— Bom dia, senhor Marlow, senhores, senhorita. Ela saudou com aquela voz que eu me lembrava muito bem, que não saía da minha mente nem por um segundo em todos esses dias que eu a vinha sonhando e esperando aquela ligação que nunca aconteceu.
Por um momento, senti que o chão sob os meus pés desaparecia. Meu coração, aquele músculo defeituoso que me dera tantos problemas, pareceu parar por um instante e depois começou a bater com tanta força que temi que todos na sala pudessem ouvi-lo ou que eu tivesse outro infarto.
Ela me olhava com os mesmos olhos castanhos que me haviam enfeitiçado naquela noite, agora arregalados numa expressão de absoluta surpresa. Ela estava pálida, como se tivesse visto um fantasma.
É ela. Pensei. A misteriosa garota do clube trabalha para mim. Sempre esteve aqui, tão perto... Que ironia da vida.
Ouvi vagamente Anderson apresentá-la: a auxiliar de contabilidade. A recomendação de Martina. A responsável pelos relatórios aprimorados.
Fiquei olhando para ela, incapaz de pronunciar uma palavra. Como era possível que o destino nos tivesse reunido dessa forma? Como não tinha conectado esses pontos antes?
E, mais importante ainda, por que ela nunca me ligou?
— Tomem assento. Ordenei, tentando manter a minha compostura séria.
Todos obedeceram imediatamente, como sempre faziam. A sala ficou em completo silêncio, exceto pelo zumbido suave do ar condicionado. Ela continuava de pé, ao lado de Anderson, com aqueles papéis tremendo levemente nas suas mãos.
— Pode começar a apresentação, senhorita Maria José Ramírez. Disse, e a minha própria voz me traiu, soando quase sedutora, como se estivéssemos sozinhos em vez de numa sala cheia de executivos e investidores.
Pelo canto do olho, notei que Thomas me olhava fixamente, com uma expressão de total estranheza. Meu irmão me conhecia muito bem para não perceber a mudança no meu tom e na minha expressão. Mas eu não me importava. Não conseguia tirar os olhos dela.
Uma cócega incomum instalou-se no meu estômago, uma sensação que nunca tinha experimentado. Era ridíc*ulo, eu sabia perfeitamente. Eu, Julian Marlow, o tubarão dos negócios, o CEO implacável, me comportando como um adolescente diante do seu primeiro amor.
Mas não podia evitar. Ela estava ainda mais linda do que eu me lembrava do clube. O uniforme corporativo lhe caía perfeitamente, realçando a sua figura sem ser inapropriado. Os seus olhos castanhos brilhavam com inteligência e nervosismo. A sua pele morena parecia brilhar sob as luzes da sala de reuniões. E aquele cabelo longo, agora parcialmente preso com pequenas presilhas, emoldurava um rosto que poderia pertencer a uma deusa antiga.
À luz do dia, eu podia vê-la com clareza, e o resultado era ainda mais impactante. Sem dúvida, era a mulher mais bonita que eu tinha conhecido na minha vida. Mas o pior não era isso, mas o que ela me provocava só de vê-la, só de ouvir a sua voz. Uma mistura de desejo, admiração por sua beleza e algo mais que nem eu mesmo sabia o que era.
Vi como ela era incapaz de começar a falar. Estava extremamente nervosa. As suas mãos tremiam visivelmente, fazendo com que as folhas que segurava produzissem um leve farfalhar. Normalmente, esse tipo de incompetência me irritaria. Eu teria feito algum comentário mordaz, pressionando até que a pessoa se recuperasse ou se quebrasse completamente.
Não tolerava a insegurança e o nervosismo, para mim isso era coisa de gente fraca e pouco preparada.
Mas com ela era diferente. Não podia, não queria tratá-la assim. Sem me importar que houvesse mais de quinze pessoas na sala, sem me preocupar com o que os outros pudessem pensar desse comportamento incomum, decidi acalmá-la.
Porque sabia perfeitamente por que estava tão nervosa. Ela também se lembrava de mim, e acabava de descobrir que o homem do clube era seu chefe, o CEO da empresa. Era algo que definitivamente deixaria qualquer auxiliar nervosa, especialmente uma recém-contratada.
— Fique calma. Disse-lhe suavemente. — Respire. Beba um pouco de água.
Anderson imediatamente abriu uma garrafa de água para dar a ela. Esse simples gesto provocou em mim uma pontada de ciúme totalmente irracional. Era absurdo, eu sabia perfeitamente, mas não conseguia controlar. A ideia de que Anderson, ou qualquer outro homem, pudesse estar perto dela, ajudando-a, tocando-a, me parecia inexplicavelmente perturbadora.
Maria José mordeu o lábio inferior enquanto pegava a garrafa, e aquele pequeno gesto pareceu-me incrivelmente sedutor e algo, um músculo no meu corpo palpitou, algo que nunca fazia só por ver uma mulher, mas com ela se emocionou. Acariciei o meu queixo, tentando manter o meu rosto imperturbável, mas quando os nossos olhares se cruzaram novamente, não consegui me conter. Sorri para ela. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, mas um sorriso no fim das contas.
Era algo que ele jamais fazia numa reunião, muito menos na frente dos outros. Ninguém tinha o privilégio de me ver sorrir num contexto profissional. Ninguém merecia, segundo a minha filosofia de liderança baseada no respeito através da distância e da seriedade. Mas essa linda latina me provocava um sorriso sem que eu pudesse evitar.
Ela respirou fundo e começou com as projeções. A sua voz, inicialmente trêmula, foi ganhando firmeza à medida que avançava. Tentei me concentrar nos números e nas estatísticas que ele apresentava, mas minha mente traidora não parava de notar a bela curva das suas nádegas quando ele se virava para a tela, a sua cintura incrivelmente pequena e os seus lábios grossos que se moviam com graça enquanto ela explicava conceitos financeiros complexos.
Mas não era apenas sua beleza física que me cativava. Era sua inteligência evidente, a forma como ele lidava com os números com tanta desenvoltura, como se tivesse nascido para isso. Explicava cada conceito com clareza e precisão, respondendo às perguntas com uma segurança que contradizia o seu nervosismo inicial. Não parecia uma simples auxiliar, mas sim uma especialista financeira com anos de experiência.
— Como podem observar nesta projeção. Ela explicava, apontando para um gráfico. — O ajuste nas margens operacionais que implementamos permite maior flexibilidade na reinvestimento de capital para o segundo semestre.
A sua análise era impecável. As soluções que ela propunha, inovadoras e eficazes. Nos meus anos dirigindo a Marlow Industries, raramente encontrei alguém com tal combinação de talento natural e preparação técnica.
Quando Sandra tentou desacreditá-la com uma pergunta maliciosa sobre o mercado latino-americano, observei com crescente admiração como Maria José a colocou no seu lugar com dados precisos e um conhecimento de primeira mão que ninguém na sala podia refutar. A forma como ela lidou com aquela tentativa de sabotagem, com graça e profissionalismo, sem se deixar intimidar, só aumentou a minha fascinação por ela.
Thomas me deu uma cotovelada discreta, tirando-me momentaneamente do meu esturpor.
— Que di*abos está acontecendo com você? Ele sussurrou, m*al movendo os lábios.
— Depois te explico. Respondi da mesma forma, sem desviar os olhos de Maria José.
A reunião continuou, e a cada minuto que passava, eu me convencia mais de que precisava falar com ela em particular. Precisava saber por que ela nunca me ligou. Precisava entender o que era essa atração inexplicável que sentia, mais forte do que qualquer coisa que tivesse experimentado antes.
O que estava claro era que Maria José Ramírez não era apenas um rosto bonito nem uma funcionária a mais. E eu, pela primeira vez na minha vida, encontrava-me completamente desconcertado sobre como proceder com ela. O que eu diria a ela, o que eu queria dela? Ela era casada? Ela tinha namorado? Essa única ideia me causou um grande desconforto no peito.
Ao terminar a projeção apresentada por Maria José, levantei-me com decisão e dirigi-me até ela, ficando a poucos centímetros do seu corpo. Daquela distância, pude aspirar o seu aroma doce, uma mistura de baunilha que me fez soltar um longo suspiro involuntário.
— Você tem um futuro promissor, senhorita Ramírez. Eu disse, observando como os seus longos cílios se moviam rapidamente, revelando o seu nervosismo.
Ela parecia tão vulnerável e ao mesmo tempo tão forte, uma contradição que me parecia irresistível. Não consegui me conter e acrescentei: após a reunião, gostaria de discutir alguns pontos com você em particular.
"Discutir", claro. Mas não seria nada relacionado com as projeções contábeis. Queria saber por que você não me ligou. Queria saber quem ela era de verdade, o que uma mulher como ela fazia trabalhando como auxiliar, como era possível que ela me tivesse impactado dessa forma com apenas um olhar.
Os seus olhos se arregalaram, como se ele tivesse lido as minhas verdadeiras intenções.
— Sente-se, por favor. Disse-lhe suavemente, indicando a cadeira vazia ao lado de Anderson.