Maria José
A roda gigante voltou a funcionar ao mesmo tempo que o meu coração batia descontroladamente. Fiquei completamente muda, incapaz de articular uma resposta coerente. Os olhos de Bill estavam fixos em mim, expectantes, cheios de ilusão.
— O que você disse? Ele perguntou justo no momento em que a roda completou o seu giro e parou para que descêssemos.
O operador abriu a porta, mas Bill fez um gesto com a mão para ele.
— Outra volta. Disse ao homem que controlava a roda, claramente querendo estender o nosso momento a sós.
Um pânico irracional tomou conta de mim. A cabine parecia cada vez menor, o ar mais escasso. Precisava sair dali, precisava de espaço para respirar, para pensar.
— Não, preciso... preciso descer. Respondi apressada, a minha voz soava estranha até para mim mesma.
O operador olhou para nós confuso, notando a minha evidente ansiedade.
— Abra, por favor, abra. Pedi meio-alterada, e o homem, sem hesitar, abriu a trava, permitindo-me escapar daquela cabine que parecia se fechar sobre mim.
Senti os meus pés tocarem o chão e comecei a caminhar apressadamente, sem direção específica, apenas querendo me afastar. A música do parque, as luzes, as risadas... tudo me parecia avassalador.
— Marijo, espera! Espere, por favor! Ouvi Bill atrás de mim.
Senti os seus dedos se fecharem em torno do meu pulso, me detendo com firmeza, mas sem me machucar. Virei-me para encontrá-lo respirando um pouco ofegante pela corrida para me alcançar.
Bill colocou-se na minha frente, bloqueando o meu caminho de fuga. O seu rosto mostrava tanta confusão quanto preocupação ao mesmo tempo, o que me fez sentir ainda mais culpada.
— Te incomodou? Fiz algo de errado? Ele perguntou com incerteza. — Por favor, fale comigo.
Fechei os olhos por um momento e suspirei profundamente, tentando recuperar um pouco da compostura. As pessoas passavam ao nosso redor, alheias ao pequeno drama que estávamos vivendo em meio ao parque de diversões.
— Não posso. Disse finalmente, abrindo os olhos para enfrentá-lo. — Não agora, Bill. Conhecemo-nos há muito pouco tempo. Eu não posso me jogar no vazio sem paraquedas. Eu não sou assim.
As palavras saíram atropeladamente, como se tivessem estado contidas dentro de mim e agora escapassem sem controle. Eu nem tinha certeza se o que eu dizia era verdade. Era realmente o tempo o problema? Ou talvez o problema fosse outro?
Bill soltou o meu pulso lentamente, deixando uma sensação fantasma onde os seus dedos estiveram.
— Entendo, entendo. Ele disse com voz suave, embora eu pudesse ver a decepção nos seus olhos.
Um silêncio desconfortável instalou-se entre nós. Ao nosso redor, o parque continuava vibrando com vida: crianças correndo, casais abraçados, amigos rindo. A normalidade de todos contrastava dolorosamente com o caos que eu sentia dentro de mim.
— Desculpe. Murmurei, esfregando instintivamente o pulso, embora Bill não me tivesse segurado com força. — Não queria reagir assim. É só que... você me pegou de surpresa.
Bill assentiu lentamente, processando as minhas palavras.
— Suponho que fui impulsivo demais. Ele admitiu, passando a mão pelo cabelo num gesto nervoso. — É só que quando estou com você, sinto que as coisas são... diferentes. Especiais.
As suas palavras só me encheram de culpa. Bill era sincero nos seus sentimentos por mim. E eu estava aqui, dividida, pensando em outro homem enquanto ele me abria o coração.
— Você é um homem maravilhoso, Bill. Disse com toda a sinceridade que consegui reunir. — Qualquer mulher seria sortuda em estar com você.
— Mas você não quer ser essa mulher. Ele completou, com um sorriso triste, baixando o olhar.
Não soube o que responder. Uma parte de mim queria ser aquela mulher. A parte racional, aquela que sabia apreciar um homem bom e estável como Bill. Mas outra parte, aquela que fazia o meu coração acelerar ao pensar em Julian, me impedia de dar a Bill o que ele merecia.
— Não é tão simples assim. Respondi finalmente. — Há... coisas na minha vida que preciso resolver primeiro. Não seria justo começar algo com você quando a minha cabeça está em outro lugar.
Bill ficou em silêncio por um momento, como se estivesse considerando as minhas palavras cuidadosamente.
— Tem a ver com o que aconteceu ontem? Ele perguntou de repente. — Com Julian Marlow?
Senti como se tivessem jogado um balde de água fria em mim.
— Por que você pergunta isso? Respondi na defensiva, totalmente desconcertada. Acaso Bill podia ler a minha mente ou como ele sabia? Não, ele só está tentando coletar informações, ninguém sabe. É impossível.
— Porque desde ontem você está diferente. Explicou Bill. — E a forma como você reagiu quando voltou do escritório dele... parecia que você tinha visto um fantasma.
Baixei o olhar, incapaz de sustentar o dele. Bill era mais perceptivo do que eu havia imaginado.
— É complicado. Foi tudo o que consegui dizer.
— Sempre é. Ele respondeu com um tom que não soube interpretar. — Mas está tudo bem. Respeito o seu espaço e o seu tempo.
Levantei os olhos, surpresa pela sua compreensão. Eu esperava raiva, decepção, até ciúmes, mas não essa aceitação tão tranquila. Mas eu estava grata por sua atitude tão madura.
— Obrigada. Murmurei. — De verdade, eu aprecio isso.
Bill assentiu e, após um momento de dúvida, estendeu a mão para mim.
— Amigos, então? Ele ofereceu com um pequeno sorriso.
Senti um nó na garganta. Não merecia tanta gentileza da sua parte.
— Amigos. Aceitei, pegando a sua mão.
— Quer que continuemos a passear pelo parque? Ele perguntou, tentando aliviar o ambiente. — Há uma barraca de algodão-doce que vi antes e parecia deliciosa.
Uma parte de mim queria dizer que sim, continuar como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia que seria injusto para ambos. Precisava de espaço, tempo para pensar, e de forma alguma era justo para ele.
— Acho que devo ir. Disse suavemente. — Foi um dia longo e amanhã...
— Amanhã? Perguntou Bill, levantando uma sobrancelha.
— Tenho que estudar para a minha aula de contabilidade.
Bill assentiu, embora não parecesse totalmente convencido.
— Acompanho você até a parada de ônibus. Ele ofereceu.
Caminhamos em silêncio até a saída do parque. A tarde dera lugar à noite, e as luzes brilhavam com mais intensidade na escuridão. Quando chegamos ao ponto de ônibus, virei-me para o Bill.
— Obrigado por entender. Disse sinceramente. — E lamento se te fiz sentir...
— Não se desculpe. Interrompeu-me gentilmente. — Os sentimentos são complicados. Entendo isso melhor do que ninguém.
O ônibus apareceu ao longe, as suas luzes se aproximando gradualmente.
— Nos vemos na segunda-feira no escritório. Disse Bill, inclinando-se para me dar um beijo na bochecha. — Descanse em paz, Maria José.
— Igualmente, Bill.
Subi no ônibus e encontrei um assento ao lado da janela. Enquanto o veículo se afastava, vi Bill ainda em pé na parada, a sua figura diminuindo com a distância.
Cheguei à minha pequena casa de madeira no fundo do jardim da senhora Peterson, fechei a porta e desabei na minha cama sem sequer tirar os sapatos. Os meus olhos fixaram-se no teto, seguindo os veios da madeira como se neles pudesse encontrar respostas para as perguntas que atormentavam a minha mente.
Não conseguia parar de pensar no rosto do Bill quando me afastei dele naquela parada de ônibus. A decepção nos seus olhos, aquele sorriso forçado tentando esconder o que realmente sentia. Ele era um bom rapaz, talvez bom demais, e isso só aumentava o meu sentimento de culpa.
Ela tinha sido sincera com ele, não é? Eu tinha dito a ele que era muito cedo, que não podíamos nos conhecer tão pouco e já formalizar um relacionamento. Mas mesmo enquanto pronunciava essas palavras, sabia que era a desculpa mais patética que podia inventar.
A verdade era muito mais simples e complicada ao mesmo tempo: eu não podia namorar Bill enquanto não parasse de pensar em Julian Marlow. Eu não podia entregar o meu presente a alguém quando a minha mente estava presa em outro homem.
De repente, umas batidas suaves na minha porta assustaram-me. Levantei-me de um salto, ajeitando rapidamente o cabelo desgrenhado e alisando a minha blusa amassada. Abri a porta com certa pressa.
A senhora Peterson estava lá, com o seu cabelo branco perfeitamente penteado e aquele sorriso gentil que sempre me lembrava a minha avó.
— Aconteceu alguma coisa, senhora Peterson? Perguntei nervosa.