Depois do episódio do pesadelo, Anancy passou a segunda feira atolada de trabalho, toda vez que parecia ficar livre, ela procurava tratar de outra coisa qualquer, tudo apenas para não ter que lidar com seus pensamentos.
Seu relógio marcava 14:05 quando batidas soaram na porta e após seu consentimento, Célia adentrou sua sala.
— Senhorita Williams, recebemos uma ligação da Krepost, eles pedem uma reunião com a senhoria para amanhã. — Declarou após fechar a porta.
— A Krepost? — ela se recostou a cadeira e deu de ombros — okay, marque para amanhã as 10h.
— Está certo — Célia escreveu algo em seu bloco de notas. — A organização da convenção de tecnologia enviou os dados sobre a acomodação, o transporte e todo o programa da estadia em Zurique, sua palestra irá ocorrer no segundo dia e eu enviei todas as informações para o seu e-mail.
— Obrigada — Anancy sorriu — para quando o vôo está marcado?
— Quarta-feira, 19horas en... — foi interrompida por batidas na porta. — Posso abrir? — indagou.
Em resposta Anancy assentiu, e Célia foi em direção a porta. Não demorou um minuto sequer e ela já estava voltando com um buquê de flores em mãos.
— Chegou esse buquê para si.
— Para mim? — Anancy estranhou, seu pai nunca mandava as flores para o escritório mas sim para casa dela, ele fazia questão de enviar 1 buquê todos os meses para sua mãe e suas irmãs também, ela até tinha uma estufa pra acomodar todas aquelas rosas.
— Tem um bilhete — Célia entregou as flores para Anancy.
Anancy pegou-o sem entender, desfazendo o laço e revelando camélias renda n***a, perfeitamente dispostas como num arranjo de rosas, o contraste profundo das pétalas aveludadas contra o papel claro quase a cegou por um instante. "Suas flores favoritas", aquelas que ela admirava de longe, mas nunca imaginara receber, o perfume suave, quase hipnótico, preencheu o escritório, e Anancy sentiu uma estranha mistura de surpresa e fascínio.
Ela girou o buquê nas mãos, estudando cada detalhe, cada sombra de vermelho escuro que parecia absorver a luz da sala.
"Nunca alguém lhe dera algo assim. Nunca."
Um arrepio percorreu-lhe a espinha; a simples presença daquelas flores despertava uma curiosidade silenciosa e uma emoção que ela ainda não conseguia nomear.
No meio das hastes, preso por um pequeno cordão de seda, estava um bilhete delicado, ela desdobrou o papel com cuidado e leu:
"Passei o fim de semana inteiro tentando decidir se você merecia rosas comuns ou algo à altura de sua teimosia e bom gosto, aí me lembrei que as camélias são suas favoritas e elas venceram.
Ps: a beleza delas não se compara com a sua."
E no final duas iniciais que não deixavam dúvidas: M.R.
Anancy deixou escapar um riso baixo, quase involuntário, a mistura perfeita de surpresa e atenção silenciosa era tão característica dele que ela sentiu o estômago apertar. Mais uma vez, Mikhail Reznikov conseguira surpreendê-la, pensando nela mesmo estando longe, e deixando um rastro de fascínio silencioso que ela ainda tentava compreender.
— Eu vou buscar um vaso — Célia falou se retirando da sala e Anancy apenas assentiu.
Quando a assistente saiu, pegou seu celular e tirou uma selfie com as flores, digitou uma mensagem e depois apagou, tentou outras e nenhuma delas a agradou, porque será que era tão difícil para ela escrever uma simples mensagem de agradecimento?
Então decidiu enviar a foto e um simples: obrigada pelas flores, eu amei.
Não demorou e a resposta veio, uma chamada de vídeo em seu computador e sem muito pensar ela aceitou.
" — Seu sorriso definitivamente ofusca as flores — ele falou do outro lado, seu sorriso de canto se tornando a atração principal da chamada.
— Como você sabe que eu gosto especificamente de camélias renda n***a? — ela perguntou curiosa com aquele gesto.
— Você disse, e eu gravei na memória — ele ajeitou a gravata, um gesto sexy mesmo não sendo intencional.
— Aí disse? — ela nem se lembrava.
— Acho que foi quando o Prescott estava tentando te conquistar, ele perguntou o tipo de flores que você gostava e eu guardei o detalhe — deu de ombros.
— Isso foi a quase 1 ano, e o Prescott não estava tentando me conquistar.
— Assim como eu não estou tentando te conquistar? — ele apoiou os braços na mesa e seu rosto ficou mais próximo da câmera, enquanto arqueava a sobrancelha.
Em resposta ela soltou uma risada incrédula.
— Mas você sabe Williams, o fracasso de uns, tem que ser o aprendizado dos outros — Sorriu com certa satisfação.
— Você é impossível Reznikov. — Anancy desviou o olhar um pouco sem jeito.
— Eu? Mas não sou eu quem fica exibindo esse sorriso hipnotizante pela cidade, envenenando um pobre empresário com seu jeitinho durona e fudendo com a mentalidade dele a cada 5 segundos — se defendeu.
— Pelo menos eu estou fazendo isso com sua mentalidade, já você faz pior e deixa marcas em lugares impróprios — ela aponta pra seu próprio pescoço, indicando as marcas que ele deixou em seu corpo da última vez.
Essa ação fez Mikhail rir, não aquele riso fraco ou controlado, ele soltou uma risada divertida, genuína, tão boa de se ouvir que ela desejou que não fosse através da tela do computador. Foi a primeira vez que ela viu aquela risada, aquela fachada do russo e não teve como evitar acompanhar aquela risada gostosa, tal como seu dono.
— Tá me mostrando que eu sou amador no jogo de sedução Williams — ele se afastou da tela, encostando suas costas na cadeira.
— Eu não estou tentando te seduzir — se defende.
— Pior ainda, faz isso sem esforço algum? Você precisa me ensinar esse truque Anancy.
Quando o nome dela saiu da boca dele foi como um gatilho pra sua memória, a luz fraca, os suspiros, sua mão em seu pescoço, sua voz em seu ouvido... Droga, ele fez de novo.
— Melhor eu voltar ao trabalho, antes que você tire o resquício de sanidade que eu tenho — Anancy sorriu meio envergonhada, como se ele pudesse ver a memória que passou por ela.
— Eu também acho melhor — ele concordou — mas caso queira renovar elas, não hesite em chamar — ele se referiu as marcas em seu pescoço e só faltou Anancy se esconder debaixo da mesa de trabalho.
— Adeus Mikhail — ela fechou o computador pra evitar ver aquele maldito sorriso no rosto do russo.
Se recostou na cadeira e digitou uma mensagem para ele, fechou o celular e deu um giro no lugar, desacreditando de sua total falta de vergonha e noção.
Enquanto do outro lado, Mikhail sorriu ainda mais ao ler a mensagem recém recebida.
"Não se preocupe, seu número já está na discagem rápido, caso necessário (◠‿◕)".