Episódio 10

1733 Palavras
— Está brincando? Bill neg*ou com a cabeça. — Seria um crime se você não o usasse. A sua sinceridade me fez sentir um pouco melhor. Pelo menos não parecia que ele estivesse exagerando ou zombando de mim. — Os outros já estão lá dentro? Perguntei, mudando de assunto. — Suponho que sim. Rachel me mandou uma mensagem há meia hora dizendo que eles já chegaram. Explicou. — Vamos entrar. Ela me estendeu a mão e eu a peguei, grata. Aproximamos da entrada onde um guarda de segurança verificava identificações e cobrava a entrada. Bill tirou a carteira e pagou por ambos antes que eu pudesse protestar. Ao cruzar as portas, fomos recebidos por uma onda de música eletrônica e luzes muito brilhantes, eu não estava acostumada com isso. A pista de dança ficava no centro, cercada por mesas e cabines privadas. Um segundo nível com varandas circundava o espaço, e pude ver que havia uma área VIP lá em cima. — Vamos procurar os outros! Gritou Bill no meu ouvido para se fazer ouvir por cima da música. Assenti e continuei segurando a sua mão enquanto abríamos caminho pela multidão. Sentia olhares sobre mim por todos os lados, mas tentei ignorá-los e concentrar-me em não perder o Bill no meio da multidão. O que eu não sabia então era que, entre todos aqueles olhares, havia um par de olhos que mudariam o curso do meu destino naquela noite. Bill e eu nos aproximamos do grupo de colegas que já haviam formado um pequeno círculo num canto da pista de dança. Lisa, Rachel, Ivonne e Michael dançavam com copos de cerveja e vodka nas mãos, movendo-se ao ritmo da música eletrônica que ecoava por todo o lugar. — Ei, finalmente chegaram! Gritaram todas ao nos ver. Senti-me imediatamente envergonhada quando pararam de dançar para me observar. Rachel abriu os olhos tão grandes e levou uma mão à boca. — Meu Deus! Ela exclamou, aproximando-se de mim. — Você é a nova garota tímida e recatada do escritório? Todos me olharam de cima a baixo como se me vissem pela primeira vez. — Mas, mulher, você está como uma presa para devorar inteira. Disse Ivonne, e eu corei ainda mais, desejando que o chão me engolisse. — E eu acho que alguém está com muita vontade disso. Acrescentou Rachel, fazendo gestos para Bill, que sorriu de lado. Lisa, por outro lado, sorriu timidamente e abaixou o olhar. Eu tinha notado há dias que provavelmente ela gostava do Bill. Eu a tinha pego olhando para ele mais do que o necessário no escritório e, durante a hora do almoço, ela sempre tentava sentar perto dele. Senti-me desconfortável, como se estivesse me intrometendo em algo que não me dizia respeito. Mas o que eu podia fazer se, aparentemente, Bill não estava interessado nela? Não foi minha culpa afinal. Mas também não queria uma inimizade com a Lisa por um garoto que eu m*al estava conhecendo. Decidi balançar a cabeça e esquecer isso para tentar aproveitar a noite. Bill desapareceu por um momento e voltou com uma cerveja para mim. Eu nunca tinha bebido álcool, nem mesmo na Colômbia. Minha avó sempre foi rigorosa com isso, e eu mesma nunca tinha sentido curiosidade. Então eu só encostava a garrafa nos meus lábios, bebendo apenas gotinhas da bebida, fingindo que tomava mais do que realmente fazia. Todos começaram a dançar formando um círculo, mas eu fiquei parada, observando-os. Não era que eu não gostasse de dançar, pelo contrário, mas eu me sentia inibida com aquele vestido e, além disso, aquele tipo de música eletrônica não era o meu forte. A minha mente viajou para a Colômbia, lembrando como eu dançava com minhas amigas nas aulas de rumba e salsa. Eu tinha uma grande habilidade para a salsa, na verdade, eu adorava. Mas eu não estava no meu país. Aqui não tocavam essas coisas, aqui tudo era "mais chique", pensei com certa ironia. Tentei me concentrar em aproveitar com os meus novos amigos e com Bill, que de vez em quando ficava muito perto de mim. Ele roçava o meu braço, aparentemente acidentalmente, mas eu também sentia as suas mãos pousando na minha cintura quando ele passava por mim. Sentia nervosismo e ansiedade, pois nunca estive muito perto de um homem desde que me mudei para o Canadá. Não tinha tido nenhum relacionamento amoroso, não tinha tempo para isso e, além disso, era muito desconfiada. E na Colômbia, bem, lá eu só tive um namorado no ensino médio e o máximo que chegamos foi a beijos e abraços. Sempre acreditei que os homens só queriam se aproximar de mim para dormir comigo. Mas ainda aqui, sabendo que eu era estrangeira. Um americano jamais se interessaria ou levaria a sério uma estrangeira mestiça, pensava. Mas com o Bill eu me sentia diferente por algum motivo. Parecia um rapaz confiável. Ainda assim, ia levar o meu tempo para conhecê-lo porque "cautelosa" era meu terceiro nome. De repente, Rachel puxou-me pelo braço e me levou com ela, afastando-me do grupo. — Ei, me acompanha para comprar outra bebida? Ela gritou perto do meu ouvido para ser ouvido. Segui-a sem protestar, grata por me afastar um momento da dança. — Vou um momento ao banheiro, você vem? Perguntou-me quando estávamos no meio do caminho para o balcão. Ne*guei com a cabeça. Não estava com vontade de fazer xixi e a ideia de fazer fila para o banheiro num clube lotado não me atraía nem um pouco. — Então pegue. Ela me entregou uma nota de vinte dólares. — Peça-me um vodka, por favor. A fila para o banheiro deve ser imensa e para pedir no balcão também. Então, enquanto eu vou ao banheiro, você me pede uma bebida, assim economizamos tempo e, se quiser, compra outra cerveja para você. Antes que eu pudesse responder, ela me deu um beijo na bochecha e se afastou, perdendo-se na multidão. Só consegui rir, ne(gando com a cabeça. Rachel era daquelas garotas de boa vibe, daquelas que você desejaria que existissem cem como ela. Nervosa, abri caminho entre as pessoas para me aproximar do balcão. Era verdade que havia bastante gente esperando, mas consegui encontrar um pequeno espaço. Pedi um vodka para minha amiga, nada para mim. Nem sequer tinha bebido 10 ml da minha cerveja, que ainda estava intacta nas mãos do Bill. Enquanto esperava, notava como os homens perto do balcão olhavam-me com desejo. Eu me sentia como um pedaço de carne em exposição e o meu desconforto crescia a cada momento. O barman me atendeu com um sorriso largo demais, piscou o olho para mim e me deu a bebida de graça. Nunca me tinha acontecido algo assim, e não soube como reagir a não ser com um sorriso tímido. Peguei o copo de vodka e abri caminho novamente entre os homens para me afastar do balcão o mais rápido possível. Estava tão concentrada em não derramar a bebida e em escapar dos olhares que não prestei atenção por onde ia. Quando me virei, esbarrei num corpo alto e forte. O impacto fez com que parte da vodka se espalhasse pela camisa imaculada do homem, mas o que realmente chamou a minha atenção foi o aroma requintado que emanava daquele homem. Apesar do cheiro de cigarro e álcool que pairava no ar, ele cheirava como se estivesse usando o perfume mais caro da França, uma fragrância que contrastava totalmente com o lugar. Levantei o olhar, envergonhada pela minha falta de jeito, e encontrei os olhos mais penetrantes e hipnóticos que jamais tinha visto. — Sinto muito, senhor! Não foi minha intenção. Desculpei-me rapidamente, o que menos queria era causar problemas. O homem não disse nada, apenas me olhou por segundos que pareceram eternos. Até que finalmente falou e provocou uma descarga elétrica em todo o meu corpo, fez o meu coração acelerar a ritmos que eu não sabia que podia bater. — Fique calma, foi culpa minha. Ele respondeu, a voz calma, mas tão rouca e grossa que arrepiou cada pelo da minha pele. — Eu me coloquei no seu caminho. Sou eu quem deve se desculpar com você. Ele acrescentou. Era um anjo ou um de*mônio? Santo Deus, que voz, que homem, que olhar. — Deixa-me pagar outra bebida para você. Ele disse, e não sei como foi que, com apenas um sinal, o barman já lhe deu outra vodka tão rápido. — Obrigado... Gaguejei nervosa. Era a primeira vez que um homem como ele me falava de uma forma tão gentil, quase num tom sedutor. Geralmente na rua ou nos trabalhos que tive, os homens só me insinuavam coisas e eram senhores, velhos e bêbados. Não sabia mais o que fazer nem o que dizer, só queria fugir o mais longe que pudesse. Porque o meu instinto me dizia que esse homem irreal só queria se*xo. E eu não era qualquer uma que ia com o primeiro, mesmo que ele fosse lindo, se*nsual, alto, atraente demais. Mas minha tentativa de fuga foi interrompida por umas mãos, umas mãos grandes, mais delicadas até que as minhas. — Desculpe, você poderia pelo menos me dizer o seu nome? Pisquei lentamente, muito lentamente. Ele me perguntou o meu nome? Ai, meu Deus. Fiquei nervosa, mordi involuntariamente o lábio inferior e, como uma tremenda estúp*ida, disse o meu nome para ele. E soltei-me da mão dele para praticamente correr de volta para os meninos. Fugi. Não encontrei outra palavra para descrever o que fiz depois de bater naquele homem. Com apenas algumas palavras trocadas, ele me provocou uma avalanche de emoções, nervos e ansiedade que eu não conseguia controlar. O seu olhar penetrante, a sua voz profunda e aquele aroma inebriante... tudo nele me desestabilizou completamente. Voltei quase correndo para o grupo dos meus colegas, tentando acalmar a minha respiração agitada. — Está tudo bem? Perguntou-me Bill imediatamente, estudando o meu rosto com preocupação. — Sim, sim. Respondi, mas os meus olhos traidores voltavam a olhar na direção onde eu tinha encontrado aquele homem, procurando-o entre a multidão. — Você parece alterada. Insistiu Bill, aproximando-se mais de mim. Não precisei responder porque naquele momento Rachel voltou do banheiro, me salvando do interrogatório. — Ai, Majo, obrigada! Ela exclamou, pegando a bebida da minha mão. Deu um gole e franziu a testa. — Céus, Maria José, isso é Martini, não vodka. Abri os olhos bem grandes, surpresa.
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