Episódio 15

1493 Palavras
Mas a emoção pelo recebimento logo ficou em segundo plano quando Anderson saiu do seu escritório com expressão de urgência. — Equipe, preciso da atenção de vocês. Ele anunciou, reunindo a todos nós. — Na sexta-feira teremos uma reunião com os investidores e Julian Marlow. Precisamos terminar urgentemente o balanço provisório do primeiro trimestre e também modificar o fluxo de caixa que apresentamos há alguns dias. Um murmúrio de preocupação percorreu o escritório. Lisa deixou cair a sua caneta, Michael soltou um suspiro de resignação e Bill ajeitou os óculos, gesto que fazia quando estava nervoso. — Para quando você precisa de tudo isso? Perguntou Rachel, sempre a mais prática. — Para amanhã, logo cedo. Respondeu Anderson. — Sei que é pouco tempo, mas é importante. O senhor Marlow quer revisar tudo pessoalmente antes da reunião de sexta-feira. O meu estômago revirou ao ouvir aquele nome. Julian Marlow. O tubarão implacável. Causava-me tanta intriga por algum motivo. — María José. A voz de Anderson tirou-me dos meus pensamentos. — Preciso que você revise especialmente os ajustes do fluxo de caixa. Você fez um excelente trabalho detectando essas discrepâncias da última vez. — Claro. Assenti. Dividimos o trabalho e mergulhamos em números, cálculos e projeções. As horas passavam sem que quase percebêssemos. Quando levantei os olhos do monitor, já eram sete da noite e a maioria dos escritórios dos outros departamentos estavam escuros. — Acho que deveríamos pedir algo para comer. Sugeriu Bill, passando a mão pelo cabelo. — Isso vai longe. Anderson concordou e pediu comida chinesa para todos. Enquanto esperávamos, fui até a pequena cozinha para fazer um café. Precisava me manter acordada e alerta. — Nervosa para a reunião de sexta-feira? Perguntou Bill, que havia entrado atrás de mim. — Um pouco. Admiti, mexendo o meu café. — Tomara que tudo dê certo. — Não se preocupe. Tranquilizou-me, apoiando-se na bancada ao meu lado. — Tudo vai dar certo. Veremos quem o acompanha desta vez na reunião. Abri os meus olhos sentindo o meu pulso acelerar. Essa ideia de que Anderson quisesse que eu o acompanhasse na reunião me deixava nervosa. — Embora... Continuou Bill, olhando-me de esguelha. — Anderson ficou muito impressionado com o seu trabalho no último relatório. Não me surpreenderia se ele te pedisse para acompanhá-lo desta vez. O meu coração saltou de nervosismo. — Você acha? Perguntei, tentando soar casual. —Definitivamente. Concordou Bill. — Você é brilhante, Maria José. Todos nós notamos isso. Corei diante do elogio e abaixei o olhar para minha xícara de café. — Obrigado, mas só estou fazendo o meu trabalho. Murmurei. — Você faz muito mais do que isso. Ele insistiu, aproximando-se um pouco mais. — E... bem, eu estava me perguntando se depois que tudo isso da reunião passar, talvez, você quisesse... O som da porta principal interrompeu o que Bill estava prestes a dizer. A comida havia chegado, e Rachel nos chamou a todos. Voltamos ao escritório principal e continuamos trabalhando enquanto comíamos. A minha mente estava a mil, não só pelos números que eu revisava, mas também pelo que Bill estivera prestes a dizer (ele ia me convidar para sair?) e pela possibilidade de ver Julian Marlow na sexta-feira. Por volta da meia-noite terminamos. O balanço e o fluxo de caixa estavam prontos para a revisão final de Anderson no início da manhã. — Excelente trabalho, equipe. Parabenizou-nos nosso chefe. — Podem ir para casa. Amanhã nos espera outro dia intenso. Recolhi as minhas coisas, exausta, mas satisfeita. Bill ofereceu-se para dividir um táxi comigo, e eu aceitei agradecida. — Maria José, o que eu queria te dizer há um tempo no escritório era se... hum, você queria sair comigo no sábado. Onde você quiser, no cinema, para jantar, no parque de diversões, só quero uma oportunidade para sair com você. Ele me disse e eu corei, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Gosto de carrinhos de bate-bate. Disse e ele sorriu. Ele era um garoto bonito. E me daria a oportunidade de conhecê-lo. Eu tinha dormido apenas três horas. Depois de chegar em casa depois da meia-noite, revisar obsessivamente as minhas anotações sobre fluxo de caixa e cair exausta perto das três da manhã, o alarme tocou impiedosamente às seis. O meu corpo protestava, mas minha mente estava muito ativa para me permitir mais um minuto de descanso. Às sete e meia já estávamos todos de volta no escritório. Os meus olhos ardiam pela falta de sono, mas a adrenalina e o café me mantinham alerta. Por volta das dez, Anderson subiu à presidência com os documentos finais, e nós esperávamos com aquela mistura de ansiedade e exaustão que se segue a longas jornadas de trabalho intenso. — Mais alguém sente a cabeça zumbindo? Perguntou Lisa, massageando as têmporas. — Sinto que os meus olhos estão cheios de areia. Respondeu Michael, que usava as mesmas roupas de ontem. Bill ofereceu-me uma xícara de café recém-feito. As nossas mãos se tocaram quando a peguei e ele me dedicou um sorriso cansado, mas que me deixou nervosa. — Obrigada. Murmurei, grata pelo gesto. Ao meio-dia, todo o departamento estava em estado de suspensão, como se coletivamente estivéssemos prendendo a respiração. Quando finalmente vimos Anderson descer da presidência com o balanço e o novo fluxo de caixa na mão, todos nos endireitamos nos nossos assentos. Anderson entrou com um largo sorriso que contrastava com os nossos rostos exaustos. — Bom trabalho, equipe. Anunciou. — Marlow ficou satisfeito. Aplaudimos todos, com um profundo alívio. Rachel me deu uma cotovelada leve e piscou o olho, um silencioso "eu te disse" pelas horas que passei revisando obsessivamente cada número. — Agora... Continuou Anderson, e algo no seu tom fez o meu coração começar a bater rápido. — Faremos uma votação. Olhou para todos nós, um por um, detendo-se um pouco mais em mim. — Não quero deixar ninguém de fora. Quero que, aos poucos, todos me acompanhem nas reuniões, que Marlow veja os seus rostos e os reconheça, que todos tenham a oportunidade de serem reconhecidos. Ele explicou. — Então eu não quero escolher sozinho. Faremos isso por votação. Vocês acham bom? Olhamos um para o outro, assentindo com certa confusão. — Bom, preciso que escrevam num papel o nome de quem acham que deveria ir comigo amanhã à reunião. Esclareceu Anderson. — Quem obtiver o maior número de votos, já sabem. E não vale escrever os próprios nomes. Sejam honestos. Rachel distribuiu pequenos pedaços de papel e todos começamos a escrever. Olhei ao redor, me perguntando quem cada um escolheria. Bill certamente votaria em Rachel por sua experiência; Michael provavelmente também. Lisa... não tinha certeza. Eu escrevi o nome de Rachel, convencida de que a sua década de experiência a tornava a candidata ideal porque Bill já havia acompanhado Anderson na reunião anterior. Quando todos depositamos os papéis numa caixa improvisada, Anderson olhou para todos nós com expressão solene. — Bem, vamos ver. Ele disse, retirando o primeiro papel. — Maria José. Senti um arrepio. Alguém tinha votado em mim. — Bill. Ele leu no segundo papel. Não me surpreendeu. Bill era muito competente e inteligente. — Marijo. Ele leu no terceiro, usando o meu apelido. Comecei a hiperventilar levemente. Dois votos para mim? — Rachel. Disse ao ler o quarto papel. Esse era o meu voto. — E... Maria José. Ele anunciou finalmente. Três votos de cinco possíveis. Não podia acreditar. — Por votação quase unânime, Maria José será minha assistente amanhã. Declarou Anderson com um sorriso. Se notava que a ideia o agradava. — Estupendo, Maria. Prepare-se para amanhã, revise tudo o que você analisou com o fluxo de caixa. Você precisa impressionar o tubarão Marlow. É sua chance. Acrescentou Anderson. Não sabia se chorava de felicidade ou me jogava pela janela. Por um lado, era um reconhecimento incrível do meu trabalho, uma oportunidade que raramente era dada a alguém com tão pouco tempo na empresa. Por outro lado, a perspectiva de enfrentar o temido CEO, de cuja frieza e implacabilidade tanto eu tinha ouvido falar, me aterrorizava. Rachel levantou os dois polegares em sinal de aprovação. — Não se deixe impressionar pelo chefe, Marijo. Ela me encorajou. — Mostre a ele do que você é feita. Tentei sorrir, mas senti que ia parar de respirar a qualquer momento. Bill aproximou-se e me deu um tapinha suave no ombro. — Parabéns. Disse-me com sinceridade. — Você merece isso. — Obrigada. Respondi, ainda atordoada. — Não consigo acreditar que me escolheram. — Eu sim. Afirmou Rachel. — Foi você quem detectou as discrepâncias nos relatórios anteriores. Você quem propôs as soluções mais eficientes. Faz sentido que seja você quem as explique. Quando finalmente cheguei em casa naquela noite, desabei na minha cama sem sequer trocar de roupa. Santo Céus, amanhã eu conheceria o CEO, o famoso e misterioso Julian Marlow. O que eu não podia imaginar era que no dia seguinte, a minha vida mudaria para sempre.
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