olhei para a caixa na minha mão, tremia e sentia umas borboletas fazendo uma grande manifestação. Com os dedos tracei linhas sobre a caixa, era linda, sua embalagem tão delicada, o laço fino de seda, isso provavelmente custava muito dinheiro, e falava apenas da embalagem. Então eu desfiz com cuidado, não queria rasgar o papel tão bonito. Ao tirar a caixa, caiu um pedaço de papel, era um pequeno cartão. Senhorita Maria José Gostaria de expressar as minhas sinceras desculpas se, no nosso primeiro encontro, o meu comportamento foi m*al interpretado e você teve uma má impressão. Poucas vezes soube expressar o que sinto. No entanto, garanto que o meu interesse é genuíno e respeitoso. Apreciaria muito a oportunidade de conhecê-la melhor. Respeitosamente, Julian Marlow Dei uma gargalhada ao ler o seu bilhete. Este sim era o Julian Marlow que todos conheciam. Reli a nota várias vezes até que a deixei de lado e olhei para a caixa. Abri a boca quando vi o nome gravado na caixa de madeira. "Casa de Grauer flor de cacau" Não conhecia muito sobre chocolates, então rapidamente digitei no meu telefone e fiquei de boca aberta. Eram chocolates suíços e eram feitos de cacau e dos mais caros do mundo. — Madre mía. Exclamei, olhando as barras de chocolate. Estava apaixonada simplesmente pela apresentação da caixa. E pelo que representava. Fechei os olhos e ne*guei com a cabeça. —Definitivamente ele não vai me demitir. Sussurrei sentindo as minhas bochechas queimarem. ****** Chegou segunda-feira e com ela, uma mistura de ansiedade e felicidade que revirava o meu estômago desde que abri os olhos. Hoje eu receberia o meu primeiro salário na Marlow Industries. A quantia que eu tinha visto no meu contrato era mais dinheiro do que eu tinha movimentado em toda a minha vida. Finalmente, eu poderia pagar o meu aluguel atrasado para a senhora Peterson e o último, porque vou procurar um lugar mais decente e um pouco maior para morar, enviar dinheiro de volta para minha família na Colômbia e, o mais importante, me permitir aquele pequeno luxo de não contar cada centavo ao fazer as compras do mês. Mas a emoção pelo meu primeiro cheque era ofuscada pela incerteza que me perseguia desde sexta-feira. O encontro com Julian no seu escritório, a proposta rejeitada de Bill, a misteriosa visita à minha casa... tudo dava voltas na minha cabeça.
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