Quando o amanhecer chegou, Mikhail abriu os olhos lentamente e sorriu ao ver Anancy dormindo agarrada a si, o rosto dela enterrado próximo ao seu pescoço, os cabelos bagunçados e espalhados pela almofada. Ela estava encolhida como quem buscava refúgio no calor de um abrigo seguro, pequena demais para a mulher que costumava enfrentá-lo com o queixo aserguido e a língua afiada.
Ali, entre seus braços, ela parecia outra, ou talvez fosse apenas a parte dela que ninguém mais via, e Mikhail, sem ousar se mover, apenas a observou, o coração pesado com algo que ainda não queria nomear. Ele ouviu quando seu despertador deu o primeiro sinal e com esforço, mas também com rapidez, desligou o aparelho e voltou a olhar para a morena ainda adormecida.
Lembrando-se que noite passada ele havia prometido que a acordaria caso ela estivesse demasiado cansada, Mikhail afastou alguns cachos do cabelo dela e tocou de leve sua bochecha.
– Eu queria muito te deixar dormir, mas aposto que você arrancará meu couro se eu o fizer – ele falou suavemente para ela.
Em resposta Anancy soltou um grunhido imperceptível e se encolheu ainda mais contra ele, como se não quisesse acordar. Mikhail sorriu, como aquela mulher podia ser tão fofa? Era o que ele mais queria saber, mas preferia não ter a resposta.
Com cuidado ele tentou se levantar sem acordá-la, mas assim que ele se sentou, Anancy soltou um suspiro e lentamente abriu os olhos.
– Bom dia detka – ele se levantou e caminhou em direção ao banheiro.
Ainda processando, Anancy observou ele caminhar nu até o cômodo, e dois minutos depois voltar com uma toalha à cintura.
– Que horas são? – ela perguntou se espreguiçando e sentando enquanto olhava para o moreno perto da porta do banheiro.
– Humm – ele foi até a mesinha de cabeceira – 06:08 – voltou sua atenção para Anancy que agora tinha os s***s a mostra enquanto coçava os olhos.
Ao focar novamente no homem, Anancy percebeu que ele olhava para si e foi nesse instante que se tocou sobre o facto de estar nua, e se cobriu enquanto soltava um gritinho.
– Querida, depois da noite passada, vergonha já não devia existir – ele falou rindo da reação dela, mas levou com uma almofada antes mesmo que pudesse prosseguir.
– Eu não estou envergonhada – retrucou, como sempre agradecendo por não ficar vermelha igual um pimentão – só não me lembrava que havia dormido pelada – segurou o lençol em torno de si mesma e se levantou.
– Óptimo, sinta-se a vontade, eu vou preparar algo para comer – caminhou em direção á saída – você já sabe onde fica o banheiro, qualquer coisa só me chamar – olhou uma última vez para ela, e assim que a viu assentir, ele saiu.
Anancy seguiu para o banheiro e se olhou no espelho: rosto amassado, cabelos desgrenhados, lençol em torno do corpo. Uma visão um tanto quanto inacreditável, afinal, ela nunca se imaginara daquele jeito na casa de alguém, muito menos de Mikhail Reznikov, o homem que todos temiam e que tinha o jeitinho mais debochado que ela. Ao olhar com mais atenção, percebeu os chupões em seu pescoço, ombro e baixando um pouco o lençol, viu as marcas em seu b***o.
As lembranças da noite quente voltaram a mente tão rápido que ela não conseguiu evitar o sorriso, mas decidiu ignorar o arrepio que só as lembranças a trouxeram e foi se lavar.
•••
Na cozinha do apartamento, Mikhail preparava o café da manhã para ele e a jovem mulher em seu quarto, ele era habilidoso e estava tão concentrado no que fazia, que não notou quando Anancy chegou na cozinha.
– Hey – ela chamou a atenção dele ao se aproximar.
– Wow – como se aos olhos dele ela não pudesse ficar mais linda, agora ela estava vestindo a camisa dele e seu corpinho ficava espetacular nela.
– Eu iria perguntar sobre o meu vestido, mas... – ela apontou para o vestido perfeitamente arrumado na sala.
– Eu estava prestes a levar para o quarto, mas acabei me distraindo com o café da manhã – falou se focando em outra coisa que não fosse a beleza dela – já está quase tudo pronto, pode vir comer – apontou para a cadeira de frente para o balcão.
– No que eu posso ajudar? – ela chegou perto da área onde ele estava.
– Não se preocupe com nada, você é minha convidada, eu te sirvo.
– Ohhhh, cavalheiresco, vou aproveitar os últimos instantes dessa calmaria antes de ir para o escritório.
Anancy se acomodou na cadeira, observando Mikhail se mover com naturalidade na cozinha. Ainda era difícil acreditar que aquele homem, o mesmo que podia gelar um ambiente com um olhar, agora estava ali, descalço, com uma toalha na cintura e preparando café da manhã como se fosse a coisa mais natural do mundo.
– Você sabe que não precisa estar a todo o instante trabalhando no escritório não sabe? – chamou sua atenção.
– Eu não trabalho o tempo todo, ao contrário de você – ela rebateu.
– Estou pensando em começar uma rotina saudável de trabalho – ele comentou, arrancando uma risada de Anancy.
– Rotina saudável? Essa é nova, tem certeza que aguentaria? – arqueou a sobrancelha.
– Eu sou um homem de várias camadas Williams.
– Então… isso faz parte do pacote Reznikov Deluxe? Jantar, sexo selvagem, café da manhã? Porque, se for, começo a entender o fascínio.
Mikhail riu baixo, pegando uma caneca para ela.
– É exclusivo, serviço personalizado, só para clientes... especiais – pousa a caneca diante dela, olhando de lado.
– Hm. Devo me sentir lisonjeada ou preocupada? – ela pergunta arqueando a sobrancelha.
Mikhail inclinou-se levemente sobre o balcão, os olhos fixos nela com aquele brilho meio irônico, meio indecifrável.
– Lisonjeada? Nem tanto, isso é o mínimo. Já preocupada, bem... talvez um pouco, afinal, até eu estou preocupado com a forma como quero você.
Ela ergueu uma sobrancelha, sem desviar o olhar.
– Você é sempre assim tão direto com todo mundo?
– Com você, sim. Os outros não me interessam – ele serviu um pouco de café na caneca dela – com o tempo aprendi que você aprecia verdades bem servidas.
– Desde que venham com açúcar – ela retrucou.
– Eu posso adoçar, se você quiser – ele sorriu de canto, e por um segundo, aquele ar impenetrável dele se desfez.
Ela pegou a caneca, soprando o vapor quente antes de beber um gole. Depois olhou para ele por cima da borda e observou seu tronco nu. Aos olhos de Anancy, o tronco de Mikhail era uma combinação perfeita de força e mistério, os músculos definidos moldavam-se sob a pele clara, interrompida aqui e ali por tatuagens que se escondiam sob seus ternos e só agora revelavam desenhos e símbolos que ela não entendia; havia também cicatrizes discretas, quase invisíveis, mas que contavam silenciosamente que ele já tinha enfrentado mais do que deixava transparecer.
– Sabe, quem te vê de terno, não imagina que você é tatuado – ela segue uma das linhas que compõem as tatuagens dele.
– Os ternos são a armadura social que impede que todos me vejam como eu realmente sou, e as tatuagens contam mais do que eles podem ver – ele responde dando de ombros.
Isso é suficiente para atiçar a curiosidade de Anancy ainda mais. Por isso ela questiona:
– E o que elas contam?
– Histórias que me lembram do porquê eu devo vestir minha armadura – o tom dele por um instante mudou para algo mais melancólico, como se lembrasse para si mesmo.
– E você precisa vestir essa armadura o tempo todo? – ela arqueia a sobrancelha – controlar tudo, mascarar seus sentimentos, é tudo parte dessa armadura? – indagou.
– Isso faz parte da armadura, mas você quebra ela só com a p***a de um sorriso – ele olhou bem para o rosto dele enquanto falava.
Então pousou um prato com Blini, um prato russo que parecia panqueca mas a massa era mais fina, quase se assemelhando a crepes só que mais delicados. Ele trouxe junto salmão e caviar, só que como Anancy ainda estava processando o que ele falou, não se atentou muito ao prato "estranho" que pousou a sua frente, apenas se limitando a agradecer.
– Você gosta desse jogo de sedução Reznikov? – ela questionou enquanto seguia os passos dele em direção ao banco do lado dela.
– Por que motivo você prefere acreditar que eu estou jogando, ao invés de acreditar nas minhas palavras? – ele se sentou e a encarou.
– Do nada você decidiu que gosta de mim?
– E quem disse que foi do nada? – arqueou a sobrancelha.
– E não foi? – ela retrucou, imitando seu gesto.
Mikhail esboçou um pequeno sorriso, e balançou a cabeça negando.
– Não foi – o olhar dele se estreitou, como se cada palavra fosse escolhida a dedo. – Foi lento como um veneno que eu deixei correr nas minhas veias, só para sentir o efeito, um veneno feito para me torturar, me desestabilizar, me testar… e o pior? Você nem tentou, e mesmo assim, conseguiu me prender.
Ela franziu o cenho, inclinando a cabeça.
– E como foi que eu te envenenei?
Mikhail manteve o olhar preso no dela, como se a pergunta fosse uma armadilha que ele tivesse esperado muito tempo para responder.
– Com coisas pequenas – a voz dele baixou, mais rouca – o jeito que você franze a testa quando está concentrada… o modo como segura a xícara com as duas mãos, como se buscasse calor, ou quando sorri para si mesma, achando que ninguém está olhando – ele se inclinou um pouco, o olhar intenso, quase perigoso – eu percebi o quanto a sua presença me afetava no dia em que tudo estava desmoronando… e só porque você estava lá, respirando no mesmo espaço, tudo ficou… suportável.
A respiração dela ficou presa por um instante, absorvendo o que ele disse.
– Isso não é veneno, Mikhail – retrucou.
– Oh se é, e é o pior tipo. Porque eu não quero me curar.
– Então… todas aquelas implicâncias e provocações eram o seu jeito de me conquistar? – Anancy arqueou a sobrancelha, o tom carregado de ironia.
Mikhail soltou um breve som, algo entre um riso baixo e um suspiro.
– Não – a voz dele veio firme – aquilo era o meu jeito de me manter por perto, mas agora vou querer te conquistar de verdade.
– E você não pensou na possibilidade de que outro cara me conquistasse antes e você perdesse? – ela inclinou a cabeça, um sorriso provocador surgindo nos lábios.
Ele não respondeu apenas a olhou, como se aquela hipótese fosse tão absurda que nem merecia palavras, como se fosse impossível que ela se deixasse conquistar por qualquer um. E ela sabia, no fundo, que esse era o motivo pelo qual ele nunca avançara nos últimos seis anos: sabia que ela estava focada na carreira, que não queria distrações.
– Por que só agora, então? – ela insistiu, cruzando os braços.
Os olhos dele se estreitaram levemente, e um sorriso lento se formou.
– Porque agora… você me deu sinal de que eu tenho chances.
– Dei? – indagou com provocação.
– Você está aqui, não está?
– Talvez seja pelo sexo maravilhoso – deu de ombros.
– Está aqui só pelo sexo?
Anancy voltou a olhar para seu prato.
– Caviar e salmão para crepes? – ela franziu a testa mudou de assunto e verdadeiramente prestando atenção ao prato.
– São blinis, uma espécie de crepes russos, é muito bom quando você coloca salmão – ele falou olhando com espectativa para ela, enquanto a mesma recheava seu blini.
Anancy provou e apesar de ser um sabor diferente do que ela estava acostumada, ela acabou gostando do blini.
– É muito bom – confessou.
Ele sorriu – fico feliz que tenha gostado – manteve os olhos nela enquanto ela comia mais um pouco de blini e tomava seu café.
– Não vai comer? – ela arqueou a sobrancelha.
– Bom apetite – ele voltou sua atenção ao blini e partilharam o café da manhã em um clima descontraído.