Episódio 16

1806 Palavras
Maria José Aquela noite não dormi nada. Às três da manhã, eu já estava com os olhos arregalados olhando para o teto, enquanto o meu estômago revirava como se eu tivesse engolido uma dúzia de borboletas. Ele havia revisado o fluxo de caixa mil vezes para dar uma explicação impecável que convencesse não apenas Julian Marlow, mas também os investidores. Dei um longo suspiro e me levantei, sabendo que era inútil continuar tentando dormir. Enquanto preparava um café, decidi tomar um banho com calma. Total, eu tinha muitas horas a meu favor. A água quente caiu sobre o meu corpo, conseguindo relaxar um pouco os meus músculos tensos. Fechei os olhos e tentei imaginar como seria a reunião, como reagiria às perguntas, como me apresentaria. E, claro, como seria finalmente conhecer Julian Marlow. Depois do banho, tomei o meu café preto sem açúcar. — Para levantar o ânimo. Murmurei para mim mesma, saboreando o sabor amargo que me despertava completamente. Depois comecei o ritual de beleza que raramente me permitia em dias normais. Comecei a passar creme na pele e no cabelo, tendo que espremer o pote quase vazio para tirar os últimos restos. — Aguenta um pouco mais que já vou te comprar de novo. Disse ao frasco, como se ele pudesse me ouvir, lembrando com emoção que estava prestes a receber o meu primeiro salário na Marlow Industries. Dediquei quase uma hora ao meu cabelo, alisando-o primeiro e depois criando ondas suaves nas pontas. Parei para verificar se estavam perfeitas, observando como caíam até a minha cintura. Sorri, colocando pequenas presilhas nas laterais para que não caísse sobre o meu rosto durante a apresentação. Para a maquiagem, decidi optar por algo sutil, mas profissional: um batom em tom rosa suave, rímel para alongar os meus cílios, um delineador discreto e um pouco de blush para dar vida às minhas bochechas. Era tudo o que eu precisava. Chegou a hora da batalha diária com o meu uniforme. Sempre lutei um pouco com o vestido por causa dos meus quadris largos, minhas nádegas proeminentes e minha cintura pequena. Era uma combinação que me dificultava encontrar roupas que me servissem bem. — Tudo o que coloco na boca vai para os meus quadris. Disse, olhando-me criticamente no espelho enquanto esticava a saia para baixo, ficando alguns dedos acima dos joelhos. Às seis da manhã, ele já tinha saído de casa. Sem pressa. A minha hora de entrada era às 7h30, mas às 6h45 eu já estava sentada na minha mesa, revisando as minhas anotações pela última vez e praticando mentalmente o que diria. O prédio estava praticamente vazio a essa hora. Apenas o pessoal de segurança e alguns funcionários madrugadores vagavam pelos corredores. Eu gostava daquela tranquilidade, me ajudava a me concentrar. Bill foi o primeiro dos meus colegas a chegar. Quando me viu, parou e me olhou, realmente me olhou, provavelmente surpreso em me ver tão arrumada tão cedo. — Bom dia. Cumprimentou-me, aproximando-se da minha mesa. — Uau, você está muito bem hoje. Correi um pouco, sentindo os seus olhos me percorrerem de cima a baixo. — A reunião é importante. Respondi simplesmente. Bill sorriu e colocou um pequeno bombom na minha mão. — Para acalmar os nervos. Disse ele, referindo-se à reunião. Sorri agradecida. Era um gesto pequeno, mas eu agradecia. Realmente estava nervosa e tinha medo de cometer erros, de ficar em branco, de me envergonhar na frente dos diretores e, acima de tudo, na frente de Julian Marlow. Pouco a pouco, o resto da equipe foi chegando. Todos pareciam conscientes da importância do dia para mim. Rachel me deu um abraço rápido, Lisa me ofereceu um pouco do seu chá de ervas "para os nervos", e Michael me garantiu que eu "me sairia muito bem". Anderson chegou às oito em ponto. Foi direto para o escritório dele e chamou-me imediatamente. Entrei, tentando controlar o tremor das minhas mãos. — Maria José. Ele começou, olhando para mim com atenção. — Vejo que você está nervosa. — Um pouco. Admiti, embora "um pouco" fosse um eufemismo ridículo para o estado de pânico em que eu me encontrava. — Escute. Ele continuou com tom paternal, confio na sua capacidade. — Você é inteligente, fez um trabalho excepcional nesses relatórios e precisa provar isso. Não deixe que os nervos te paralisem. As suas palavras de encorajamento me tranquilizaram um pouco. Anderson era daqueles chefes amáveis, sem nenhuma malícia, que valorizava genuinamente a capacidade dos outros. — Farei isso, senhor. Afirmei com mais confiança do que sentia. — Vamos deixar os diretores de boca aberta. Anderson sorriu, satisfeito com a minha atitude. — A reunião é às dez. Informou-me. — Às nove e quarenta vamos, tudo bem? Concordei e saí do escritório dele, sentindo que as próximas horas seriam as mais longas da minha vida. Sentei-me novamente na minha mesa, tentando concentrar-me em rever as minhas notas pela última vez, mas a minha mente continuava a divagar. Em poucas horas estaria cara a cara com Julian Marlow. O pensamento me provocava uma mistura de terror e uma estranha emoção que eu não queria analisar demais. Por um lado, havia a oportunidade profissional de impressionar o CEO; por outro, não sabia com o que poderia me deparar. O relógio avançava inexoravelmente para a hora marcada, e eu sentia que cada minuto me aproximava mais de um momento que, sem saber então, mudaria o curso da minha vida para sempre. Às 9h40, Anderson saiu do escritório dele e veio até a minha mesa. — É hora, María José. Disse-me com um sorriso tranquilizador. — Devemos nos antecipar para preparar tudo. Todos os meus colegas me desejaram boa sorte. Rachel levantou os polegares, Lisa sorriu para mim, Michael assentiu com confiança, Ivonne sorriu e Bill piscou o olho para mim. — Leve tudo o que for necessário. Lembrou-me Anderson enquanto eu pegava a minha pasta com os documentos e algumas anotações impressas. Apertei-os contra o meu peito como se fossem um escudo e saí do escritório junto com o meu chefe. O trajeto no elevador me fez lembrar como, há alguns dias, eu havia pisado na presidência pela primeira vez. A memória fez os meus nervos aumentarem. O meu coração batia tão forte que eu temia que Anderson pudesse ouvi-lo. Quando chegamos ao último andar, Liam, o assistente de Marlow, nos recebeu com um sorriso profissional. — Podem passar para a sala de reuniões. Indicou-nos. — Tudo está pronto para que vocês preparem a apresentação. Em quinze minutos chegarão todos, como sempre. Anderson assentiu, mas eu m*al consegui esboçar um sorriso trêmulo. As minhas pernas pareciam gelatina enquanto avançávamos pelo corredor em direção à grande sala de reuniões. Ao entrar, fiquei momentaneamente sem fôlego. Toda a ampla sala gritava luxo e poder. Uma enorme mesa de madeira escura dominava o espaço, cercada por cadeiras de couro preto. As paredes estavam decoradas com quadros que pareciam originais, e a janela que ocupava toda uma parede oferecia uma vista panorâmica da cidade. Era a primeira vez que eu estava num lugar assim, tão longe do meu pequeno cubículo no departamento de contabilidade ou do meu cubículo que eu chamava de lar. — Vamos começar a preparar as projeções. Disse Anderson, dirigindo-se à extremidade da mesa onde havia um projetor e uma tela. Começamos a trabalhar, conectando o tablet e garantindo que tudo funcionasse corretamente. Tentei me concentrar na tarefa, mas minhas mãos tremiam tanto que m*al conseguia apertar os botões corretos. Depois de alguns minutos, comecei a ouvir vozes no corredor. Era Liam guiando os investidores. Pouco a pouco, a sala começou a encher. Também entraram os chefes de alguns departamentos importantes, que cumprimentaram Anderson com familiaridade e me olharam com curiosidade. Não passei despercebida por ninguém. Alguns investidores se aproximaram para me cumprimentar com um aperto de mão excessivamente prolongado. Era notória a atenção que me dedicavam, com seus olhares lascivos e saudações excessivamente amáveis. Senti-me desconfortável, mas tentei manter uma atitude profissional. De repente, entrou uma mulher deslumbrante, com um vestido vermelho justo e saltos impossivelmente altos. Eu não sabia quem ela era, mas pela familiaridade com que ela cumprimentava a todos, era evidente que se tratava de alguém importante. Quando me viu, dedicou-me um olhar de escaneamento quase desprezível e virou o rosto sem sequer me cumprimentar. Não me surpreendeu. Conhecia bem esse tipo de pessoa. Tinha encontrado tantas desde que vim morar aqui. Mulheres que viam outras mulheres, especialmente se fossem latinas, como uma ameaça ou intrusa no seu mundo privilegiado, que as latinas não merecíamos, segundo elas. Eram exatamente dez horas quando ouvi vozes no corredor. Uma em particular me paralisou: aquela voz grave, rouca e autoritária que eu tinha ouvido dias atrás, a mesma que eu não conseguia tirar da cabeça desde aquela noite no clube. Mas tudo, absolutamente tudo, deixou de existir para mim quando o vi entrar. O mundo tremeu sob os meus pés ao ver o imponente homem que cruzava o limiar com um terno que gritava poder e opulência. O seu rosto sério, com a testa ligeiramente enrugada, o seu cabelo preto liso perfeitamente penteado, e aquele aroma requintado e inconfundível que chegou até mim mesmo à distância. Era ele. O mesmo homem do clube. O desconhecido que me deu o número dele, que fez o meu coração acelerar como nunca antes. E era inacreditável, o dono de uma das maiores empresas da América do Norte. E comecei a hiperventilar. Ele ainda não havia notado a minha presença porque vinha conversando com outro homem parecido com ele, com a diferença de que este tinha o cabelo castanho e uma expressão mais relaxada no rosto. — Bom dia. Saudou com aquela voz rouca e séria que arrepiava cada pelo da pele de quem o ouvia. — Ele é Julian Marlow. Sussurrou Anderson para mim, sem saber que eu já o conhecia, ou pelo menos, que já nos tínhamos cruzado. Fiquei meio escondida ao lado do meu chefe, incapaz de me mover, respirando superficialmente. A minha mente trabalhava a toda velocidade, tentando processar a informação. O misterioso homem do clube, aquele que me fez sentir borboletas no estômago com apenas um olhar, era nada menos que Julian Marlow. Meu chefe. O tubarão implacável. O CEO da empresa para a qual eu trabalhava. Mas a pergunta que me assaltou a mente de forma automática foi: O que um homem como ele estaria fazendo dando o seu número de telefone para uma mulher tão insignificante quanto eu? Se ele certamente tinha milhares de mulheres a seus pés. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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