Depois das aulas, como era quase um ritual, sentamo-nos com o Paul para comer algo na cantina da universidade. A cafeteria ia esvaziando-se aos poucos enquanto ele devorava o seu sanduíche e eu brincava com a minha salada, perdida nos meus pensamentos.
Não tinha contado absolutamente nada do que me aconteceu com Julian para Paul.
Mas isso não ia durar muito, porque o furacão Martina Marlow chegou arrasando tudo.
— Maria José! Exclamou, aproximando-se da nossa mesa com aquela elegância inata que parecia ser marca registrada dos Marlow.— Estou te procurando por todos os lugares!
Paulo levantou os olhos do sanduíche.
— Martina, olá. Cumprimentei, sentindo as minhas bochechas corarem.
Martina não perdeu tempo e sentou-se conosco, inclinando-se para mim com uma expressão que misturava conspiração e entusiasmo.
— Preciso que você me conte tudo o que aconteceu com Julian. Disse sem preâmbulos.
Senti que estava corando até as orelhas. Parece que Julian já havia contado a Martina o que aconteceu e o que estava acontecendo entre nós. Ou pelo menos, parte disso.
— O que ele te disse exatamente? Perguntei, tentando ganhar tempo.
— Que te convidou para jantar amanhã e que você aceitou. Respondeu, com um sorriso que não conseguia conter. — E que houve... um reencontro. Mas ele não entrou em detalhes, você sabe como é meu irmão.
Paulo nos olhava como se estivéssemos falando em outra língua. O seu sanduíche ficou esquecido no prato.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Interveio finalmente.
Suspirei profundamente. Não fazia sentido continuar escondendo, não quando Martina estava aqui, praticamente pulando de emoção no seu assento.
— Julian Marlow, o CEO da Marlow Industries e meu chefe... Comecei.
— Meu irmão. Acrescentou Martina, apontando para si mesma.
— Resulta que é o mesmo homem que me deu o número dele, num clube. Continuei…
— Espera, espera. Interrompeu-me Martina, o seu sorriso desapareceu instantaneamente. — Julian e o sujeito do clube que te deu o número eram a mesma pessoa?
Assenti lentamente.
— O mesmo que você nos contou e eu aconselhei a não ligar? Ela perguntou, com a voz subindo uma oitava.
— O mesmo. Confirmei.
Martina quase caiu para trás na cadeira, levando as mãos ao rosto num gesto dramático.
— Não posso acreditar! Se meu irmão descobrir que fui eu quem te aconselhou a não ligar para ele, ele vai me crucificar. Ela exclamou. — Sou a pior casamenteira do mundo!
Paulo tinha ficado mudo, alternando o olhar entre Martina e eu, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis particularmente intensa.
— Deixe-me ver se entendo. Disse finalmente. — Você conheceu o irmão da Martina no clube, foi ele quem te deu o número dele e você nunca ligou, depois descobriu que ele é seu chefe, vocês já se viram, você gosta dele e agora vão ter um encontro?
Quando ele falava assim, parecia a trama de uma daquelas novelas colombianas que a minha avó assistia religiosamente.
— Basicamente. Admiti.
— Mas isso é perfeito. Declarou Martina, recuperando-se rapidamente do choque inicial. — O melhor de tudo é que você será minha cunhada muito em breve e seremos família.
Senti tanta vergonha que achei que o meu rosto ia pegar fogo. M*al tinha trocado algumas palavras com Julian, tínhamos combinado um simples jantar, e Martina já estava planejando nosso casamento.
— Martina, por favor. Murmurei, afundando o rosto entre as mãos. — Só nos conhecemos.
— O amor não entende de tempos. Ela sentenciou com a autoridade de quem resolveu os mistérios do universo. — Além disso, nunca tinha visto o Julian assim. Julian Marlow enviando chocolates! É como se de repente o sol nascesse no oeste.
Não consegui me conter mais e comecei a bombardeá-la com perguntas. Se fosse ter um encontro com Julian, queria saber mais sobre ele, além do misterioso CEO da Marlow Industries.
— Como ele é realmente? Perguntei. — Conte-me coisas sobre ele que eu não saiba.
Martina sorriu, encantada por poder falar do irmão.
— O que todo mundo já sabe: ele é um m*al-humorado crônico. Começou. — Nunca teve namorada nem um relacionamento romântico. Odeia demonstrações de afeto em público, em privado ou em geral.
Fez uma pausa dramática antes de continuar.
— Que eu tenha te enviado aquela nota... Disse, referindo-se à que acompanhava os chocolates.
Ele tinha mostrado o bilhete para Martina, e ela tinha morrido de rir lendo-o em voz alta repetidas vezes, declarando que era o bilhete mais antirromântico que ela tinha lido em toda a sua vida.
—"Prezada senhorita Ramírez" Ela recitou, imitando uma voz grave e formal. — É hilário! Mas vindo do Julian, que nunca fez algo assim, é praticamente uma declaração de amor ardente.
Paulo finalmente caiu na gargalhada, juntando-se a Martina. Eu também não pude evitar rir, embora sentisse em partes vergonha e uma estranha emoção no peito. Havia algo comovente em pensar em Julian Marlow, o temível CEO, se esforçando para escrever um bilhete que acompanhasse uns chocolates.
— Sinto-me lisonjeada e especial. Admiti em voz baixa.
— E você deveria. Afirmou Martina. — Julian nunca fez essas coisas. Nunca, jamais.
Então ela começou a me contar mais detalhes sobre ele, coisas que eu jamais teria imaginado sobre o sério e formal Julian Marlow.
— Ele ama doces. Confidenciou-me. — É viciado em doces, especialmente em chocolate branco e doce de leite, e em rolinhos de baunilha, ama bolos de morango, gosta muito de sorvetes, enfim, tudo o que é doce. Talvez por isso ele goste de você, você é muito doce, Marijo. Disse Martina e pronto, de novo o rubor invadiu minhas bochechas.
— Se alguma vez quiser suborná-lo, esse é o caminho.
— Ele também é obcecado por ordem. Ela continuou. — O seu armário está organizado por cores e tipos de roupas. Não me surpreenderia se ele tivesse a suas meias catalogadas por espessura.
Paulo escutava fascinado, como se estivéssemos revelando segredos de estado. Eu ri imaginando tal coisa. Eu era a desordem em pessoa, próprio de um contador. Mas nós nos entendíamos nos nossos desastres. — Somos polos opostos. Declarei. — Eu sou a senhora caos em pessoa, se visse o meu guarda-roupa cairia para trás. Confessei.
— Os opostos se atraem. Disse Paul, levantando as sobrancelhas enquanto provocava Martina.
— Embora o meu irmão pareça frio e distante, ele é incrivelmente leal. Acrescentou Martina, notando-se que ela admirava muito o irmão. Quando nosso pai morreu, ele assumiu a responsabilidade pela empresa e por nós. Julian sacrificou muitas coisas para nos manter unidos e garantir que tivéssemos tudo o que precisávamos, incluindo a minha mãe.
Essa revelação surpreendeu-me. Julian não parecia muito mais velho que seus irmãos para ter assumido tal responsabilidade.
— Quantos anos Julian tem? Perguntei.
— Trinta e cinco. Respondeu Martina.
— Por isso é como é. Continuou Martina. — Ele teve que crescer de repente, tornar-se o homem da casa, o responsável. Nunca teve tempo para relacionamentos, para se divertir, para ser simplesmente Julian.
De repente, muitas coisas sobre ele começaram a fazer sentido. A sua seriedade, sua formalidade.
— Então. Interveio Paul, quebrando o silêncio. Você vai comer o solteiro mais cobiçado do Canadá? Mer*da, garota, nunca mais reclame de ter má sorte. Isso só acontece nos livros e você, minha querida Marijó, está vivendo o seu próprio romance, então tire por uma vez o medo que você tem e aproveite.
Abri os olhos de par em par e depois cobri o rosto com as duas mãos. Comer o CEO? Por Deus, só de imaginar estar a sós com aquele homem já me tremiam as pernas, que eu tivesse inti*midade com ele nem sequer imaginava.
— Assim é, linda, meu irmão está realmente interessado em você. Ele não te quer só para te levar para a cama. Julian não é assim. Ele não ilude uma mulher, ele não tem necessidade de fazer isso, porque ele é um homem tão correto que tenho certeza que nem tocará na sua mão se não quiser te levar a sério. Não tenha medo, Marijo. Ele não vai te machucar.
Suspirei fundo sentindo o meu estômago se acalmar e com as palavras de Martina: ele não vai te machucar.
Fiquei com eles, até a hora do nosso encontro.