Quando as portas do elevador se abriram, o olhar de Mikhail pousou em Anancy. Trajada de um vestido preto com o b***o marcado, alças largas para não deixar seus ombros muito a mostra, a saia em corte gode e um blazer por cima dos ombros, fez ele sorrir de canto e pensar, que tudo que ela tinha de profissional e elegante, ela tinha de sexy.
– Williams – ele se aproximou para recebê-la.
– Reznikov – os olhos dela analisaram o moreno. Calça preta de alfaiataria, camisa social branca com as mangas dobradas até o cotovelo, o cabelo bem penteado para trás, e nos pés... Meias e pantufas.
– Você está linda, como sempre – estendeu a mão pra ela, ajudando-a a descer os dois degraus que tinham em sua sala.
– Obrigada – ela olhou para ele – você também está... bonito – lutou contra a própria vontade de dizer que ele estava um pedaço de mau caminho, um poço de perdição e de tudo um pouco.
– Obrigado – ele indicou que seguissem em direção a cozinha, e ela assim o fez.
A mesa previamente arrumada por ele estava impecável e o cheiro da comida divinal.
– Eu fiz bife com legumes – ele puxou a cadeira pra ela.
– Você cozinhou? Melhor ainda, você cozinha? – questionou genuinamente interessada.
– Eu falei que tratava do jantar – deu de ombros e foi pegar a comida. – Espero que esteja do seu agrado – posicionou a comida na mesa e serviu duas taças de vinho.
Ela deu a primeira garfada ainda temerosa, mas o sabor da carne no ponto perfeito, a fez quase soltar um gemido de satisfação. Olhou para ele ainda desacreditada pela existência de tais dotes e voltou a enfiar uma porção da comida na boca, sentindo suas papilas gustativas agradecerem tal gesto.
– O que achou? – a questão fez com que ela voltasse a levantar o olhar na direção dele.
– Devo admitir que isso está muito bom – confessou de forma singela, arrancando um sorriso genuíno de Mikhail.
– Fico feliz que tenha gostado – ele levou a comida até a boca.
Anancy se recompôs da surpresa inicial, e então lembrou do motivo que havia a levado até lá.
– Eu pedi pra falar com você poque tenho uma proposta – assumiu sua postura negociante. – E se reformulássemos aquela zona industrial esquecida perto de Kazan? A infraestrutura existe, mas está adormecida. Podemos transformar aquilo num polo logístico moderno… discreto, lucrativo, e bem posicionado.
Mikhail que escutava com atenção balbuciou – Kazan, hmm… você tem observado mais do que dá a entender.
– Sempre, mas só mostro quando vale a pena – ela deu de ombros.
– E o que exatamente você propõe? – levou a taça de vinho a boca.
– Eu entro com o plano de revitalização, seleção de parceiros locais e análise de risco, você entra com o capital e as conexões certas. Metade dos lucros. Nada público demais, tudo limpo e elegante.
– Elegante… como você – ele a analisa com certa admiração, não era todos os dias que charme, beleza, inteligência e sagacidade se juntavam em um só corpo.
– Foque no projeto, Mikhail – Anancy desviou o olhar e levou um pouco de comida a boca.
– Impossível, quando a proposta vem nessa embalagem – retrucou.
– Eu pensei que você fosse bom a separar as coisas – voltou a olhar para ele.
– Sou. Mas com você, é sempre pessoal e brilhante ao mesmo tempo – sustentou o olhar, até que Anancy o desviou.
– Então? – ela voltou a puxar pelo assunto principal da noite.
Mikhail fez uma pausa.
– Vamos ver esse plano. Se for tão bom quanto o seu olhar agora… temos um acordo.
Um sorriso preencheu o rosto de Anancy e ela se focou em terminar sua refeição. Mikhail por outro lado, vez ou outra olhava para a mulher do outro lado da mesa, seus cabelos cacheados presos em um coque, favoreciam sua visão, permitindo que ele pudesse gravar cada mínimo detalhe daquela perfeição. Os traços delicados e os lábios rosados, seus olhos castanhos cor de mel que pareciam hipnotizá-lo e comandar todos os seus desejos, o queixo delicado, o pescoço mais chamativo que ele já havia visto... Suspiro. Como aquela mulher conseguia se impregnar daquele jeito nos pensamentos dele? Era o que ele mais queria saber.
– Reznikov? – Anancy chamou, mas ele não escutou, sua mente apenas viu quando ela moveu os lábios de forma tão chamativa, quase provocativa – Mikhail – ela repetiu, e dessa vez teve a sorte de conseguir chamar a atenção dele.
– Detka – ele respondeu m*l recobrou a sanidade.
– Tá pensando no quê? – perguntou confusa após largar os talheres no prato já vazio.
– Estava só me perguntando o porquê de só agora você aceitar fazer um projeto comigo – disse uma meia verdade, já que ele realmente ficou curioso quanto a isso, só não era o foco dele naquele instante.
– Talvez porque só agora eu tenha sentido que realmente era digna de trabalhar com você – ela deu de ombros, enquanto ele notava que tal como ela, sua refeição havia acabado.
– Eu vou pegar a sobremesa – avisou se levantando – mas me diga, como assim digna de trabalhar comigo? – indagou curioso, enquanto tentava pegar o prato dele e de Anancy.
– Eu ajudo – ela se levantou e pegou no próprio prato.
– Não se preo... – ele ia terminar, mas desistiu após a olhada que recebeu da mulher – está certo – levantou os braços em rendição e deixou a dama ajudar.
– Não é só acordar e levar um projeto para um homem de negócios como você, antes eu era só uma garotinha tentando a sorte, depois virei uma jovem que estava seguindo seus sonhos, e só agora eu sinto que me tornei uma mulher próxima da realização profissional que tanto almejava – levou a loiça para o lava louça.
– Mas eu mesmo pedi pra fazer um trabalho com você – ele cortou dois pedaços de Medovik.
– Não podia arriscar destruir sua reputação – ela deu de ombros.
– Tá bom, entendo – ele assentiu, mesmo em sua cabeça desconfiando que o real motivo fosse mais forte do que só aquele, só não ousaria expor tais pensamentos naquele momento – podemos sentar na sala se você quiser – propôs.
– Claro, sem problema – deu de ombros.
Seguiram para a sala e se sentaram no sofá. A vista era para a cidade de Londres, as luzes brilhantes e o movimento, contrastavam com a calmaria naquele apartamento, os olhos de Anancy estavam vidrados naquela visão, até que ela olhou para o lado e percebeu Mikhail distraído com o bolo.
– Vendo assim, nem parece aquele homem que muda o ambiente logo que chega e coloca quase todo mundo tremendo – ela comentou provando o bolo de mel.
Um sorriso mínimo surgiu nos lábios dele.
– De um jeito bom ou mau? – ele questionou como se não soubesse o quanto sua presença deixava algumas pessoas temerosas.
– E existe um jeito bom de deixar alguém tremendo? – ela arqueou a sobrancelha.
Em resposta Mikhail também arqueou a sobrancelha, como quem pede para que ela mesma pensasse uma resposta sobre isso, o que não demorou a acontecer e ela corou ao lembrar do outro jeito de "tremer" que ele estava se referindo.
– Eu adoro o jeito como seu cérebro funciona – ele riu.
– Agora me lembrei do meu sapato – ela voltou a comer.
– Eu devolvo, mas antes preciso de uma resposta a uma dúvida séria – ele largou o prato na mesinha de centro – porquê você fugiu de mim logo pela manhã?
Ela ajeitou sua postura.
– Eu já falei, tinha trabalho por fazer – ela deu de ombros – não pense demais nisso, não foi grande coisa não é? – ela tentou se convencer disso mas falou miseravelmente.
Em resposta ele a puxou levemente pra si e seus lábios se tocaram, foi um beijo suave com sabor a mel, os dois estavam esperando tanto tempo por aquele beijo e nem sabiam. Quando se afastaram, os dois se olharam ofegantes, os corações batendo descompassados e a vontade de voltar a aquilo estava mais forte.
Anancy foi quem cedeu e voltou a beija-lo, com mais vontade, mais desejo, como se suas vidas dependessem dos lábios um do outro e naquele momento talvez dependesse. Anancy se sentou no colo de Mikhail e o beijo que começou com doçura agora era voraz. Os lábios de Anancy buscavam os dele com fome, e Mikhail respondia com a mesma urgência, como se algo neles tivesse sido reprimido por tempo demais — e agora não havia mais freio.