Episódio 7

1567 Palavras
Julian O consultório do doutor Peterson sempre me causava uma sensação de vulnerabilidade que eu detestava. Aqui não importava que eu fosse Julián Marlow, CEO de uma das empresas mais importantes do país. Aqui eu era apenas mais um paciente com um coração defeituoso. — Os seus níveis de pressão arterial ainda são preocupantes, Julian. Disse o Dr. Peterson sem tirar os olhos dos meus exames. E os marcadores de estresse estão nas alturas. — Estou tomando a medicação religiosamente. Respondi, ajeitando a gravata como se isso pudesse me proteger do olhar dele. Não senti nenhum incômodo. Menti, embora com certeza ele já saiba que estou mentindo, porque Thomas já deve ter contado o que aconteceu há dias na reunião. Peterson deixou os papéis sobre a mesa e olhou para mim por cima dos óculos. Eu o conhecia há décadas. Ele tinha sido o médico do meu pai e agora era o meu. Um dos melhores cardiologistas dos Estados Unidos, e também um dos poucos homens que podia falar comigo com total franqueza. — Vou solicitar uma nova série de exames. Disse, escrevendo no receituário. — Quero um monitoramento Holter de 48 horas, exames completos e um novo ecocardiograma. — Doutor, garanto que estou bem. Protestei. — Tenho reuniões importantes toda esta semana, não posso me dar ao luxo de... — Você se lembra do que aconteceu há quatro anos, Julian? Interrompeu-me, tirando os óculos e esfregando a ponte do nariz. — Porque eu me lembro perfeitamente. Lembro-me de dizer à sua família que não tinha certeza se você sobreviveria à noite. A lembrança daquela noite instalou-se no meu peito como uma pedra fria. A dor esmagadora, o suor frio, a sensação de que a vida estava escapando de mim. E então, acordar na UTI com tubos por todo lado e Martina segurando a minha mão, com os olhos vermelhos de tanto chorar. — Foi um episódio isolado. Murmurei. — Foi um infarto maciço aos 31 anos e uma cirurgia de coração aberto, você está vivo por um milagre. Corrigiu com firmeza. — E você está fazendo tudo o possível para ter outro antes dos 40. Levantou-se e caminhou até a janela do seu consultório, que dava para um pequeno jardim interno. — Julian, eu não sou apenas seu médico. Conheci o seu pai, vi você crescer. Preciso que você me escute não como profissional, mas como alguém que se preocupa com você. A sua voz suavizou. — Você deve controlar o seu estresse, seus nervos. Você precisa tirar umas férias, dar um tempo. Caso contrário, o seu coração simplesmente não resistirá. — Impossível. Respondi automaticamente. — A empresa está no meio de uma expansão crucial. Se eu me ausentar agora... — Se você morrer agora, a empresa continuará. Ele me interrompeu. — Mas sua família, as pessoas que te amam, não poderão te substituir. Thomas, Sam, Martina, Teresa... Você pensou neles? Fiquei em silêncio. Claro que eu tinha pensado neles, eles eram minha família. Mas eu também sabia que a Marlow Industries era o legado que meu pai havia me confiado, e eu não podia falhar com ele. — Farei os exames. Concedí finalmente. — Mas não posso prometer nada em relação às férias. Peterson suspirou, reconhecendo que era o máximo que conseguiria de mim por enquanto. — Pelo menos considere reduzir a sua carga de trabalho. Ele disse, entregando-me os pedidos dos exames. — Delegue mais, contrate alguém de confiança se necessário. Assenti mecanicamente, pegando os papéis e guardando-os no bolso interno do meu casaco. Despedimo-nos com um aperto de mão, e pude ver a preocupação sincera nos seus olhos. Era o mesmo tipo de olhar que Thomas me dava quando eu me exigia demais, e por um momento senti uma pontada de culpa. Saí da clínica e parei na calçada. Levantei o olhar para o céu, buscando um momento de paz entre os arranha-céus. Respirei fundo, enchendo os meus pulmões com o ar fresco da manhã. — Férias. Murmurei para mim mesmo, experimentando como essa palavra soava nos meus lábios. — Não quero férias. O que eu queria era me imergir no trabalho, nos números, nas estratégias. Era a única coisa que me dava estabilidade, a única coisa que eu podia controlar completamente. Dia da reunião... Era sexta-feira de manhã e, como de costume, cheguei à sala de reuniões exatamente cinco minutos antes da hora marcada. Thomas vinha comigo, revisando algo no seu tablet enquanto caminhávamos pelo corredor. Podia sentir a tensão crescendo à medida que nos aproximávamos. A minha presença sempre tinha esse efeito em todos. Ao entrar, todos os chefes já estavam lá, alguns conversando em voz baixa, outros revisando papéis. Anderson, o contador-chefe, estava visivelmente nervoso ao lado de um jovem que supus ser um dos seus auxiliares, seu assistente talvez. Assim que cruzei o limiar, fez-se um silêncio sepulcral. As conversas cessaram abruptamente, e todos se endireitaram nos seus assentos. — Bom dia. Cumprimentei com o meu tom sério habitual e rosto sem nenhuma expressão, que todos interpretavam como irritado. Sandra levantou-se com um sorriso excessivo. — Julian, querido! Você recebeu as fotos que te enviei sobre a gala beneficente? A sua voz melosa e a sua tentativa de demonstrar uma intim*idade inexistente me irritaram instantaneamente. Olhei para ela fixamente, sem piscar. — Senhorita Blackwell, agradeceria que nos concentrássemos no propósito desta reunião. Respondi secamente. O seu sorriso desvaneceu e um rubor de vergonha coloriu as suas bochechas enquanto ela se sentava novamente. Pude ver Thomas reprimindo um sorriso. Ele sempre gostava quando colocava Sandra no seu lugar. Ele a detestava, segundo as suas próprias palavras. — Vamos começar. Disse, sentando-me na cabeceira da mesa. — Anderson, entendo que você tem um relatório para nos apresentar. Anderson levantou-se com as suas pastas e, por um segundo, pareceu que as pernas iam falhar-lhe. A sua assistente passou-lhe disfarçadamente uma garrafa de água. Lembrei a mim mesmo as palavras do Dr. Peterson sobre controlar o meu estresse, o que também implicava não causá-lo desnecessariamente nos outros. — Bom dia, senhor Marlow. Começou Anderson. — Concluímos a auditoria interna solicitada e gostaria de apresentar as nossas novas descobertas. Enquanto ele iniciava a sua apresentação, concentrei-me em revisar as estatísticas impressas que nos haviam entregado. Os números eram surpreendentemente bons. Eles haviam conseguido identificar e corrigir discrepâncias que se acumulavam há meses. Normalmente, eu teria interrompido várias vezes para questionar cálculos ou metodologias, mas desta vez decidi ouvir completamente antes de falar. Observei que todos na sala pareciam desconcertados com o meu silêncio. Estavam acostumados às minhas interrupções constantes, aos meus questionamentos implacáveis. Mas hoje eu estava fazendo um esforço consciente para manter a calma. Quando Anderson terminou a sua apresentação, a sala ficou em completo silêncio. Todos os olhos estavam fixos em mim, esperando a minha reação. Baixei lentamente a pasta sobre a mesa e respirei fundo, algo que quase nunca fazia em público. — Está tudo bem. Disse finalmente. — Vejo que vocês se puseram a fazer o trabalho de vocês como deve ser. Surpreende-me que em tão poucos dias tenham conseguido encontrar todas estas discrepâncias. Anderson exalou visivelmente, como se estivesse prendendo a respiração durante toda a apresentação. — Tenho uma boa equipe. Respondeu, olhando para o lado. Olhei para o jovem assistente, que mantinha uma postura profissional, mas não conseguia esconder o orgulho. Assenti levemente. — É tudo por hoje. Declarei, fechando a minha pasta. — A reunião terminou. Tomaremos as medidas correspondentes em cada departamento com base nestas descobertas. — Anderson. Chamei-o quando ele já se dirigia para a porta. — Quem exatamente trabalhou nessas análises? — Bom, senhor, toda a equipe colaborou, mas... Titubeou por um momento. — Temos uma auxiliar que tem sido particularmente eficiente em detectar esses erros. — Interessante. Murmurei. Thomas fez um gesto para mim, levantando as duas sobrancelhas e abaixando-as instantaneamente de novo, talvez ele também estivesse surpreso com o quão calmo eu estava hoje. Estávamos com o meu irmão treinando na academia privada do meu pent-house. Aqui era onde eu passava mais tempo ultimamente, seguindo as rigorosas recomendações do médico: cuidar da minha alimentação e manter exercícios físicos regulares, sem esforço exagerado após a minha cirurgia cardíaca há quatro anos. A academia, meu escritório e minha casa formavam o triângulo amoroso perfeito da minha existência. Era tudo o que eu precisava. Ou pelo menos isso eu tinha convencido a mim mesmo. — Vamos tomar algo hoje no Midnight Blue com o Cristian, você vem? Perguntou o meu irmão enquanto enxugava o suor com uma toalha. Eu descansava num banco, tomando água lentamente, controlando a minha respiração como me ensinaram. — Não sei, é um clube muito lotado e... Comecei a me desculpar. — Sim, sim, o senhor cara de c*u antissocial que não consegue compartilhar espaço com as pessoas porque tem alergia. Brincou Thomas, interrompendo-me. Apenas sorri, ne*gando com a cabeça. Thomas sempre foi assim, extrovertido e social, o oposto de mim. Talvez por isso éramos tão próximos, apesar das nossas diferenças. Ele me empurrava para fora da minha zona de conforto, e eu lhe fornecia a âncora que ele às vezes precisava. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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