Episódio 20

1274 Palavras
Ela obedeceu, tremendo, e pude notar como a sua respiração havia acelerado. Dirigi-me novamente à cabeceira da mesa, sentindo os olhares de todos os presentes. Especialmente a de Thomas, que me observava com uma mistura de confusão e diversão, como se acabasse de descobrir um segredo vergonhoso sobre mim. Comecei a falar, enfatizando tudo o que já havia sido dito, mas minha mente estava em outro lugar. Os investidores começaram a fazer a suas perguntas habituais e eu me esforcei para respondê-las com a minha habitual precisão e autoridade. Depois entramos no tema da expansão para a Espanha, o que capturou o interesse de todos os presentes. Thomas também deu suas opiniões, explicando em detalhes os novos aviões que lançaríamos no próximo mês. Meu irmão sempre teve um dom para os aspectos técnicos do negócio, algo que eu apreciava enormemente. Eu, enquanto isso, de vez em quando olhava para Maria José e me perdia nos seus olhos, no seu olhar profundo e expressivo. Depois, consciente do meu comportamento incomum, forçava-me a percorrer com o olhar todos os rostos presentes para disfarçar o meu interesse particular nela. À medida que a reunião avançava, a minha ansiedade crescia. Nunca achei possível, mas a única coisa que eu queria era encerrar a reunião, que todos fossem embora e me levassem essa preciosidade para o meu escritório. Um pensamento tão impróprio para mim que quase me fez sorrir pelo absurdo da situação. Quando a reunião finalmente terminou, todos ficaram mais do que satisfeitos com os resultados. Foram saindo da sala de reuniões um por um, trocando comentários positivos sobre as apresentações. Thomas aproximou-se de mim antes de sair e sussurrou no meu ouvido: — Depois me conta o que aconteceu. Ele disse, olhando alternadamente para Maria José e para mim com um sorriso cúmplice. Ele se retirou sem esperar resposta, deixando-me com a sensação de que meu irmão me conhecia muito bem. Sandra, que tinha permanecido incomumente calada depois de sua tentativa fracassada de menosprezar Maria José, levantou-se e aproximou-se de mim com aquela caminhada estudadamente sensual que usava quando queria algo. — Julian. Ela disse de forma melosa e patética. — Gostaria de falar algo com você. Podemos ir ao seu escritório? Era tão transparente que quase me deu pena. Como ela e todos na sala tinham ouvido que eu queria falar com Maria José depois da reunião, Sandra casualmente também tinha algo para falar comigo. O que menos queria naquele momento era ouvir a sua voz estridente e as suas insinuações. — Sinto muito, Sandra. Respondi friamente. — Será em outro momento. Tenho assuntos importantes para tratar. Se precisar tratar de assuntos administrativos da empresa, peça uma reunião ao Liam quando a minha agenda estiver disponível. Enquanto eu falava, não pude evitar olhar para Maria José, que recolhia os seus documentos com aparente concentração, embora eu pudesse notar que ela ainda tremia levemente. O rosto de Sandra mudou para um vermelho intenso. Olhou de esguelha para Maria José e, sem dizer mais nada, afastou-se em direção à porta batendo os saltos no chão com mais força do que o normal, o que me causou uma dor de cabeça instantânea. Tínhamos ficado apenas Maria José, Anderson e eu na sala. Eles estavam terminando de recolher os seus materiais e desligar o projetor. — Vamos para o meu escritório. Disse, olhando diretamente para ela. Caminhei em direção à porta, mantendo-a aberta para que ela passasse. Ela saiu primeiro, com a cabeça ligeiramente baixa, e eu saí atrás dela. Notei que Anderson também vinha atrás de nós, o que me fez parar bruscamente. — Aconteceu alguma coisa, Anderson? Perguntei, virando-me. Maria José também se virou, olhando para o chefe com os olhos bem abertos, como se pedisse silenciosamente que não a deixasse sozinha comigo. Anderson piscou várias vezes, claramente confuso. — Bom, o senhor disse, senhor, que depois da reunião queria discutir alguns pontos sobre as projeções e... Dedicou-lhe um sorriso torto, interrompendo-o. — Você ouviu eu dizer "Anderson" em algum momento? Ele ficou ainda mais confuso, abrindo e fechando a boca sem emitir som. — Os pontos vou esclarecer com a senhorita Maria José. Precisei com tom firme. — Você volte às suas funções imediatamente. Anderson olhou para Maria José, como esperando alguma confirmação ou indicação dela, e isso incomodou-me profundamente. Quem ele achava que era? Como se ele tivesse poder sobre ela ou pudesse dizer a ela o que fazer. — Entendo. Ele disse finalmente, captando a minha irritação. — Tenha um bom dia. Inclinou a cabeça num gesto de respeito e dirigiu-se aos elevadores, deixando-nos sozinhos no corredor. Dei alguns passos até o meu escritório e abri a porta, sentindo o meu pulso acelerar com a perspectiva de estar a sós com ela. — Entre, María José. Disse, saboreando cada sílaba do seu nome nos meus lábios. Ela entrou, com passos pequenos e cautelosos, como uma cerva entrando no território de um predador. Eu a segui, fechando a porta atrás de mim. Finalmente estávamos sozinhos, e eu tinha tantas perguntas para fazer que não sabia por onde começar. Uma vez dentro do meu escritório, não pude evitar olhá-la de cima a baixo enquanto fechava a porta, aproveitando que ela estava de costas para mim. A sua figura era ainda mais impressionante neste espaço privado, longe dos olhares dos outros. A forma como seu uniforme corporativo se ajustava às suas curvas tornava difícil para mim manter a compostura profissional que sempre fora minha marca registrada. Era impossível para mim não imaginá-la como tanto eu a desejei a cada noite de insônia na minha cama. Ela permaneceu de pé, quase no centro do escritório, claramente desconfortável e sem saber o que fazer. As suas mãos entrelaçavam-se nervosamente diante dela, e o seu olhar percorria o meu escritório, detendo-se nos quadros, nos móveis, em qualquer coisa exceto em mim. — Suponho que você se lembre de mim. Foi a primeira coisa que saiu dos meus lábios, quebrando o silêncio tenso. Ela levantou a cabeça e o seu olhar pousou finalmente no meu rosto. Mordeu o lábio, um gesto que já tinha notado que fazia quando estava nervosa, e assentiu lentamente. — Senhor Marlow, eu, eu não sabia que o senhor era meu chefe, que o senhor... Ela começou, mas calou-se abruptamente, como se não soubesse como continuar. Aproximei-me alguns passos dela, colocando as mãos nos bolsos para resistir ao impulso de tocá-la, e parei a uma distância prudente. — Por que você não ligou? Perguntei diretamente, incapaz de me conter mais. A pergunta que vinha martelando na minha cabeça desde que a reconheci. Ela piscou rapidamente, como se estivesse surpresa com a minha franqueza. — Vai me demitir, não vai? A sua pergunta pegou-me completamente de surpresa, fazendo os meus olhos se arregalarem mais do que o normal. — O quê? Perguntei incrédulo, sem entender o que isso tinha a ver. —Vai me demitir porque não quis me deitar com você. Ela respondeu com a voz trêmula. — Eu imploro, não me demita, eu preciso muito do trabalho, mas eu não vou me deitar com você. Ela realmente achou que eu a fiz vir ao meu escritório para ameaçá-la com demissão se ela não cedesse aos meus desejos? Sem poder evitar, uma gargalhada escapou da minha garganta. Maria José olhou-me confusa, com os olhos arregalados, claramente sem entender a minha reação. Vi que uma lágrima rolava por sua bochecha e algo no meu peito doeu. — Sinto muito, sinto muito. Disse rapidamente, ficando sério. — Você tem medo de mim, Maria José? Perguntei, dando um passo em direção a ela. — Sim. Ela respondeu com os olhos marejados.
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