Capítulo 3

1750 Palavras
Jason Degritte Jason desceu até o restaurante do hotel com a intenção sincera de aproveitar uma refeição em paz. Quem sabe um prato de massa artesanal, uma taça de vinho algo simples, sem contratos, sem relatórios, sem prazos. O ambiente era acolhedor, com uma iluminação quente que deixava as mesas de madeira polida ainda mais convidativas. Havia poucos clientes naquela hora, e o som ambiente de música italiana suave criava uma atmosfera quase perfeita para relaxar. Quase. Jason pediu um prato de tagliatelle al tartufo e uma taça de vinho tinto. Quando o garçom se afastou, ele apoiou os cotovelos na mesa e passou a mão pelos cabelos, tentando se obrigar a desligar a mente. Olhou pela janela o mar escuro brilhava à distância, hipnotizante. Mas é claro que a paz não duraria. Seu celular vibrou no bolso. Com um resmungo irritado, Jason tirou o aparelho e viu o que já temia: notificações de mensagens do grupo da empresa. "Precisamos revisar as cláusulas finais antes da reunião de amanhã." "Urgente: pequenos ajustes nas porcentagens de participação." "Jason, pode entrar para uma call rápida? Estamos todos online." Ele fechou os olhos por um segundo, tentando não amaldiçoar em voz alta. "Rápida." Era sempre assim que começava. E sempre durava horas. Relutante, respondeu que sim e, com o celular em mãos, conectou-se à chamada ali mesmo, no restaurante. - Jason! - a voz animada do sócio principal ecoou no viva-voz. - Grazie! Não vamos te tomar muito tempo, prometemos! Jason forçou um sorriso diplomático que ninguém veria. - Tudo bem - respondeu, seco. Durante os próximos trinta minutos, enquanto seu prato esfriava na frente dele, teve que ouvir uma sequência de apresentações, justificativas e sugestões sobre ajustes minúsculos que, no fundo, ele já sabia que não mudariam nada relevante no negócio. Anotava mentalmente, respondia com monossílabos, e respirava fundo para conter a irritação crescente. Estava em Veneza. E ali estava ele, debatendo cláusulas contratuais enquanto o aroma delicioso de trufas e vinho o torturava. Finalmente, quando a reunião acabou, ele desligou o celular e o largou na mesa com um baque seco. Passou as mãos pelo rosto e soltou um suspiro pesado. - Relaxar... - murmurou para si mesmo, sarcástico. Grande ideia, Jason. Tá funcionando super bem. Chamou o garçom, pediu para reaquecer o prato, já sem fome, e pediu mais vinho. Talvez, com vinho suficiente, ele conseguisse esquecer que ainda era o mesmo homem de sempre, incapaz de deixar o trabalho para trás. O garçom trouxe o prato novamente aquecido, mas a fome de Jason já tinha evaporado, levada pela maré de estresse que a reunião arrastara com ela. Ainda assim, ele se forçou a comer. Cada garfada parecia mais uma obrigação do que um prazer o sabor, que deveria ser rico e reconfortante, parecia apagado no fundo da boca. Terminou a refeição com um último gole de vinho e, sem muita cerimônia, assinou a conta. Agradeceu com um aceno rápido, pegou o celular e os documentos jogados ao lado do prato, e subiu para a suíte. O elevador parecia lento demais, como se o universo todo conspirasse para irritá-lo ainda mais naquela noite. Quando finalmente entrou no quarto, Jason jogou as chaves e o celular sobre a bancada de mármore e foi direto para o banheiro. O banheiro era luxuoso, mármore branco, metais dourados, uma banheira de hidromassagem imensa. Mas Jason nem olhou duas vezes. Entrou no boxe espaçoso e ligou o chuveiro no máximo. A água quente bateu em seu corpo tenso, escorrendo pelos músculos rígidos. Fechou os olhos, apoiando a testa na parede fria. Respirou fundo. Tentou se obrigar a deixar a mente em branco, mas era impossível. Pensamentos de negócios, prazos, expectativas tudo girava em sua cabeça como um redemoinho impossível de controlar. "Por que você nunca consegue desligar, Jason?" a pergunta ecoava no fundo da mente, junto com outras que ele preferia ignorar. Depois de alguns longos minutos, saiu do banho. Pegou uma toalha, secou o corpo de maneira rápida e prática, como se até isso fosse apenas mais uma tarefa a cumprir. Vestiu apenas uma calça de moletom cinza, de tecido leve, deixando o torso nu. O frescor da suíte, com o ar-condicionado suave, contrastava com o calor que ainda sentia na pele. Deitou-se na cama, pesada e confortável, mas não conseguiu relaxar de imediato. Passou uma mão pelos cabelos ainda úmidos, encarando o teto por alguns instantes, como se desafiasse o sono a vir buscá-lo. "Amanhã é outro dia... outro inferno." pensou, com um meio sorriso cínico. Virou de lado, puxou o lençol para cima do corpo e fechou os olhos. Mesmo estressado, exausto, havia algo em Veneza, o som distante do mar, o sussurro do vento contra a varanda que, pouco a pouco, começou a arrastá-lo para longe da vigília. Se permitir dormir era o primeiro ato de resistência que Jason conseguiria naquela noite... O silêncio da suíte era quase um alívio. Jason fechou os olhos, tentando finalmente desligar a mente, deixar o cansaço vencer. Mas então... BUM-TSS! BUM-TSS! Uma batida eletrônica alta invadiu a paz do quarto, seguida por uma música pop animada e irritantemente repetitiva. A melodia penetrava as paredes como se o som estivesse explodindo dentro da cabeça dele. Jason abriu os olhos imediatamente, arregalados de pura incredulidade. - Tá de brincadeira... - rosnou entre os dentes. Sentou-se na cama de um pulo, o coração acelerando mais de raiva do que de susto. Olhou para o relógio na cabeceira: 2:00h da manhã. Duas da manhã. Ele esfregou o rosto com as duas mãos, respirando fundo. Quem, em plena sanidade mental, colocava uma música tão alta, tão ridiculamente animada, em um hotel de luxo às duas da madrugada? "Algum influencer surtado? Uma festa particular? Ou só um completo i*****l?" Pensou, enquanto a música continuava em loop do outro lado da parede, como uma tortura moderna. Jason tentou ignorar. Tentou. Mas era como se cada batida da música cutucasse sua paciência já estilhaçada pelo estresse. Sem pensar muito, tomado por um impulso puro e furioso, levantou da cama. Marchou até a porta da suíte com passos pesados, sem se preocupar em pegar camisa ou sapatos. Atravessou o corredor o som só ficava mais alto conforme se aproximava da porta vizinha. Sem hesitar, bateu com força na porta, três vezes rápidas e secas, o som ecoando alto no corredor silencioso. - Vamos lá, campeão... - murmurou entre dentes, cruzando os braços, o olhar endurecido, esperando que alguém viesse atender. Ele só queria que aquela merda de música parasse. Ou alguém ia se arrepender de ter achado que festa em hotel às duas da manhã era uma boa ideia... ___________________________________________ Hilary Clay O celular vibrou na mesa de cabeceira, e Hilary, ainda zonza de sono, esticou a mão sem nem abrir direito os olhos. Tinha adormecido por pura exaustão, mas o corpo parecia ainda mais pesado agora. Meio no automático, desbloqueou o aparelho e, pelo maldito costume, abriu o i********:. A luz da tela pareceu quase cegar, mas ela ignorou, rolando o feed devagar. Bastaram poucos segundos para seu estômago se revirar. Notícias. Boatos. Mentiras escancaradas. Ataques disfarçados de opinião. Hilary franziu a testa, o coração já acelerando enquanto lia manchetes sensacionalistas e comentários venenosos. "Devia ter desligado essa porcaria..." pensou, apertando o botão de desligar e jogando o celular para o lado da cama. Fechou os olhos por um momento, respirando fundo, tentando reprimir a ansiedade que começava a subir como uma onda gelada pelo peito. Quando conseguiu se controlar minimamente, olhou para as malas ainda jogadas no canto da suíte. Fez uma careta. - Vamos, Hilary. Vida que segue - resmungou para si mesma, empurrando as malas para cima da cama. Abriu uma delas com força exagerada e começou a puxar roupas de dentro, dobrando e organizando dentro do closet elegante que o hotel oferecia. Conforme mexia nas roupas, algo chamou sua atenção: uma garrafa de vodka cuidadosamente enrolada em uma blusa velha. Hilary sorriu de lado. - Plano de emergência... - murmurou. Bem, se aquilo não era uma emergência, ela não sabia mais o que era. Sem pensar muito, desenroscou a tampa da garrafa e tomou um gole generoso, fazendo uma careta ao sentir o álcool queimando a garganta. O calor da bebida trouxe uma sensação estranha de conforto. Decidida a espantar o peso do peito, ligou a caixa de som portátil que tinha trazido também e colocou uma de suas playlists mais animadas para tocar. O volume subiu rápido, preenchendo a suíte com batidas vibrantes e refrões contagiantes. Hilary, já meio anestesiada pelo cansaço e pelo gole de vodka, dançava entre as malas, organizando roupas, esquecendo por completo do horário... e do fuso. A última coisa que passou pela cabeça dela foi que talvez, só talvez, duas da manhã não fosse o melhor horário para fazer festa na suíte de um hotel cinco estrelas. Mas, no fundo, naquela noite, ela já estava cansada demais para se importar. Hilary já tinha empilhado metade das roupas no closet, outra metade ainda estava espalhada pelo chão, e a vodka... bem, a vodka já tinha descido alguns bons goles. Ela dançava no meio da bagunça, rodopiando com uma blusa pendurada no braço, cantarolando a música que ecoava pelas paredes. A melodia vibrava forte, abafando qualquer som exterior. Foi só depois de alguns minutos talvez cinco, talvez dez, ela já não tinha mais certeza que Hilary ouviu tum, tum, tum. Uma batida firme, irritada, contra a porta da suíte. Ela parou, ainda segurando uma camiseta e piscou algumas vezes, como se o mundo tivesse acabado de girar meio grau fora do eixo. "Foi a música...?" O coração acelerou, mas a mente entorpecida de sono e álcool a impediu de sentir vergonha ou preocupação. Só uma leve curiosidade preguiçosa. Outra batida, mais insistente. Tum, tum, tum. Hilary largou a blusa sobre a cama, ajeitou o baby doll curto que definitivamente não era a melhor escolha para receber alguém à porta e foi cambaleando até lá, com a garrafa de vodka ainda na mão. A música continuava tocando alta no fundo, enquanto ela destrancava a porta com um clique desajeitado. Quando abriu, a luz do corredor iluminou a figura de um homem alto, de expressão completamente furiosa, mais sem camisa com um abdômen que meu deus, uii, uii, gostosão, ela pensou. Hilary piscou para ele, com um meio sorriso confuso mais sem saber quem exatamente era ainda. - Oi? - disse, a voz arrastada pelo sono e álcool, sem ter a menor noção do caos que causava...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR