9

2180 Palavras
A expressão fria no rosto de Mikhail não era apenas de indiferença — havia algo nos olhos dele, um brilho gélido, como se analisasse Arthuro do topo de uma montanha, observando um inseto tentando escalar. Essa simples troca de olhares foi suficiente para deixar os homens presentes na sala de reuniões tensos; ninguém ousava sequer respirar alto, não depois da clara demonstração de falta de respeito de Cameron Arthuro, um empresário do ramo das exportações. – Senhor Reznikov, com certeza o Senhor Arthuro não quis ofendê-lo – Philip Chatenon tentou amenizar a situação. – Realmente não foi minha intenção ofendê-lo com minhas palavras, eu só quis deixar claro que apesar da magnitude da Krepost global, a empresa não tem poder para ditar as regras e talvez nesse nível de negociação, esteja saindo de sua zona de conforto – Arthuro acrescentou, deixando os outros homens ainda mais indignados com tamanha petulância. Como aquelas vítimas que simplesmente estão no lugar errado, na hora errada, Arthuro havia escolhido o pior dia — e o pior homem — para medir forças. Mikhail já não estava de bom humor, e mesmo que estivesse… o desfecho não seria muito diferente. – Senhor Arthuro – a voz de Mikhail soou gélida, como se fosse capaz de congelar todos os presentes – vou lhe dar uma dica, não se vence sentado na sua zona de conforto, poder exige esforço, controle e conhecimento, lhe faltam as duas últimas opções, mas continue trabalhando que um dia chegará lá – se virou para os outros homens – por hoje basta, continuamos amanhã – ele se levantou e saiu da sala. Assim que a porta se fechou atrás de Mikhail, o ar pareceu descongelar. As vozes se ergueram de imediato, todas direcionadas a Arthuro, repreendendo-o pela imprudência, mas ninguém ousou pronunciar o nome do homem que acabara de sair, como se o simples ato de dizê-lo fosse invocar uma maldição. No corredor, Derick Osmond seguia em direção a uma das muitas salas de conferência que o prédio albergava, e coincidentemente, Mikhail agora caminhava em direção ao elevador, seus dois homens de segurança fazendo sua guarda enquanto os outros 9 esperavam no andar de baixo. Quando os olhos de Derick pousaram no russo, a lembrança da tarde em que ele viu de relance as mãos dele repousarem na cintura de Anancy veio a sua mente, e uma expressão de desgosto ocupou seu rosto, sem disfarçar que aquele homem o incomodava. Mikhail por outro lado quando o notou já era tarde, não tinha como ignorar o cumprimento do homem que acompanhava Derick e que ele respeitava apesar de tudo. – Como está, senhor Reznikov? – Camil perguntou cordialmente. – Senhor O'Conner, é um prazer enorme vê-lo – um sorriso cordial também surgiu no rosto de Mikhail, que apesar de ainda irritado, era bom em camuflar seus sentimentos. – Devo dizer o mesmo – o homem assentiu – esse é o meu primo, Derick Osmond – apresentou, apontando para Derick – e Derick esse é o... – não pôde nem terminar pois foi interrompido pelo primo. – Michael Reznikov, não é? – a falha proposital no nome dele, foi uma forma de provocação velada, tentando fazer parecer acidental enquanto sua intenção era de incomodá-lo, tanto quanto aquela imagem do escritório de Anancy o havia incomodado. – Michael é americano demais para o meu gosto, é Mikhail – corrigiu, com o sotaque russo carregado no nome verdadeiro. – Mas entendo, pronúncia pode ser um desafio para alguns. Os dois riram, socialmente, falsamente. O corredor parecia pequeno demais para o ego de ambos. – Oh, agora faz mais sentido, mas sabe como é, esses nomes do leste europeu me confundem. Mikhail apenas ergueu uma sobrancelha, o leve sorriso no canto dos lábios. – Nomes do leste europeu… cultura, geopolítica… entendo, há quem se confunda facilmente quando o mundo vai além do próprio quintal. Os sorrisos de ambos, não ocultavam o brilho mortífero em seus olhares, Camil inclusive se sentia um pouco desconfortável com aquilo, ele não sabia se tinha algo entre os dois da qual ele não sabia, mas certamente aqueles dois não gostavam um do outro. – Eu espero que não se tenha ofendido por minha falha – Derick continuou. – Não se preocupe, não ofendeu – retrucou Mikhail. – Senhor Reznikov, eu gostaria de falar consigo de um projeto que acho que lhe interessaria – Camil se pronunciou, tentando intervir naquela interação tensa. – Ligue para o meu escritório, terei muito gosto em recebê-lo para uma conversa acerca disso – o russo foi sincero ao afirmar. – Com certeza farei isso – assentiu. – Então nos veremos. Ele estava prestes a sair quando no final do corredor duas mulheres apareceram sorrindo e conversando, chamando a atenção dos homens ali parados. Amélia estava radiante, havia conseguido fechar um negócio espetacular com a ajuda de Anancy e agora planejava levá-la para almoçar em seu restaurante predileto. – Boa tarde senhores – Amélia sorriu para eles. – Boa tarde – responderam de forma cordial. Os olhos de Derick e de Mikhail pousaram em Anancy, seu rosto sereno era marcado por uma leve maquiagem, a postura impecável misturava poder, sensualidade e doçura, complementados pelo elegante blazer preto levem acinturado, calças de alfaiataria na mesma cor, uma camisa de seda em tom off-white e scarpin nude. Era impossível não notar o quão atraente aquela mulher era. – Se reunindo em corredores? Interessante – Anancy falou observando os 3 homens – não vamos atrapalhar a reunião. – Não há reunião, inclusive já nos estávamos dispersando – Camil falou de forma simpática. – Então nos vemos por aí – Amélia acenou para eles. – Tenham um bom dia – Anancy seguiu atrás da amiga. Mikhail saiu logo atrás e acabaram entrando os 5 no elevador. O silêncio se instalou no ambiente, e uns instantes depois o elevador se abriu no térreo. – Williams – Mikhail chamou quando ela estava indo na frente com sua amiga, a fazendo se virar para ele. – Eu vou ligar o carro – Amélia falou seguindo para fora, e os dois seguranças também se afastaram. – Falou que queria ter uma reunião comigo – levantou o celular, a lembrando que mais cedo, ela havia enviado uma mensagem pedindo para ter uma reunião com ele. – Ah isso, achei que estava ignorando – ela deu de ombros. – Você? Nunca. Apenas tem sido um dia cheio – confessou. – Não se preocupe, eu só estava me metendo com você – esboçou um sorriso – tem tempo pra me atender? Ele olhou para o relógio, tinha assuntos importantes por resolver em 15 minutos e precisaria correr. – Agora tenho um compromisso, mas posso cancelar – propôs. – Naaaah, você pode ir resolver o que precisa e nos encontramos depois, 20h, estará ocupado? – ela questionou interessada. Um sorriso preencheu os lábios de Mikhail. – 20? Depois do expediente? – o tom de insinuação estava bem evidente em sua voz. – Não viaja, é só trabalho – ela tentou convencê-lo. – Claro – assentiu – se incomoda se for no meu apartamento? – Seu apartamento? Seu território? – foi vez dela perguntar com aquele tom insinuante. – Bem, agora você sabe onde eu moro e como você disse, é só trabalho – ele devolveu a frase – eu faço o jantar – ofereceu enquanto ambos seguiam em direção a saída. – Lá estarei – assentiu com confiança – mas não se esqueça Reznikov, minha melhor amiga mora um andar abaixo do seu, qualquer coisa eu grito – ela avisou. – Oh Williams, você quer mesmo que ela te ouça gritar? – o sorrisinho de canto no rosto dele a fez corar instantaneamente. Ela mais uma vez era grata por seu tom de pele não permitir que ficasse vermelha igual um pimentão, caso não, seria difícil explicar o pensamento que a deixou tão corada. – Te vejo de noite, Reznikov – ela parou do lado de fora. – Ah e mais uma coisa, você fica linda de preto – ele acrescentou, ela sorriu levemente e saiu quase correndo em direção a amiga. ••• Quando a noite chegou, Dmitri olhou seu chefe cortar legumes e terminar o bife, a última vez que o viu cozinhar foi a 2 anos, quando eles ficaram presos em vorkutá e ele preparou a refeição para que eles aguentassem aquela noite, depois disso, nunca mais se viu Mikhail na cozinha. Até hoje. – Eu vou tomar um banho, olhe a panela por mim – Mikhail avisou enquanto caminhava em direção ao corredor. – Certo – assentiu e se aproximou do fogo. Já estava tudo pronto, ele só precisava olhar um pouco a panela de legumes e desligar quando estivesse no ponto, não tinha como dar errado... né? Ele era péssimo na cozinha e por isso no tempo que se seguiu, ele m*l desviou o olhar da panela, mas para sua sorte, o elevador se abriu e Viktor adentrou o apartamento carregando o Medovik que Mikhail havia encomendado mais cedo. – Que cheiro agradável – Viktor pousou o bolo na bancada e olhou para seu companheiro – cadê o chefe? – Banho – Dmitri respondeu sem tirar os olhos para panela. – E porquê você está olhando desse jeito pra panela? Até eu teria medo se fosse ela – perguntou com tom de provocação, sendo dirigido um revirar de olhos logo de seguida. – Sabe que o chefe me mata se eu arruinar o jantar dele, não sabe? – Matar eu acho que não, mas tirar seus olhos possivelmente – Viktor respondeu ponderando as opções. – Então esse é o motivo para eu estar tão atento a panela – falou voltando a se focar na panela. Os dois permaneceram em silêncio, mas como sempre, Viktor o mais falador, quebrou o silêncio com uma questão. – O que você acha de tudo isso? Dmitri revirou os olhos novamente, dessa vez pela quebra de seu amado silêncio, mas ainda assim decidiu responder. – É um pouco estranho – confessou – Mikhail sempre foi o mais centrado de todos, nunca deixou outra mulher que não fosse Ekaterina chegar perto, nunca se mostrou vulnerável e nem afetado por nada, até aquela vez que a senhorita Williams apareceu. Foi como se o último resquício de humanidade que residia nele tivesse ganhado força e lutasse todos os dias para sobressair. – ele parou pra refletir – e isso pode ser aquilo que o próprio chefe mais teme. – Fala isso por conta do perigo? – Dmitri assentiu. – O chefe não se perdoará se algo de mau acontecer com ela. – Nem ele e muito menos nós iremos permitir isso, depois de toda merda que o chefe passou e ainda passa, ele merece se apaixonar, e a senhorita Williams é perfeita para ele, tão doida quanto – Viktor deu de ombros. – Também acho, ela consegue tirar o que há de melhor nele. – Mas isso não quer dizer que não gostamos do lado mau dele – a risadinha de Viktor ao mencionar e lembrar do jeito mais temido de Mikhail, fez Dmitri sorrir, realmente o lado mau de Mikhail fascinava eles. Viktor desligou o fogo assim que notou que os vegetais já estavam no ponto. – E quando você irá se apaixonar? – Dmitri arqueou a sobrancelha. – Eu hein, saí de mim, tá pra nascer a mulher que vai me conquistar – refuta rapidamente. – Você já tem quase 30 Viktor, quer procurar uma esposa aos 60? – Mikhail retornou de seu banho, ajeitando a camisa. – O que eu posso fazer se nenhuma mulher chama a minha atenção? – ele ajeitou a gola de seu terno, enquanto Mikhail seguia para ver o Medovik. – E a Rowena? – Dmitri questiona com um olhar provocador. – Rowena? A segurança da Anancy? – Mikhail perguntou curioso e teve uma confirmação de Dmitri. – oh, a Rowena... – Claro que não, vocês me conhecem desde que tenho 8 anos, sabem o quão irritante eu gosto de ser, é só isso – se defendeu. – Ah, então você sabe que está sendo irritante? – Claro que sei, faço isso pra te irritar – ele retruca provocador, fazendo Dmitri revirar os olhos. O elevador se abriu e de lá Darmi saiu. – Chefe... Aqui está o que me pediu – ele avançou até Mikhail e entregou o envelope selado. – Você conseguiu tudo? – Mikhail abriu o envelope. – Tudo e mais um pouco. – É disso que eu gosto – Mikhail deu dois tapinhas no ombro dele e seguiu para guardar o envelope em uma gaveta da sala. O celular de Dmitri tocou e ele atendeu, falando algo em russo e desligando logo de seguida. – Senhorita Williams está lá embaixo – avisou se levantando e sem demora o celular de Mikhail vibrou com uma notificação. – Essa é nossa deixa para vazar – Viktor também se levantou. – Fiquem atentos a qualquer coisa e só me incomodem se for realmente importante. – Pode deixar chefe – assentiram. – Tenha um bom jantar...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR