Episódio 18

1064 Palavras
Julian Naquela manhã, antes da reunião, Thomas entrou no meu escritório sem avisar, como costumava fazer. Sentou-se em frente à minha secretária, cruzando as pernas longas e observando-me com aquele olhar avaliador tão característico dele. — Pronto para a reunião com os investidores? Perguntou, pegando uma das maçãs verdes que sempre mantenho numa tigela sobre a minha mesa. — Quase. Respondi, revisando uma cópia do balanço do primeiro trimestre que Anderson me enviara no dia anterior. — Tenho que admitir que a eficiência de Anderson e a sua equipe tem me surpreendido ultimamente. Este relatório é notavelmente melhor do que os anteriores. Thomas deu uma mordida na maçã e assentiu. — Ouvi algo sobre isso. Ele comentou casualmente. Parei de olhar os papéis e levantei a vista, interessado. Thomas sempre teve as melhores fontes de informação interna na empresa, principalmente porque, ao contrário de mim, ele se relacionava com os funcionários de forma amigável. — O que você ouviu? Perguntei, parando de olhar os papéis e prestando atenção. — Que a garota nova, a nova auxiliar, é muito inteligente. Respondeu Thomas, mastigando a sua maçã. — Aparentemente, foi ela quem detectou as discrepâncias nos relatórios anteriores. Levantei uma sobrancelha, surpreso. — A que a Martina recomendou? Perguntei, lembrando que a minha irmã me pediu um trabalho para a amiga dela. Thomas assentiu. — Sim, aparentemente. Uma colombiana, acho, dizem. Sorri levemente. Martina era conhecida por seu círculo social exclusivo de garotas glamourosas e superficiais. Não esperava que a recomendação dela fosse alguém competente. — Bom, pelo visto a Martina não trouxe uma burra. Comentei. — Pelo menos a recomendação dela deu frutos. Thomas também sorriu, terminando a sua maçã e jogando o caroço na lixeira com pontaria perfeita. — A que horas era a reunião? Perguntou, olhando para o relógio. — Às dez. Respondi, voltando aos documentos. — Não tenho tempo para tomar café da manhã. Disse Thomas com um suspiro dramático. Ne*guei com a cabeça, sorrindo. Meu irmão e o seu estômago sempre faminto. — Você deveria ter tomado café da manhã antes de vir. Repreendi-o suavemente. — Quando você vai aprender a gerenciar seu tempo? — Provavelmente nunca. Admitiu com um sorriso despreocupado. Mudando de assunto, decidi abordar o tema principal que nos reuniria com os investidores naquela manhã. — Thomas, você tem certeza mesmo de se mudar para a Espanha para administrar a nova sede? Perguntei, observando-o com atenção. — É uma decisão importante. Meu irmão levantou-se e caminhou até a janela, observando a cidade que se estendia sob nós. A sua postura, normalmente relaxada, tendeu ligeiramente. — Sim, Julian, não tenho objeção. Ele respondeu sem se virar. — Você sabe que pode contar comigo, é o nosso patrimônio. Sempre devemos fazer sacrifícios para continuar a erguer o nosso império. — É uma mudança drástica para você, irmão. Continuei, sabendo que também seria difícil para mim colocar essa grande distância entre mim e meu irmão mais novo, meu confidente. — Se quiser, podemos procurar alguém de confiança e... Thomas virou-se para me olhar, e pude ver algo nos seus olhos que reconheci imediatamente: dor. — Preciso disso. Preciso dessa mudança. Ele sugeriu, e havia certa amargura e melancolia na sua voz. Imediatamente compreendi. Thomas ainda sofria por aquela garota de olhos heterocrômicos que lhe partira o coração em mil pedaços quando o deixara há três anos. Eu tinha pensado que tinha superado isso, mas agora via que a ferida ainda estava aberta. — Vou me mudar para a Espanha. Ele assegurou com firmeza. — E ninguém me fará mudar de ideia. Sorri e assenti. Se isso era o que meu irmão precisava para se curar, eu não seria quem ficaria no caminho dele. Olhei para o relógio novamente e vi que eram quase dez da manhã. — É hora de irmos para a sala de reuniões. Disse, ajustando o paletó e a gravata ao me levantar. Thomas assentiu e juntos saímos do escritório. Lian, minha assistente, ao nos ver, também se levantou para nos seguir, sempre pronta para tudo o que eu precisasse. Enquanto caminhávamos pelo corredor em direção à sala de reuniões, Thomas tirou o telefone e mostrou-me algumas imagens. — Olha, estava pensando nesses novos investimentos para o departamento de produção. Comentou. — Para renovar as máquinas na planta principal. Peguei o telefone dele para ver melhor as imagens que ele estava me mostrando. Estava tão concentrado nas especificações técnicas que m*l notei quando chegamos à porta da sala de reuniões. Ao abrir a porta, fez-se um silêncio sepulcral. Entrei ainda olhando para o telefone, vendo as máquinas que Thomas me mostrava. — Bom dia. Cumprimentei formalmente, levantando finalmente o olhar para ver todos os presentes, que estavam em silêncio, cada um no seu lugar habitual, esperando por mim. — Estamos na terceira reunião mensal para apresentar as projeções. Continuei enquanto todos esperavam a ordem para se sentar. — Anderson. Disse, olhando para meu contador-chefe. — Pode começar com a sua apresentação. — Nesta ocasião, gostaria de dar a oportunidade à minha nova auxiliar, que tem sido uma peça fundamental na detecção de grandes discrepâncias e erros nos relatórios anteriores do contador que está saindo. Disse Anderson, e podia-se notar o orgulho no seu tom de voz, o que me pareceu estranho, no entanto, o meu coração começou a bater mais rápido sem entender por quê. — Senhor Marlow, esta é Maria José Ramírez. Como se fosse uma brincadeira do destino, ouvi esse nome saindo da boca de Anderson, mas não foi só o nome, foi o que vi a seguir, como uma miragem, como se os meus pensamentos, meus sonhos, minhas horas de insônia pensando naqueles olhos, naquelas curvas, naqueles lábios, se materializassem bem diante dos meus olhos. Com certeza fui um santo na minha outra vida, por isso Deus me deu esta segunda chance. O silêncio espalhou-se pela sala enquanto nos olhávamos fixamente. O tempo pareceu parar. Ali, junto a Anderson, estava ela. A mulher do clube. A do vestido prateado. Aquela que eu não tinha conseguido tirar da minha mente. A que nunca me ligou. Maria José. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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