Episódio 17

1402 Palavras
— Estamos na terceira reunião mensal para apresentar as projeções. Continuou Julian Marlow, dirigindo-se à mesa enquanto todos ainda permaneciam de pé. Enquanto o ouvia, sentia que as minhas pernas poderiam me falhar a qualquer momento. Um mar de pensamentos me invadiu: Provavelmente nem se lembra de mim. Não acho que ele me reconheça nem saiba quem eu sou. Passaram-se vários dias, e ele certamente conhece muitas mulheres. E então, a realização mais aterrorizante: Rasguei o número dele. Rasguei e joguei fora o número do CEO da empresa onde trabalho. — Anderson. Disse de repente Marlow, interrompendo meu fluxo de pensamentos. — Pode começar com a sua apresentação. Meu chefe assentiu. — Nesta ocasião, gostaria de dar a oportunidade à minha nova auxiliar, que tem sido uma peça fundamental na detecção de grandes discrepâncias e erros nos relatórios anteriores do contador que está saindo. Disse Anderson com orgulho. O meu coração parou. Queria pular pela grande janela, desaparecer, me tornar invisível. Mas já era tarde demais. — Senhor Marlow, esta é Maria José Ramírez. Apresentou-me Anderson. Dei um passo para a outra ponta da mesa, saindo do meu esconderijo parcial atrás do meu chefe. Naquele momento, Julian Marlow levantou o olhar diretamente para mim. O que aconteceu a seguir pareceu se desenrolar em câmera lenta. Julian empalideceu visivelmente. O seu rosto sério mudou instantaneamente, os seus olhos abriram-se ligeiramente e se cravaram nos meus com uma intensidade que quase me fez cambalear. Ele me olhou, piscou várias vezes, como se não pudesse acreditar no que via, e não disse absolutamente nada. O silêncio se espalhou pela sala enquanto nos olhávamos fixamente, reconhecendo-nos mutuamente, presos num momento que parecia suspenso no tempo. — Bom dia, senhor Marlow, senhores, senhorita. Cumprimentei, sentindo a minha pulsação acelerar incontrolavelmente. Tremia enquanto tomava as minhas anotações, baixando o olhar para elas sem conseguir olhar de volta para meu chefe, aquele homem que me fazia sonhar há dias. O mesmo que me enviou aquele bilhete, cujo número eu tinha rasgado em pedaços. O mesmo cujos olhos cinzentos me hipnotizaram no clube e que agora se revelava ser o temido CEO da Marlow Industries. —Tomem assento. Ordenou Julian com voz firme. Todos obedeceram imediatamente, e só ficamos de pé ele e eu. Julian Marlow continuava a olhar para mim como se tivesse descoberto um tesouro enterrado, como se não pudesse acreditar no que via. Os seus olhos nunca se afastaram de mim, ele me observava com uma intensidade que me tirava o fôlego. E então aconteceu algo que eu não pude acreditar. Julian Marlow sorriu. Um sorriso leve, quase imperceptível, de meio lado, mas um sorriso no fim das contas. Lembrei-me das palavras de Rachel: "Nunca o vi sorrir, na verdade, quase ninguém tem esse privilégio." E no entanto, lá estava ele, sorrindo para mim. Finalmente sentou-se na outra ponta da mesa. Estávamos fisicamente longe um do outro, mas para mim parecia que ele estava ali ao meu lado, tão intensa era a sua presença. — Comece a apresentação, senhorita Maria José Ramírez. Disse com um tom que soou quase sedutor, tão diferente da voz fria e autoritária que todos descreviam. A maneira como ele pronunciava o meu nome completo, com aquele sotaque que acariciava cada sílaba, fez um arrepio percorrer as minhas costas. Notei que o homem sentado ao seu lado, o mesmo que havia entrado com ele, o olhou franzindo a testa, claramente surpreso com o seu tom. Tentei começar a apresentação, mas estava tão nervosa que as minhas mãos tremiam ao manusear o tablet. As palavras engasgaram na minha garganta, e por um momento temi que fosse começar a chorar de pura frustração. Quase quinze pares de olhos estavam fixos em mim, esperando, julgando, mas só me importavam alguns: os de Julian Marlow. — Fique calma. Ele disse de repente, sem parar de me olhar, notando o meu nervosismo e como eu tremia. — Só respira. Todos se viraram para olhá-lo com os olhos arregalados, como se ele tivesse dito algo completamente fora de lugar. Este homem gentil e compreensivo não era o mesmo que as garotas do apartamento haviam descrito. O tubarão implacável estava sendo gentil e atencioso comigo. — Beba um pouco de água. Ele continuou com a voz serena. — E apenas respira. Mordi o lábio inferior, um gesto nervoso que não consegui controlar. Anderson rapidamente estendeu-me uma garrafa de água que ele destampou para mim. Dei um pequeno gole e fiz exercícios de respiração: inspirei profundamente, segurei o ar por três segundos e expirei lentamente. O que continuava a me deixar nervosa, no entanto, era o olhar intenso de Julian Marlow. Não havia hostilidade nele, mas sim uma atenção absoluta, como se eu fosse a única pessoa na sala. Parecia querer me devorar com o olhar, memorizar cada detalhe do meu rosto. Pare de tremer. Pare de parecer uma idi*ota. Mostre o quão capaz você é. Repreendi-me mentalmente. E assim o fiz. Algo dentro de mim fez um clique, e de repente encontrei a minha voz profissional. Durante a primeira meia hora, expliquei as projeções e descobertas como uma verdadeira especialista. Nem parecia uma assistente recém-contratada, mas sim uma consultora financeira com anos de experiência. Mas ninguém sabia que as minhas pernas tremiam e as minhas mãos suavam. A segurança com que eu explicava os conceitos complexos e respondia às perguntas dos investidores tinha Julian absorto. Eu podia sentir o seu olhar de aprovação, e cada vez que os nossos olhos se encontravam brevemente, sentia uma corrente elétrica percorrer o meu corpo. — Como podem ver neste slide. Continuei, apontando para um gráfico. — As discrepâncias nos relatórios anteriores geravam uma projeção errada do fluxo de caixa. Com os ajustes que implementamos, podemos ver uma imagem muito mais precisa da posição financeira real da empresa. Um dos investidores assentiu, visivelmente impressionado. — Excelente análise, senhorita Ramírez. Comentou. Eu me sentia no meu elemento até que a mulher do vestido vermelho, aquela que me olhara com desprezo ao entrar, levantou a mão perfeitamente arrumada. — Tenho uma objeção. Ela disse com voz melosa, mas carregada de desprezo. — As suas projeções me parecem otimistas demais. Não acha que está superestimando a capacidade de recuperação do mercado latino-americano após a recente crise? Era uma pergunta feita para me fazer tropeçar, para expor a minha suposta falta de conhecimento. Olhei para ela diretamente, sem me intimidar. — Com todo o respeito, senhorita... Fiz uma pausa, percebendo que não sabia o nome dela. — Blackwell. Sandra Blackwell, gerente administrativa. Ela respondeu com ar de superioridade. — Senhorita Blackwell. Continuei calmamente. — Se observar atentamente a página sete do seu relatório, verá que fomos extremamente conservadores nas nossas estimativas para o mercado latino-americano. De fato, aplicamos um fator de correção de 15% abaixo das projeções da Comissão Econômica Regional. O que pode parecer otimista é, na verdade, o resultado de corrigir subestimativas anteriores. Expliquei o ponto com tanta clareza e precisão que ela não soube como refutar o meu argumento. O seu rosto contraiu-se e pude notar como a irritação crescia nos seus olhos. Ela queria me menosprezar, isso estava claro, mas eu não ia permitir. — Além disso. Acrescentei. — Tendo crescido e estudado na América Latina, tenho um conhecimento de primeira mão sobre as dinâmicas econômicas da região que talvez não se reflita completamente nos relatórios padrão. Vi pelo canto do olho Julian Marlow sorrir novamente, desta vez mais amplamente, claramente impressionado com a minha resposta. Sandra Blackwell, por sua vez, apertou os lábios numa linha fina e não fez mais perguntas durante o restante da apresentação. Quando terminei a minha apresentação, houve um breve silêncio, todos esperando a opinião de Julian, que m*l tinha feito um par de perguntas e depois se limitou a me olhar e a ouvir. — Impressionante trabalho, senhorita Ramírez. Disse com aquela voz que me fazia tremer por razões que já não tinham nada a ver com medo. — Agora vejo por que os seus relatórios melhoraram bastante. Disse, olhando para Anderson. Depois ele se levantou, ajeitou a gravata e caminhou contornando a mesa até ficar a poucos centímetros de mim, ainda me olhando com intensidade. — Você tem um futuro promissor, Maria José. Disse-me, fazendo-me tremer. — Após a reunião, quero que passe no meu escritório para discutirmos alguns pontos. Foi tudo o que ele precisou dizer para que o ar parasse de entrar nos meus pulmões.
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