Maria José
As minhas pernas tremiam como gelatina enquanto eu subia no elevador. Assim que as portas se fecharam, encostei-me na parede metálica, incapaz de ficar de pé sozinha. Não conseguia acreditar em tudo o que havia acontecido. Meu chefe, o temido Julian Marlow, o CEO da empresa, o tubarão implacável de quem todos falavam, era o mesmo homem que me dera o seu número naquela noite no clube. O mesmo homem cujos olhos cinzentos e voz profunda haviam invadido os meus sonhos por dias.
Você disse a ele que tinha medo dele? Que idi*ota, María José. Reclamei em voz alta enquanto o elevador descia para o meu departamento. Sério que você teve um ataque de pânico agora? Na frente do seu chefe? Diante daquele homem com quem você sonha há dias, muitos e muitos dias, e que nem a deixava dormir de tanto pensar nele, na voz dele, nos olhos dele?
O vazio no meu estômago intensificava-se a cada andar que descia. Nunca me senti tão envergonhada em toda a minha vida.
— Não, agora ele ficou com a pior impressão de mim. Continuei me reprovando. Madre minha, eu disse a ele que não ia ter se*xo com ele.
Cobri o rosto com as duas mãos, desejando que a terra me engolisse.
— Não pode ser. Por que eu disse isso a ele? Ele nem me disse nada parecido.
Embora uma vozinha dentro de mim sussurrasse: obviamente é isso que ele quer. Não, eu não podia ter certeza. A verdade é que ele não tinha insinuado nada inapropriado. Só queria saber por que eu não liguei.
— Por que eu exteriorizei meus pensamentos? Bruta você é, Marijo. Bati na testa várias vezes com a palma da mão.
O elevador parou no meu andar e eu saí, ainda tremendo. Não podia entrar assim no escritório. O meu rosto certamente refletia todo o pânico que eu sentia, as minhas bochechas estariam coradas e os meus olhos lacrimejantes. Todos queriam saber o que tinha acontecido, o que o CEO queria de mim. O que eu ia dizer a eles?
Em vez de ir direto para o departamento de contabilidade, peguei o corredor em direção aos banheiros. Precisava me acalmar antes de enfrentar meus colegas. Tranquei-me em um dos cubículos e sentei-me, abraçando os joelhos contra o peito, tentando controlar a respiração.
Inspira, expira. Inspira, expira. Como minha avó me ensinou quando eu tinha ataques de ansiedade quando criança. Desde o acidente onde meus pais morreram, sofro de ataques de pânico. Eu fui a única que me salvei naquele acidente e custou muito para me recuperar daquele terrível acontecimento.
Apesar dos meus esforços para me acalmar, o medo de ser demitida não saía da minha mente. Agora provavelmente faria, depois de tudo o que lhe tinha dito. Praticamente estava chamando o dono de uma das maiores empresas do Canadá de assediador.
— Você é uma estúp*ida, Maria José. Murmurei, batendo suavemente a cabeça contra a parede do cubículo. — Você estragou tudo.
Não só eu tinha colocado o meu trabalho em perigo, como também tinha feito o ridíc*ulo na frente do homem que me obcecava desde aquela noite no clube. Aquele homem cujos olhos não pararam de me olhar durante toda a apresentação, cuja voz soou quase amável quando tentou me acalmar, cujo sorriso m*l perceptível me fez sentir borboletas no estômago.
E eu, o que tinha feito? Ter um ataque de pânico e acusá-lo de querer se deitar comigo em troca de manter o meu emprego. Brilhante, Maria José. Simplesmente brilhante.
Levantei-me e saí do cubículo para me olhar no espelho. O meu reflexo mostrava exatamente o que eu temia: olhos vermelhos, bochechas coradas, cabelo ligeiramente desgrenhado. Joguei água no rosto, tentando apagar os rastros da minha crise.
— Respire. Disse para mim mesma, olhando fixamente para o espelho. — Saia lá fora e aja como se nada tivesse acontecido. Se alguém perguntar, diga que o Sr. Marlow queria parabenizá-la pessoalmente pelo seu trabalho nas projeções. Nada mais.
Mas e se eu fosse demitida? O que eu faria então? Teriam que voltar aos trabalhos m*al remunerados, às jornadas intermináveis pelo salário mínimo.
— Não, não pense nisso agora. Ordenei a mim mesma, penteando o cabelo com os dedos.
— Que vergonha. Murmurei, sentindo o calor subir novamente às minhas bochechas.
Respirei fundo mais algumas vezes, dei uma última olhada no espelho e decidi que era hora de enfrentar meus colegas. Não podia ficar escondida no banheiro para sempre.
O trajeto do banheiro até o departamento de contabilidade pareceu eterno. Quando finalmente abri a porta do escritório, todos os pares de olhos se voltaram para mim. A sala ficou num silêncio profundo.
— Você está bem? Perguntou Bill, com preocupação, m*al dei dois passos dentro do escritório. — Anderson nos disse que o senhor Marlow queria falar com você a sós. Aconteceu alguma coisa?
Tentei sorrir, mas tenho certeza de que pareceu mais uma careta.
— Está tudo bem. Menti enquanto dava alguns passos para dentro, fechando a porta lentamente. — Só queria me parabenizar pelo meu trabalho nas projeções. Nada importante.
Bill olhou-me cético, mas não insistiu.
— Parece que você viu um fantasma. Disse Rachel.
— Estou um pouco nervosa, só isso. Respondi. — Nem todo dia o CEO te chama ao escritório dele. Tentei controlar o tremor na minha voz.
Anderson, que estava no seu escritório com paredes de vidro, me viu e saiu imediatamente, aproximando-se de mim com expressão preocupada a passos largos.
— O que aconteceu com Julian Marlow? Ele perguntou diretamente, sem rodeios.
Senti que as minhas pernas ameaçavam me falhar, então fui rapidamente para minha mesa e me sentei, tentando disfarçar que o meu corpo inteiro ainda tremia.
— Está tudo bem, senhor, não há nada com que se preocupar. Menti, esforçando-me para manter a voz firme. — Ficou impressionado com o trabalho de todos. Disse que o departamento tinha ficado muito bem perante os investidores.
Anderson olhava-me expectante, esperando mais detalhes.
— Ele me agradeceu e nada mais. Acrescentei, encolhendo os ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo o CEO me chamar ao seu escritório só para parabenizar a nova.
Todos ficaram de boca aberta, sem poder acreditar no que ouviam. Julian Marlow, o chefe temido por todos, parabenizando pessoalmente uma auxiliar? Era algo inaudito.
Anderson sorriu amplamente e deu pequenas palmas de alegria.
— Você é grande, Maria José, muito, muito grande! Ele exclamou, apontando para mim com o dedo indicador antes de virar e voltar para seu escritório com um sorriso de felicidade no rosto.
Todos pareceram acreditar na minha história... exceto Bill, que me olhava da sua mesa com uma expressão séria, quase cética. Não consegui sustentar o olhar dele porque sabia que tudo o que ele tinha dito era uma mentira descarada.
O que eu ia dizer a eles? Que o CEO já me conhecia da boate e queria me perguntar por que eu nunca liguei para ele? Que eu tive um ataque de pânico depois de praticamente gritar com ele que ele era um degenerado que queria dormir comigo em troca de manter o meu emprego? Impossível.
Rachel também me olhava com desconfiança, levantando uma sobrancelha na minha direção. Definitivamente não tinham acreditado na minha versão dos fatos.
As outras garotas começaram a bombardear-me com perguntas uma atrás da outra:
— Como é realmente o chefe em particular?
— Ele é tão bonito de perto quanto parece?
— Como é a voz dele quando fala só com você?
— Seu escritório é tão luxuoso quanto dizem? Como você conseguiu ficar na frente dele sem desmaiar?
Cada pergunta me fazia sentir mais nervosa. Como eu explicaria a eles que aquele homem era a coisa mais linda que eu já tinha visto na minha vida? Que a voz dela parecia irreal, sensual e melodiosa ao mesmo tempo? Que o aroma dele me fez sentir coisas que eu nunca tinha experimentado antes?
— A verdade é que fiquei tão nervosa que m*al me lembro de alguma coisa. Respondi, tentando encerrar o assunto. — Só sei que ele gostou do nosso trabalho e isso é o importante. É como o descrevem, sério, intimidador. É muito… imponente. Terminei sentindo um embrulho no estômago.
Pouco a pouco, o interesse inicial foi diminuindo e todos voltaram às suas tarefas. Lisa continuava a me lançar olhares curiosos de vez em quando, e Ivonne sorria sempre que os nossos olhos se encontravam, mas pelo menos as perguntas haviam cessado.
Tentei me concentrar no trabalho que tinha pendente, mas minha mente continuava reproduzindo a cena no escritório de Julian Marlow. O seu rosto quando perguntei se ele ia se despedir, a sua risada ao perceber o que eu estava pensando, a forma como ele se ajoelhou na minha frente quando eu tive o ataque de ansiedade...
E se eu não quisesse me despedir? E se ele realmente só quisesse saber por que você não ligou para ele?
A ideia me pareceu tão absurda que a descartei imediatamente. Por que Julian Marlow, um homem rico, poderoso e atraente, estaria interessado numa simples auxiliar contábil colombiana? Não fazia sentido.
E, no entanto, havia algo na forma como ele me olhara durante a reunião, em como a sua voz mudara ao se dirigir a mim, naquele pequeno sorriso que parecia reservado apenas para mim...
— Não se iluda, Maria José. Murmurei para mim mesma, abrindo uma planilha para tentar me distrair. — Homens como ele não se interessam por mulheres como você. Não dessa forma. Não buscam romance, só buscam diversão.
Quando chegou a hora do almoço, decidi ficar na minha mesa. Não estava com fome e, sinceramente, não queria mais responder perguntas. Um por um, meus colegas foram saindo até que só restamos Rachel e eu.
— Não vai almoçar? Perguntou-me, aproximando-se da minha mesa.
— Não estou com muita fome. Respondi, sem tirar os olhos do meu monitor.
Rachel sentou-se no canto da minha mesa, olhando fixamente para mim com os braços cruzados.
— Por que sinto que há algo mais? Ela perguntou diretamente.
Não consegui me conter mais. Cobri o meu rosto com as mãos trêmulas, sentindo que as lágrimas ameaçavam voltar.