Episódio 12

1322 Palavras
Ne*guei com a cabeça, suspirando cansado. Já conhecia bem minha mãe e as suas táticas. Ela usava o mesmo truque desde que éramos crianças. — Mãe, eu não sou mais uma criança que você pode manipular com esses truques. Eu disse a ela. — Tome um pouco de água e pare com o drama, por favor. Naquele momento, a porta se abriu e Thomas e Sam entraram. Meus irmãos, tão diferentes entre si quanto eram de mim. Thomas captou imediatamente a tensão no ar, enquanto Sam correu para nossa mãe ao vê-la "indisposta". — Mamãe, você está bem? Perguntou Sam preocupado, ajoelhando-se ao lado dela. — Seu irmão gritou comigo, você sabe o quão delicada estou desde a morte do seu pai. Ela respondeu com voz fraca. Thomas olhou para mim e revirou os olhos, conhecendo perfeitamente a situação. — Mamãe, papai morreu há doze anos. Disse Thomas com calma. — E o Julian não gritou com você, se tivesse feito isso teríamos ouvido do corredor ou dos andares de baixo. Sam continuava segurando a mão da nossa mãe, mas pude ver a dúvida começando a se desenhar no seu rosto. Aos 28 anos, ele ainda era o mais suscetível às manipulações maternas, embora aos poucos começasse a enxergá-las. — Só vim convidá-los para um jantar na quinta-feira. Disse Teresa, recuperando-se milagrosamente. — Faz tempo que não jantamos juntos e quero os meus filhos comigo. Thomas levantou uma sobrancelha e sorriu de lado. Até ele sabia a falsidade por trás das suas palavras. — Não vou. Respondi categoricamente. — Tenho outros planos. Na verdade, eu não tinha nenhum plano, exceto talvez continuar esperando por uma ligação que provavelmente nunca chegaria. Mas eu preferia passar a noite sozinho no meu apartamento a suportar outra noite com Sandra Blackwell pendurada no meu braço, porque, ah, claro que ela estará lá. Se os meus irmãos queriam aguentar o teatro da minha mãe, é problema deles. Eu não suporto nenhum encontro social. O que menos queria era socializar. Enquanto observava a minha mãe tentar me convencer mais uma vez, a minha mente voltou àqueles olhos castanhos e àquele sotaque latino que cativara os meus pensamentos. Maria José. Por que ela não me ligava? E por que eu, que nunca tinha perseguido ninguém na minha vida, estava tão obcecado por alguém que m*al conhecia? Após um momento de tensão, minha mãe finalmente se retirou do escritório, levando consigo Sam, que era o único dos irmãos que ainda sentia pena dela e não via claramente as suas manipulações, que continuava tendo aquele coração mole que às vezes eu invejava e outras vezes considerava uma fraqueza e não gostava. Thomas acomodou-se na poltrona em frente à minha mesa, estendendo as pernas compridas e colocando a mão direita sob o queixo enquanto me estudava com aquele olhar analítico dele. Thomas sempre fora perspicaz, capaz de ler os meus estados de espírito melhor do que ninguém, mesmo quando eu mesmo tentava escondê-los. O silêncio se estendeu entre nós até que ele finalmente falou. — O que está acontecendo? Ele perguntou diretamente. Levantei as sobrancelhas e as abaixei rapidamente, tentando minimizar a importância do assunto. — É só que eu não suporto quando a mãe é tão intensa assim. Respondi, reorganizando os papéis sobre a minha mesa para evitar o olhar dela. Thomas ne*gou com a cabeça. — Não me refiro a isso e você sabe. Ele insistiu. — Você está pensativo há dias, desde o fim de semana passado, como se estivesse em outro espaço. E não me venha com a desculpa de que é por causa do trabalho ou da pressão da expansão. Eu te conheço muito bem, Julian. Suspirei profundamente. Se havia alguém em quem eu confiava cegamente, era em Thomas. Apesar das nossas diferenças, ele sempre foi meu confidente, o único a quem eu confiava os meus segredos mais profundos. — Conheci alguém. Admiti finalmente, sentindo o quão ridículo soava mesmo enquanto dizia isso. — No clube, na noite em que fomos. Thomas inclinou-se para a frente, subitamente interessado. — A garota do vestido prateado? Eu a vi conversando com você no balcão. — Mais como derramando a bebida em mim. Corrigi com um leve sorriso. — Só conversamos por alguns minutos, mas havia algo nela... não sei. Era diferente de todas as mulheres que cruzaram o meu caminho. Tenho certeza, quase cem por cento de que ela era latina. O seu sotaque não era nativo. Mas, santo Deus, havia algo nela, nos seus olhos, nos seus gestos, nas suas curvas. Esfreguei o rosto frustrado. — Enviei-lhe uma bebida e dei-lhe o meu número esperando que ligasse. Houve um momento de silêncio enquanto Thomas processava o que acabara de ouvir. E então, sem aviso prévio, soltou uma gargalhada estrondosa que ecoou por todo o escritório. — Não posso acreditar! Ele exclamou entre risos. — O grande tubarão Marlow dando o seu número de telefone para uma mulher que provavelmente era estrangeira! Fulminei o meu irmão com o olhar, mas ele continuou implacável. — E o que é pior, provavelmente ela é apenas uma turista latina que veio de férias com os amigos, ou, no pior dos casos, de lua de mel! Muito apaixonada pelo marido, e você aqui esperando que ela te ligasse. Queria manter a minha expressão séria, mas o absurdo da situação finalmente me atingiu. Terminei sorrindo e balançando a cabeça negativamente, jogando-me para trás na cadeira. — Como não pensei nisso? Murmurei, passando a mão pelo cabelo. — M*aldito seja. Thomas tinha razão. Não é que ele não tivesse chamado a atenção dela como homem (porque eu vi naquela noite nos seus olhos, na sua voz e nos seus gestos), mas aquela mulher provavelmente era uma turista e, para que ela ia ligar para um desconhecido se voltaria para o país dela depois daquele fim de semana? Ou, no pior dos casos, como disse Thomas, ela estava felizmente casada. — Que estup*idez. Ela disse em voz alta. — Não se atormente. Respondeu Thomas, mais sério agora. — Foi só uma noite, uma mulher linda, um momento. Não significa nada. — Eu sei, eu sei. Assenti, tentando me convencer. — É só que... nunca ninguém me interessou assim, dessa forma. Thomas olhou-me com surpresa, franzindo os olhos. — Sabe o que você precisa? Ele perguntou, levantando-se. — Sair de novo. Este fim de semana. Parar de pensar naquela garota e conhecer outras. — Não estou com ânimo para outro clube. Respondi, voltando a me concentrar nos papéis da minha mesa. — Não precisa ser um clube. Insistiu Thomas. — Podemos ir a um bar, será tranquilo, elegante, o seu estilo. E quem sabe, talvez você conheça alguém que te ligue. Sorri fracamente diante da sua tentativa de me animar. — Vou pensar nisso. Prometi, embora sem muito entusiasmo. — Duvido que alguém volte a chamar a minha atenção, Thomas. Tenho 35 anos, em todos esses anos da minha vida adulta, nenhuma mulher chamou a minha atenção dessa forma. — Talvez porque ela seja latina, e você se sinta atraído por latinas. — Sabe quantas latinas eu conheci na minha vida, Thomas? Muitas, demasiadas. Nunca me chamaram a atenção, inclusive... Inclinei o meu corpo para a frente. — Peguei umas latinas e não senti nada. Thomas continuava a olhar fixamente para mim, analisando-me. — E o que ela tem que as outras mulheres não têm? Suspirei fundo e me recostei novamente na minha cadeira. — Não tenho a mínima ideia. Mas havia algo nela. Era como se fôssemos tão iguais, que ela não quisesse estar ali, que não fosse o lugar dela, assim como não era o meu. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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