O rostinho angelical de Anika permanecia encostado ao peito de Anancy enquanto dormia calmamente, seu irmão já havia se despedido da família com intenção de levarem a pequena a descansar em casa, mas agora o desafio final era arrancar a bebê do colo da tia.
— Nancy eu prometo que levo ela pra passar o dia com você, mas agora deixa eu levá-la — Akil tentou mais uma vez convencer Anancy a entregar a menina.
— Ela está tão confortável aqui — Anancy fez um biquinho olhando para a sobrinha adormecida. — Oh maninho, como você tem coragem de tirar ela de mim?
— Ainda estão brigando por ela? — Patrícia voltou a sala junto de sua sogra.
— Ele é quem está querendo roubar minha princesa — Anancy reclama.
De braços cruzados sua mãe rebate.
— Se você fizesse o seu filho, não estaria brigando pela filha dele — alfinetou.
O rosto de Anancy se contorceu em uma careta de indignação.
— Uma coisa não têm nada haver com a outra senhora mãe — ela reclamou baixo pra não acordar a mais nova.
— Quando você vai me dar um neto hein? Isso vale pra você também Asani — aponta para o homem do outro lado da sala.
— Hiiii, pode já ir tirando o cavalinho da chuva mãe, ainda pode se constipar — ele respondeu ainda focado no celular.
"m*l sabia ela que em breve seria avó de novo e ele seria papai". Esse pensamento fez Anancy rir.
— Que eu me lembre vocês viviam cantando pra eu não engravidar — Anancy falou pra disfarçar o motivo de sua risada.
— Você tinha 16 anos na época, agora tem 28, já está mais que na hora — sua mãe retrucou.
— A senhora já têm uma netinha tão linda, não está satisfeita? — Asani indagou.
— A mamãe têm razão, ela precisa de mais netinhos para mimar, e eu já dei uma — Akil se juntou a mãe e cruzou os braços com um sorriso de satisfação ao vê-la concordar com ele.
— Eu tenho fé que a Any vai arranjar um namorado um dia, já o Sani é suspeito — Patrícia falou se aproximando e pegando sua filha.
— Ei, me senti ofendido cunhada — Asani finge uma cara de indignação — não estou solteiro por opção, ninguém me quer, se tiver uma amiga pode apresentar pra mim — propôs.
— Nossa, você adora as amigas né? — Anancy rebateu com provocação.
— Não está mais aqui quem falou — o gémeo levantou os braços em rendição.
— Que papo é esse das amigas? — Asha perguntou curiosa.
— Mãe, já que nenhum dos seus filhos mais velhos além da Asha quer namorar, eu posso namorar? — Ayana perguntou curiosa e todos os olhares se voltaram para ela.
— Não — Asani, Akil e o pai, falaram ao mesmo tempo.
— Não quero ouvir você namorando mocinha — o pai acrescentou pela primeira vez se metendo no assunto sobre namoro.
— Mas pai... — ela fez um biquinho indignada.
— Mas nada, e que papo é esse de além da Asha? — o velho acrescentou olhando para Asha dessa vez.
— Foi só uma expressão pai, não é? — Asha olhou para a mais nova que rapidamente assentiu.
— Verdade, é só uma gíria da juventude — a última falou usando a desculpa que sempre davam quando o pai não entendia algo.
— Eu não estou preparado para uma conversa dessas, melhor eu a gente ir amor — Akil pegou os pertences da esposa e da filha.
— Também acho melhor eu aproveitar que o foco já não sou eu, e vazar — Anancy se levantou.
— Eu te levo — Asani se prontificou.
— Mas tão já? — a mãe como todas as outras vezes, olhou para os filhos como quem não os queria deixar sair de debaixo de suas asas.
— A gente se vê pela semana — Anancy falou a abraçando em forma de despedida. — Tchau pai, te amo — ela beijou o mais velho na bochecha e ela retribuiu com um beijo na testa dela.
— Também te amo estrelinha — ele sorriu para a filha.
Os restantes foram se despedindo e cerca de 10 minutos depois, estavam todos saindo da casa dos Williams.
No carro, Asani dirigia pela estrada iluminada enquanto batucava levemente os dedos no volante ao ritmo da música, Anancy conseguia notar os ombros tensos de seu irmão, mas preferiu não se pronunciar, sabia que ele iria falar m*l se sentisse pronto. E não demorou a acontecer.
— Você está brava comigo? — ele finalmente questionou olhando por breves segundos para a irmã.
— Porquê? — Ela indagou esperando que ele fosse mais específico.
Um suspiro leve escapou por ele antes de falar: — por causa do assunto com a Joy, eu sei que não devia ter feito isso e você tem todo o direito de ficar brava comigo.
— Eu não estou brava Asani, e eu nem tenho esse direito, ninguém têm. Vocês dois são adultos e sabem o que fazem da vida de vocês — ela respondeu com um breve sorriso. — Mas... Bem que você podia não ter ficado com uma das minhas melhores amigas, o drama que isso é — foi vez dela suspirar.
— Eu vacilei nessa — ele sorriu fraco — eu cantava todo o dia o nosso acordo só pra me lembrar de não chegar perto da sua amiga, mas poxa, toda vez que ela chegava perto e a gente se beijava, era como se minha sanidade fosse puxada para outro universo — o rosto dele já deixava claro que o mesmo viajava em lembranças.
— Eca, informações demais Asani — reclamou interrompendo o irmão.
— Vá lá, você nunca esteve com alguém que mexia com sua cabeça e te dava a sensação de que você estava livre pra fazer tudo que queria? — indagou olhando para Anancy, mas então se lembrou da irmã que tinha e voltou a atenção para a estrada. — Eu me esqueci que você têm aversão a homens e sentimentos — apertou levemente o volante.
Na mente da mulher um rosto passou, mas ela preferiu desconversar.
— Tá, mas se você gosta dela por que não estão juntos?
— Porque ela disse que não sente nada por mim — ele deu de ombros.
— Sério? Vocês ficaram meses...
— Anos — ele a interrompeu para a corrigir e ela lançou um olhar de indignação por essa informação adicional.
— Okay, anos... — voltou a se focar no ponto que queria chegar — vocês ficaram esses anos todos e acha que ela não sente nada por você? Não é possível, eu conheço ela.
— Eu sei que ela sente — ele afirmou.
— Então?
— Any — a voz dele ficou mais séria do que no começo — o que eu posso fazer se ela preferiu fugir dos sentimentos do que enfrenta-los? Foram 3 anos, três anos tentando conquistar, mostrar e provar que nós podíamos dar certo, tentando deixar claro que se ela dissesse que sim, eu podia enfrentar tudo e todos pra que tudo desse certo entre nós, inclusive os pais dela, eu me deixei levar Anancy, todos os dias, todo o tempo, eu sempre procurei mostrar para aquela mulher o quanto eu sou louco por ela, mas pra quê? É aquela expressão, o que um não quer, dois não fazem, ela não quis e eu não posso obrigar — ele falou tudo tão rápido, que Anancy m*l conseguiu acompanhar suas palavras.
— Eu sinto muito — ela sussurrou.
— Não sinta, eu acho que entendo, é mais fácil fugir do que começar algo que a gente não será capaz de ter sob controle — ele deu de ombros casualmente, mas aquelas palavras ficaram na cabeça de sua irmã.
Será que ela também era assim? Preferia se conter ou privar de novas sensações do que enfrentar algo que não pudesse controlar? Não, não era verdade, havia corrido tantos riscos, contra várias probabilidades conseguiu ter o sucesso que tanto almejou, traçou planos que não poderia controlar a 100% e não se privou de tentar novamente todas as vezes que falhou, logo, não era o mesmo, ela não tinha mania de controlar tudo.
Ela tentou se convencer disso pelo resto da viagem mas por mais que cantasse para si mesma, algo a fazia duvidar dessa verdade, por isso decidiu ignorar isso até o momento que chegou a casa e foi tomar um banho para e se deitou.
°°°
"Depois de vários meses, aqueles olhos azuis haviam voltado, o sorriso simpático, aquele jeitinho carismático, tudo uma fachada bem elaborada para esconder suas reais intenções. Ela queria tanto que ele fosse real, que as palavras dóceis que saiam de sua boca fossem genuínas, que seu amor fosse retribuído na mesma intensidade.
— Hey, Anancy — seu nome foi chamado e ela se virou, o céu escureceu e como uma projeção, olhou seu corpo juvenil se mover em direção ao garoto que fazia seu coração palpitar naquela época.
Um encontro a beira do rio, com seu crush, no meio do acampamento que seu colégio chique organizava todos os anos, era um sonho para uma adolescente de 15 anos vinda de uma família pobre que nunca conseguiria pagar por algo assim, e apesar do tanto que as outras garotas riquinhas zombassem dela, ela não se importava pois tinha amigas leais, uma família legal e agora... Um crush que olhava para ela.
— Pra onde você está me levando? — ela perguntou curiosa e animada ao mesmo tempo.
— Você vai ver, é uma surpresa — ele declarou entrelaçando os dedos com os dela, deixando as borboletas na barriga de Anancy agitadas.
E o que parecia um conto de fadas rapidamente se tornou em um conto de terror, como uma paixonite poderia ser tão destrutiva? As mãos que fingiram acariciar seu rosto outrora, foram as mesmas que a conduziram para uma armadilha, Rider e o grupinho dos populares, amarraram Anancy e em meio a seus protestos e até esperneios, a levaram para o rio e a colocaram em um saco, as meninas riam e filmavam como se estivessem "colocando ela em seu devido lugar".
Só queriam assusta-la, diziam eles, mas as meninas foram mais longe e bateram nela com força, mergulharam sua cabeça na água e a amarraram em uma árvore.
— Isso é para você aprender a se recolher a sua insignificância — Taila falou segurando com força o rosto dela — achou mesmo que alguém poderia amar uma zé ninguém como você? Se enxerga garota — a largou bruscamente.
— Você vai me pagar Taila — Anancy falou engolindo o choro.
— Aí vou? — Taila e suas amigas riram — e quem me fará pagar? Você? Entenda uma coisa garota, os ricos podem tudo, quem tem poder comanda a cidade e gente pobre como você, só pode aceitar e obedecer — deu dois tapinhas no rosto dela.
— Deixa ela pendurada aqui pra aprender — Diana propôs com maldade.
— Boa noite pobretona — e o grupinho todo seguiu em direção ao acampamento."
— Me tirem daqui, me tirem daqui — Anancy acordou suada e assustada.
Olhou ao redor e percebeu estar em seu quarto, o relógio marcava 05:24 AM. Se levantou e seguiu para o banheiro parando na frente do espelho, levou um pouco de água ao rosto e então olhou para seu reflexo.
Olhos cansados, olheiras, cabelos desgrenhados, rosto amassado, passou mais água pelo rosto.
— Eu odeio essa merda de lembrança — passou as mãos pelos olhos e se sentiu sufocada.
Naquele momento ela deixou de ver a mulher decidida que ergueu uma empresa do zero e almejava um império indestrutível, na sua frente estava novamente a garota assustada que jurou nunca mais se apaixonar, que prometeu que nunca permitiria que aquela humilhação acontecesse com outro m****o de sua família, ou que sequer deixaria outra pessoa chegar tão perto de seu coração ao ponto de confundir a sua mente e sua capacidade de raciocínio lógico.
— Nunca mais Anancy, nunca mais, por favor — implorou para si mesma enquanto voltava para o quarto.