Com um suspiro de resignação, rasguei o papel em pedaços pequenos, sentindo uma estranha mistura de libertação e tristeza enquanto fazia isso.
— Meus amigos têm razão. Murmurei para mim mesma, deixando os pedaços caírem na lixeira ao lado da minha cama. — Tenho que me concentrar no que é importante.
Mas enquanto eu ia para a cozinha preparar algo para o jantar porque estava morrendo de fome, a minha mente continuava reproduzindo a imagem daqueles lindos olhos cinzas, o som daquela voz tão rouca e sedutora.
— Já chega. Repreendi a mim mesma, balançando a cabeça enquanto abria a geladeira. — Você não pode se apaixonar por um fantasma.
No dia seguinte...
— Maria, leve isso para a presidência, por favor.
A voz de Anderson tirou-me da concentração enquanto eu explicava para Rachel um detalhe sobre os novos formatos de conciliação bancária. Virei-me para ver meu chefe estendendo uma pasta azul com o logotipo da Marlow Industries.
— Para a presidência? Perguntei, sentindo a boca secar instantaneamente. O meu estômago deu um salto e quase posso jurar que a minha pressão arterial subiu vários pontos.
— Sim, por favor. Respondeu Anderson com naturalidade, como se eu tivesse pedido para levar o documento para o escritório ao lado e não para o próprio santuário do temido CEO. — Deixe isso para o assistente de Marlow.
Anderson virou-se e caminhou de volta para seu escritório sem me dar tempo para protestar ou perguntar por que eu, a funcionária mais nova, deveria subir para o andar executivo.
Rachel soltou uma risadinha ao ver a minha expressão de pânico.
— Marijo, é só subir, deixar esses documentos e voltar. Ela me disse, usando o apelido com o qual todos já me chamavam. — Não é que vão te fazer algo lá.
Dei-lhe um sorriso nervoso e assenti, embora por dentro sentisse como se me tivessem enviado para a toca do lobo. Apertei a pasta com os papéis contra o peito e caminhei em direção ao elevador com passos trêmulos.
Durante todo o trajeto no elevador até o último andar, não parei de pensar no que Rachel e as outras garotas me contaram sobre Julian Marlow. "Ele tem um olhar tão frio que arrepia cada pelo da sua pele", Rachel havia dito. "Ninguém nunca o viu sorrir", garantiu Ivone. As minhas mãos suavam tanto que eu temia deixar marcas na pasta azul.
O elevador parou com um suave ding e as portas se abriram. Respirei fundo antes de sair para um saguão elegante, muito diferente do nosso apartamento. Aqui tudo era mármore, madeira escura e vidro. O silêncio era quase reverencial, interrompido apenas pelo suave teclar num computador.
Aproximei-me da mesa onde um jovem alto e elegante, de uns trinta anos, digitava com concentração. Ao me ver, ela levantou o olhar e ofereceu-me um sorriso amigável.
— Boa tarde, em que posso ajudá-la? Perguntou muito gentil.
— Trago estes documentos para o senhor Marlow. Respondi, estendendo a pasta com mãos trêmulas. — Da parte do departamento de contabilidade.
— Perfeito, eu lhes entregarei. Disse, pegando a pasta. — Quer esperar a confirmação de recebimento ou...?
— Não, não é necessário. Apressei-me a responder, querendo sair dali o mais rápido possível. — Anderson, meu chefe, só me pediu para deixá-los.
O assistente assentiu e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando ambos ouvimos vozes vindas de um escritório com a porta semiaberta. Uma delas, profunda e autoritária, ressoou com clareza: Liam, preciso que você coordene com o Thomas para a reunião de amanhã.
O meu coração deu um salto. Aquela voz... aquele tom grave e sedutor... era impossível, mas soava exatamente como...
A porta do escritório começou a abrir-se mais sem deixar ninguém ver, num ato reflexo de puro pânico, murmurei um rápido "obrigado" ao assistente e praticamente corri para o elevador. Pressionei o botão repetidamente, suplicando silenciosamente que as portas se abrissem e eu pudesse entrar antes que alguém saísse daquele escritório.
As portas abriram bem a tempo e eu me joguei contra a parede do elevador, levando uma mão ao peito. O meu coração batia com tanta força que eu podia senti-lo batendo contra o meu peito como se quisesse escapar.
Mas não era só o medo que me tinha feito fugir. Era aquela voz. Era idêntica à do homem do clube, aquele cujos olhos cinzentos e aroma inebriante eu não conseguia tirar da minha mente. A mesma cadência, o mesmo tom profundo que me fizeram tremer os joelhos naquela noite.
— Você está perdendo a cabeça, Maria José. Sussurrei para mim mesma, balançando a cabeça. — Agora você ouve a voz dele em todos os lugares.
O elevador chegou ao meu andar e eu saí, ainda tentando acalmar a minha respiração agitada. Era impossível que o temido Julian Marlow, o tubarão implacável, o CEO da empresa para a qual eu trabalhava, fosse o mesmo homem que me olhara com aqueles olhos intensos no clube, que me escrevera aquele bilhete, cujo número eu havia rasgado em pedaços na noite anterior.
Foi uma coincidência, nada mais. Minha mente, obcecada por aquele encontro, estava me pregando uma peça. Talvez todos os homens americanos de certa idade tivessem a mesma voz grave e autoritária. Talvez estivesse mais cansada do que acreditava e estivesse começando a alucinar.
— Tudo bem? Perguntou Rachel quando voltei para minha mesa. — Parece que você viu um fantasma.
— Sim, tudo bem. Respondi, forçando um sorriso. — Só estava nervosa por subir à presidência, mas nem vi o Sr. Marlow.
Enquanto voltava para o trabalho, tentei me concentrar nos números e relatórios, mas minha mente continuava reproduzindo aquela voz repetidamente, comparando-a com a do homem do clube. E por mais que eu tentasse me convencer do contrário, uma pequena parte de mim se perguntava: e se fossem a mesma pessoa?
A ideia era tão absurda que quase me fez rir.
A semana avançava a toda velocidade, e eu não poderia estar mais feliz porque a data do meu primeiro pagamento na Marlow Industries já estava chegando. Depois de anos de trabalhos m*l remunerados, horas intermináveis como garçonete, babá, caixa e até vendedora comissionada em lojas, finalmente ia receber um salário digno da minha formação profissional.
— No dia 29 de cada mês, religiosamente, antes do meio-dia temos o nosso salário depositado. Explicou Rachel enquanto organizávamos juntas alguns arquivos. — Com todos os benefícios e ainda as horas extras, se você as fez.
— Sério? Perguntei, sem conseguir esconder a minha emoção. — No meu trabalho anterior, eles sempre atrasavam os pagamentos.
— Aqui não. Asegurou Rachel com orgulho. — Digam o que quiserem de Julian Marlow, mas em questões de pagamento ele é extremamente pontual. Nunca, nos dez anos que estou aqui, atrasou um único dia.
Isso me emocionava muito. Seria meu primeiro salário realmente bom em todos esses anos que passei no Canadá. Já estava fazendo planos mentais: enviaria uma parte para minha família na Colômbia, pagaria o adiantamento para um apartamento um pouco melhor que o cubículo onde morava atualmente, e talvez, só talvez, comprasse roupas bonitas, me daria o luxo de alguns caprichos e uma bolsa nova, urgentemente.