Capítulo 27
Ela foi trabalhar na hora do almoço, foi para o ponto de ônibus sozinha, ouvindo música nos fones. A Lisa ia só mais tarde. Enquanto ela estava sentada esperando, o Rui estava chegando, viu e parou para falar com ela. Ele falou oi, perguntou para onde ela estava indo, ela respondeu séria:
— Oi, vou trabalhar.
Ele perguntou se ela queria carona, ela respondeu:
— Não, obrigada. Fui na sua casa hoje cedo, quando você saiu, eu estava lá, sabia?!
Ele disse que não sabia, que saiu atrasado. Ela falou sem nem olhar pra ele:
— Entendi. O ônibus tá vindo, é melhor você sair daí.
Ele falou tchau, foi embora e ela foi trabalhar. Chegando em casa, a Daia conversou com ele, fez uma fofoca do bem. Era fácil pra ele evitar a Kaori à distância, porque ao ver ela pessoalmente, ainda mais triste e chateada, fazia ele baixar a guarda. Depois, ele mandou uma mensagem:
"Oi, posso te buscar hoje depois que o restaurante fechar?"
Ela disse que ia pra casa do pai, que não dava pra sair. Ele respondeu:
"Posso te levar pra onde você quiser, podemos sair pra comer alguma coisa."
Ela disse que mais tarde dava uma resposta. O restaurante lotou, fechou tarde, quase meia-noite. O Rui tinha mandado uma mensagem perguntando se ela já tinha decidido, ela só respondeu quando já estava quase saindo:
"Desculpa não responder, tava corrido aqui, é melhor deixar pra outro dia, tá tarde e eu tô cansada, só quero tomar banho e dormir."
Ele disse que só estava acordado ainda esperando uma resposta dela, mas que tudo bem, deu boa noite. Ela respondeu e não conversaram sobre nada.
Durante a semana nenhum dos dois mandou mensagem. O orgulho estava falando mais alto, os horários não estavam permitindo que eles se encontrassem pela rua. Ela não conversava com ninguém além da Daia e das colegas de trabalho. A Bibi mandava mensagens sempre, mas ela ignorava, respondia seca, sempre usando a desculpa de que estava trabalhando muito e ocupada. O Thomás ainda insistia, mas ela, com jeitinho, ignorava as investidas dele. Os dois conversavam às vezes e ela estava quase aceitando ir ver ele.
A semana toda foi corrida. Na sexta-feira a Kaori pediu ajuda para a Daia pra saber o que comprar de presente para o Bernardo, ela comprou no mercado um jogo. A Lisa estava animada, super vaidosa, parecia estar superando o divórcio. O Juliano estava radiante com o bebê. Parecia que todos estavam bem, vivendo suas vidas, e só a Kaori sozinha na pior, trabalhando das 7:00 até 21:00 / 23:00, até mais tarde nos finais de semana. Ela estava se isolando da mesma forma que fez no divórcio dos pais. O Enzo havia se entendido com a mulher e mandado uma mensagem falando. Na outra vez, a única pessoa que se manteve próxima foi ele.
Na sexta-feira já fizeram churrasco na casa da Ivone, tinham visitas lá de outra cidade. Ela comentou no trabalho. Depois de fechar, a Lisa deu uma passada lá e a Kaori foi direto pra casa. No sábado de manhã, a Lisa levantou pra tomar café da manhã com ela, conversaram sobre o aniversário, estavam falando da roupa que iriam usar para levarem direto no restaurante. A Kaori disse que não estava com vontade de ir. A Lisa falou que tinham mudado o local, seria onde foi a festa de aniversário da Daia, todos estavam animados. A Ivone e a Lisa iam sair mais cedo um pouco, era pra Kaori sair também, mas o restaurante lotou e ela optou por ficar. Ela estava triste a semana toda, se sentindo sozinha, de TPM pra piorar tudo.
Quando estava perto da hora de fechar, o Daniel apareceu por lá. Ele comprou um refrigerante e, na hora de passar no caixa, perguntou se podiam conversar depois. Ela respondeu:
— 7,50. Mais alguma coisa?
Ele respondeu, dando o dinheiro pra ela:
— Não. Desculpa vir aqui, você não me responde, eu preciso falar com você. Pensa em tudo o que vivemos, eu preciso de uma chance!
Ela devolveu o troco e falou:
— Aqui é o meu local de trabalho, te dou 10 minutos depois que eu sair. Só isso!
Ele disse que ia ficar esperando. Quando ela estava fechando o caixa, a Lisa ligou no telefone do restaurante pra falar com ela, ver se ia demorar. Ela disse que estava contando os cartões, mas que não estava no clima pra festa, disse que talvez fosse dar uma passadinha só pra entregar o presente. Outras pessoas do restaurante iam pra lá também.
Após terminar de fechar, a Kaori tomou banho e se trocou. Ela disse para o pessoal ir na frente porque ela ia passar em um lugar antes. Ela saiu na rua antes deles, foi até o carro do Daniel. Ela não quis entrar, preferiu conversar do lado de fora. Ele estava chateado, começou a falar que a vida dele não estava nada bem, ele havia perdido o emprego, estava bebendo demais, bateu o carro, brigou com a família. Ela ficou ouvindo, já tinha chamado o Uber. Ele disse que nada era culpa dela, que era culpa dos erros dele, mas que fez tudo aquilo por ela, que se ela não quisesse mais ficar com ele teria sido tudo em vão. Ele estava sem a família, ia ficar longe do filho. Ela ficou chateada, mas disse que não podia fazer nada. Ele respondeu alterado:
— Não pode ou não quer? Quantas vezes te perguntei se era sério? Se você queria mesmo? Agora tô aqui livre e você vem me falar que não pode fazer nada? Me olhando com esse desprezo!
Ela respondeu no mesmo tom:
— Você terminou comigo, você não foi homem pra me assumir. Agora que ela te deixou, você tá atrás porque tá sozinho. Eu não sou idiot4, Daniel!
Ele a segurou pelos braços, falando que amava ela, que a vida dele não estava nem mais fazendo sentido. Ele implorou pra ela ir passar a noite com ele, fazer amor para relembrar como se amavam. Ela, assustada, falou:
— Você tá me machucando, meu braço… aiii, Daniel, me solta, por favor.
Ele soltou, perguntou se podia pelo menos levar ela embora, conversar um pouco. Ela respondeu chorando:
— Não. Olha pra você, como vou me aproximar de alguém assim? Eu sinto muito, tá? Me desculpa. Eu não posso! Não quero que você me procure mais. Acabou, e foi você mesmo que terminou.