Episódio 24

1830 Palavras
— Não te contei uma coisa, Rachel. Confessei finalmente. Minha amiga assentiu, sem surpresa. — Eu sabia. Ela disse suavemente. — Mas se não quiser contar, não conte. Olhei para ela, grata pela sua compreensão. Rachel era uma garota maravilhosa, e eu tinha conhecido pouquíssimas pessoas como ela na minha vida. Talvez fosse hora de confiar em alguém. — Lembra da noite que fomos ao clube? Perguntei em voz baixa, certificando-me de que ninguém mais pudesse nos ouvir. — Claro, quando você foi embora cedo. Ela respondeu. — Aquela noite... Engoli em seco, reunindo coragem. — Aquela noite conheci um homem. Ele me deu o número dele, mas eu o rasguei porque achei que ele só queria... você sabe. Rachel me olhava com atenção, sem me interromper. — Era ele, Rachel. Sussurrei. — O homem do clube era Julian Marlow. Os seus olhos abriram-se tanto que pensei que sairiam das órbitas. — Você está brincando? Ela exclamou, baixando imediatamente a voz ao perceber que podiam nos ouvir. — Julian Marlow te deu o número dele num clube e você o rasgou? Como você fez isso, tipo, tipo...? As palavras não saíam da sua boca. Concordei, sentindo o calor subir novamente às minhas bochechas e a vergonha me cobrir novamente. — E quando ficamos frente a frente na sala de reuniões, ele não parava de me olhar. Por um momento pensei que ele não se lembraria de mim. Seria tão ilógico, foi um instante, num clube onde havia milhares de pessoas. Mas não, ele não só não parava de me olhar durante a apresentação, como também foi gentil, acalmou-me quando eu estava morrendo de nervos e... sorriu para mim. Rachel, aquele homem realmente sorriu para mim e não foi uma alucinação. Rachel ficou literalmente de boca aberta enquanto ouvia tudo. — Isso não é tudo. Continuei. Hoje, quando me chamou ao seu escritório, perguntou-me por que nunca o liguei. E eu... eu pensei que ele queria dormir comigo em troca de manter o meu emprego. Tive um ataque de pânico, Rachel. Foi horrível. Eu gritei com ele, você acredita? — Meu Deus. Ela murmurou, cobrindo a boca com as mãos. — E o que ele disse? — Ele riu. Respondi, lembrando da sua gargalhada. — Ele disse que nunca faria algo assim, que só queria saber por que eu não tinha ligado. Rachel permaneceu em silêncio por alguns segundos, processando todas as informações. — Isso é... incrível. Ela disse. — Você sabe o que isso significa? — Que provavelmente vai me demitir por acusá-lo de ser um degenerado? Sugeri amargamente. — Acusei o homem mais poderoso do Canadá de ser um degenerado, além de tê-lo rejeitado. — Não, tonta. Rachel ne*gou com a cabeça. — Significa que ele gosta de você. Julian Marlow. O CEO desta empresa, um dos homens mais ricos e poderosos deste país, está interessado em você. — Isso é ridíc*ulo. Protestei, embora uma pequena parte de mim quisesse acreditar nisso. — Por que ele se interessaria por mim? Sou apenas uma auxiliar contábil, uma imigrante, ninguém. — Maria José. Disse Rachel com firmeza. — Você é linda, brilhante e tem mais personalidade no dedo mindinho do que a maioria das mulheres que você certamente conhece. Não é tão descabido. — Rachel, por que ele se interessaria por mim, havendo tantas mulheres bonitas, elegantes e cultas do mesmo círculo social que ele? — Porque talvez ele esteja procurando algo diferente, não a típica garota fina, elegante, rica que busca o dinheiro dele, ele busca alguém real e em você viu algo que ninguém tem. — E isso seria? Perguntei. — Você é autêntica, simples. Mordi o lábio inferior, ficando sem palavras, incapaz de processar o que Rachel estava sugerindo. Julian Marlow interessado em mim? Era uma loucura. — E agora? Perguntei finalmente. — Agora. Respondeu Rachel com um sorriso enigmático. — Acho que você deveria se preparar para o que vem. Porque algo me diz que isso não acabou. O meu coração começou a bater muito forte. — Prometa-me que isso ficará entre nós, por favor, não quero que ninguém saiba nada disso. Rachel fez um gesto com os dedos fechando a boca. — Sou um túmulo, mas aconteça o que acontecer, preciso de detalhes, garota. Isso é algo que não acontece com frequência, só nos romances que a mamãe assiste. — Não, isso não acontece na vida real, Rachel. Balancei a cabeça. — Só quero continuar trabalhando aqui. *** Chegou o sábado. Desde ontem, com todo o caos no escritório depois do que aconteceu com Julian Marlow, tudo parecia ter se acalmado... exceto o meu coração e a minha mente. Eu estava sentada na pequena mesa da minha casinha de madeira. Com o meu laptop aberto na minha frente, eu tentava me concentrar no projeto de contabilidade avançada, mas minha mente continuava voltando para ele. A seus olhos. À sua voz. O som de uma mensagem recebida me tirou dos meus pensamentos. Era o Bill. Continuamos com o plano para esta tarde? Te espero às 4 na entrada principal de Coney Island. Bati na testa com a palma da mão. Eu tinha esquecido completamente! De tanto pensar em Julian Marlow, o nosso encontro tinha se apagado da minha memória. — É uma boa distração. Murmurei para mim mesma enquanto respondia: Sim, nos vemos às 4 da tarde. Quase imediatamente chegou a sua resposta: estou morrendo de vontade de te ver. Senti as minhas bochechas esquentarem, mas não respondi. Há apenas dois dias, uma mensagem assim do Bill me teria provocado borboletas no estômago. Ele era bonito, gentil e claramente interessado em mim. Eu também sentia algo por ele... ou pelo menos era o que eu achava. Mas depois do que aconteceu ontem. Após o encontro com o CEO. Depois de descobrir que aquele homem misterioso do clube que me deu o número dele e Julian Marlow eram a mesma pessoa, as mensagens de Bill já não me causavam a mesma emoção, e isso me deixou desconcertada. Como tudo podia mudar tão rápido? Vesti-me com uns jeans azuis e uma blusa branca simples. Peguei a minha bolsa pequena e velha, me olhei pela última vez no espelho e saí para pegar o ônibus para Coney Island. Bill já me esperava na entrada quando cheguei. O seu sorriso se alargou ao me ver, e nos cumprimentamos com beijos no rosto. A sua colônia era agradável, mas não me fez sentir o mesmo que o aroma de Julian. Basta, Maria José, repreendi-me mentalmente. — Você está linda. Disse Bill enquanto pagava os nossos ingressos. — Obrigado. Você também está bem. Respondi ao seu elogio, quando, na verdade, nem o tinha olhado. Nos deram as pulseiras de acesso e começamos a percorrer o parque. Bill me pegou pela mão enquanto caminhávamos entre as atrações, e por um momento, consegui o impossível: parei de pensar em Julian Marlow. A montanha-russa, os jogos de habilidade onde o Bill ganhou um ursinho de pelúcia para mim, as risadas... tudo parecia perfeito. Quando nos sentamos para comer salsichas com refrigerante num banco, senti que realmente poderia dar certo com o Bill. Era simples, previsível, seguro. Até que ele perguntou: o que aconteceu exatamente ontem na reunião do conselho de administração? O seu tom soava casual, mas seus olhos me estudavam com atenção. Senti o meu corpo tensionar imediatamente. A salsicha que eu estava comendo ficou suspensa a meio caminho da minha boca. O nó no meu estômago voltou com força. — Já disse ontem no escritório. Respondi, tentando soar natural enquanto deixava a comida no prato de papelão. — Ele estava contente com o nosso trabalho. Ele me perguntou onde eu tinha trabalhado antes e se eu tinha experiência em contabilidade. Bill me observou por alguns segundos que pareceram eternos. — Você é péssima em mentir, sabe? Ele disse finalmente, mas sorriu. Senti que a cor abandonava o meu rosto. Era tão óbvio assim? — Não estou mentindo. Insisti, mas mesmo eu podia notar o quão pouco convincente isso soava. Bill deixou a comida de lado e virou-se para me olhar de frente. — Tudo bem se você não quiser me contar. Mas desde ontem você está diferente. Distraída. Como se algo importante tivesse acontecido. — Não aconteceu nada, Bill. O que poderia acontecer? Ele deu de ombros. Baixei o olhar para as minhas mãos. Bill merecia a verdade, ou pelo menos parte dela. Mas, como contar a alguém que eu gostava dele, que o homem que ocupava os meus pensamentos há dias tinha aparecido de repente como nosso chefe? Ele era nosso chefe. O homem para quem preparávamos os relatórios e pagava os nossos salários. O meu silêncio foi resposta suficiente. — Quer subir na roda-gigante? Perguntou Bill, mudando de assunto abruptamente. Concordei, grata pela distração. Bill me ofereceu a mão para subir na cabine da roda-gigante. Peguei nela, sentindo-me culpada por estar fisicamente com ele enquanto a minha mente vagava longe. A roda-gigante começou a girar lentamente, elevando-nos acima da agitação do parque. Quando chegamos ao ponto mais alto, a cabine parou suavemente, balançando um pouco. O horizonte do Canadá estendia-se diante de nós, com os seus edifícios recortados contra o céu do pôr do sol. Era lindo, mas eu m*al conseguia apreciar. Bill, que tinha estado quieto durante a subida, virou-se para mim. O seu rosto refletia um pouco de nervosismo e emoção, ou pelo menos o que eu achei ver. — Maria José. Ele disse, tomando a minha mão entre as suas. O contato dele me deixou um pouco nervosa. Tão diferente da tempestade que Julian provocava em mim com apenas um olhar. — Eu sei que passou pouco tempo. Continuou Bill. — Que nos conhecemos há apenas um mês, mas Maria José, você me agrada. Gostei de você desde o primeiro momento em que pisou no escritório. O meu coração começou a bater forte, mas não da maneira que deveria. Não com a emoção de quem ouve uma confissão desejada, mas com o pânico de quem sabe o que está por vir e não tinha respostas para isso. — Não vou ne*gar que sei que há boa química entre nós. Ele continuou, com os seus olhos verdes fixos nos meus. — E que não precisamos que passem meses nem anos para nos darmos uma chance. A cabine voltou a balançar suavemente. Lá embaixo, o mundo seguia o seu curso, alheio ao momento crucial que se desenrolava aqui em cima. — Você me daria a oportunidade de te conhecer um pouco mais? Perguntou Bill, apertando levemente a minha mão. — Você quer ser minha namorada? Abri os olhos de par em par, sentindo o ar escapar dos meus pulmões. — Ai, caramba! Exclamei em espanhol antes de conseguir me conter, com aquela expressão tão minha que saía automaticamente em momentos de surpresa. Bill piscou, confuso com a minha reação. Provavelmente ele não entendeu a palavra, mas meu tom tinha sido bastante claro. E o que se responde em momentos como este?
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