POV THE KILLER (ABEL)
– Chaveiro, chama geral, chama geral, PORRAAAA. Tão invadindo a favela, caralh0. – falei enquanto enchia meu revólv3r com munição.
Eu passei pela sala e notei que o sangue do Sardinha não estava mais lá, bem como o corpo. Verme imundo. Que o capet@ o tenha.
– Certo, chefe. Tô indo.
Tudo que eu pensava era que a minha mãe estava lá sozinha, com a garota. Eu queria proteger minha mãe e, por motivos que eu não queria admitir, estava também procurando razões para cuidar daquela moça desconhecida que se perdeu na comunidade.
Por alguns segundos cheguei a pensar que os corvos estivessem invadindo a favela por conta da Sininho, mas depois, pela minha experiência, deduzi que não. Não era daquele jeito, já metend0 bala que eles apareciam na nossa área quando procuravam por alguém que desapareceu do asfalto.
Uma breve repensada e logo cheguei a conclusão de que era apenas uma invasão da polícia, para me derrubar.
POV ALICINHA
Eu já tinha ouvido tiroteios antes, porém, tão perto como ouvia ali, jamais. Isso fez meu sangue borbulhar e por alguns instantes um pânico instantâneo, com medo de morrer.
Mas talvez, aquela fosse a chance que o céu estava me dando de finalmente ligar para casa e pedir ajuda ao meu pai.
Dona Dulce, mãe do Killer ou Abel sei lá o que, deixou o telefone sobre a mesa para pegar algo no quarto (acho que uma bíblia). Não pensei duas vezes. Saquei o telefone e disquei para casa.
– Alô, pai? – falei olhando para o quarto, vendo se a dona Dulce voltava.
– Alicinha?
– Sim, pai. Pai, eu tô numa favela.
– Como assim, numa favela?
– Longa históri@. Só preciso que mande ajuda, fui sequestrad@.
– Não é hora para brincadeiras, Alicinha.
– Não é brincadeira, pai. Por favor. – eu já me desesperava.
– Olha, Alicinha. Talvez seja melhor você não voltar para casa.
Meu mundo desabou de novo. Eu sabia que minha relaçã0 com meu pai não era um mar de rosas. Todavia, aquela indiferença diante do que eu relatava era assustadora.
– O senhor tá falando sério?
– Sim. Eu já estou cansado de você atrapalhando a minha felicidade.
– Atrapalhando sua felicidade??? E a minha…
Nesse momento ouvi um barulho intenso de vidro se quebrando. Eu me joguei no chão e o celular foi para longe. Era um tiro que atravessou a janela.
Dona Dulce correu do quarto e procurou por mim.
– Estou aqui embaixo da mesa – falei.
– Graças a Deus, menina.
Na pressa, ela nem reparou que o telefone estava caído no chão.
Naquela hora eu sabia que a indiferença do meu pai pelo telefone era muito mais assustadora para mim do que aquela bala que poderia ter facilmente me acertado. Se antes eu tinha alguma suspeita de que estava sozinha no mundo, naquele dia eu tive certeza de que era eu por mim mesma e nada mais.
– O que houve?? – Perguntei a Dona Dulce assim que as luzes piscaram.
– Não, sei minha filha, não sei . – falou ela aflita olhando ao redor.
Nessa hora estávamos as duas embaixo da mesa abraçadas. Eu sentia o medo dela. Dona Dulce começou a fazer uma oração e acho que eu também comecei a pedir a Deus que me protegesse.
Em seguida houve batidas intensas na porta, como se tivessem tentando arrombá-la. E finalmente conseguiram.
– Aqui mora a mãe do vagabund0. – falou uma voz grave.
Olhei pelo chão e vi os peś de alguns homens. Era um coturno, desses que policiais militares do Rio de Janeiro usam. Eu sabia que eram policiais, mas pelo jeito que falavam e riam, eu sentia como se eles fossem os vilões. Me arrepiava até a alma. Alem disso, todo mundo que já esteve no Rio por algum tempo, conhecia algum relato de policiais que mais pareciam bandid0s. Eu sentia que este era o caso.
– Tem mais de uma pessoa, capitão. – falou outro.
– Hum, é mesmo, tem dois pratos na mesa. Mas acho que o The Killer num tá aqui não.
– Também acho, Capitão. A mãe eu sei que tá. Fonte segura de que sim. Se a gente pegar a mãe, a gente pega o vagabund0 também. Vamo dá nem chance, na primeira oportunidade a gente acerta uma bala bem na testa…
Ao ouvir isso, Dona Dulce me abraçou com forç@. Não devia ser fácil para uma mãe escutar que pretendiam mat@r seu filho.
Eu tentei consolá-la, mas antes disso, um deles abaixou e puxou meu braço.
– Achei. – Disse o mais novo.
Em seguida o que era o Capitão, pegou dona Dulce.
– Nos larguem, seus imundo0s. – disse ela.
Os policiais tinham fuzis presos ao peito. Nos olhavam com maldade. Mas a maneira com que o capitão secou meu corpo, me deixou mais amedrontada ainda.
– Dá ela aqui. – Disse o capitão entregando dona Dulce para o mais novo e ficando comigo.
Ele cheirou meu pescoço e eu senti um asco imenso. Cheguei a lembrar do meu ex, o Samuel, que me traiu naquele dia.
– Me larga, seu porco imundo. – falei dando uma cotovelada no saco dele.
Após gritar e se recuperar, ele disse com raiva:
– Ah, você quer brincar, sua vagabund@?? Quer brincar?
Ele me puxou para o canto enquanto dona Dulce gritava para não fazerem nada comigo. Nesse momento, o policial que a segurava desferiu um tap@ e o corpo frágil dela caiu no chão.
Era uma cena de terr0r.
O tal capitão, me jogou no chão e foi rasgando minha roupa. Seu cheiro era horrível, de suor azedo. Meu estômago embrulhava.
– agora vou ensinar pra uma gatinha como vocẽ a miar… Ali,as a como g3mer. Fica quietinha que vai ser gostoso.
– Não, por favor, não – eu gritava.
– Vai chefe, manda ver. Depois sou eu, hein – ria o mais novo.
O capitão abriu a braguilha da calça e tirou seu membr0 dur0 para fora.
Eu fechei os olhos, já desisti de lutar, não tinha como medir f0rças. Apenas rezava aos céus por um milagre.
A única coisa que eu conseguia ouvir era dona Dulce rezando o pai nosso. E eu me prendi naquela oração, para me distrair e não sentir que aquele pesadelo era real.
Quando ia balbuciar “pai nosso que estais no céu…”, ouvi um barulho quase surdo e uma remessa de respingos quentes no meu rosto. Era dangue, pois uma gota caiu na minha lingua e senti o gosto salgado de ferro. Em seguida, o corpo daquele policial caiu sobre mim.
– Larga minha mãe, seu verme filho da put@.
Olhei para o lado e The Killer entrava com mais dez caras atrás dele. Eu achei que ele fosse dar um tiro no policial mais jovem, porém não. Ele parecia com tanta raiva que pegou o fuzil que tinha e empunhou como se fosse um bastão. Em seguida, com dentes cerrados, ele começou a desferir vários golpes na cabeça do rapaz, que tombou no chão, perdendo aquela coragem toda.
The Killer desferiu tantos golpes, que o rosto do policial era um conjunto de sangue e cérebro espatifado. Ficou irreconhecível.
Em outra situação eu teria pena, mas depois do que ouvi daquele homem, eu teria feito pior. Eu estava prestes a ser estuprad@.
– Tudo bem mãe???
– Eu tõ, meu filho. Tô bem. A menina que deve estar apavorada.
The Killer olhou pra mim e vi um lampejo de pena em seu olhar ao me avistar caída no chão.
– Chaveiro, leva minha mãe para o banker.
– A menina também, chefe??
– Não. A Sininho vai comigo.
– Certo – disse o tal Chaveiro.
Dona Dulce pediu para o filho cuidar de mim e eu me senti afeiçoada aquela mulher. Era a segunda vez que ela agia como se eu fosse alguém que importava, diferente do meu pai, que não ligou para o que eu disse.
– Desculpa por ter sujado você. – Disse The Killer empurrando o corpo daquele policial nojento de cima de mim.
– Você que atirou nele?
– Sim, ele ia tocar em você. Não admito isso. – falou.
– É, muito obrigada. – comentei.
– Mas, ele chegou de fato a te tocar? – perguntou me inspecionando.
Só então, nesse momento, notei que estava praticamente de calcinha e sut1ã. Tentei me cobrir com os trapos de roupas rasgadas que restaram, mas sem muito sucesso.
– Não, não conseguiu. Vocẽ o acertou a tempo, obrigada.
– Seu tornozelo tá pior, Sininho.
Se antes estava inchado, agora parecia que eu tinha um tumor no lugar do tornozelo esquerdo.
- Acho que consigo me levantar sozinha, sem problemas.
Mas não foi isso que aconteceu. Na correria, eu devo ter sobrecarregado a articulação, e deixei pior mesmo.
– Não, não. Vem. Eu te levo até o carro.
– Não precisa seŕio – falei.
– Não temos tempo. Só fica quieta.
Ele me colocou nos braços e por um breve momento minha boca quase encostou na dele. Eu desviei rapidamente, mas foi tempo suficiente para sentir o hálito frio de pasta de dente que via da sua boca (ele ia dormir naquela hora, antes de invadirem a comunidade?). Além disso, senti a pele firme, os músculo me envolvendo. Por alguns segundos meu coração bat3u depressa.
– Para onde vamos?
– Vamos para minha casa. Vou mantê-la segura lá.
– Por que quer me manter segura? Não me conhece – perguntei enquanto ele me levava para fora.
The Killer me colocou no banco do carona (a segunda vez naquela noite). Depois me fitou alguns segundos, inseguro do que diria, talvez. E antes de fechar a porta, me respondeu:
– Eu também gostaria de saber porque quero te proteger, Sininho. Mas não gosto da justificativa.