O carro parou na esquina, como sempre. Magrin nunca encostava na frente da casa por causa do movimento, e eu agradecia por isso. A última coisa que eu precisava era vizinha fofoqueira vendo carro estranho na porta.
— Thayna. — ele chamou antes que eu abrisse a porta. Virou o corpo no banco do motorista e estendeu um envelope pardo, grosso, fechado com elástico. — São cinco. Tá certinho.
Olhei pro envelope. Cinco mil reais.
Cinco mil reais por uma visita íntima.
A carteira queimava na minha mão, mesmo fria, mesmo sem abrir.
— Agradece ele. — falei seca, guardando o envelope dentro da bolsa, bem no fundo.
— Tu mesma pode agradecer semana que vem. — Magrin deu um meio sorriso. — Ele já tá contando os dias.
A Lays me abraçou forte antes de eu sair.
— Qualquer coisa, me liga, viu? Mesmo que for de madrugada. — ela sussurrou no meu ouvido. — E não deixa teu pai ver esse dinheiro, pelo amor de Deus.
— Eu sei. — respondi, apertando ela de volta.
Desci do carro, sentindo os olhos do Magrin no meu cangote até eu dobrar a esquina. Só então respirei de verdade.
A casa era pequena, pintada de branco pela metade, com um portão de ferro enferrujado que rangia sempre, não importa o jeito que abrisse. A calçada tinha uma mangueira murcha que minha avó teimava em regar todo dia, mesmo sem nunca dar fruto.
Entrei devagar.
O cheiro de café velho e cigarro tomava conta da sala. A televisão tava ligada no SBT, baixo, e minha avó dormia no sofá, o queixo caído, a mão pousada na barriga. Ela trabalhava limpando casa dos outros desde os quatorze anos. As mãos dela contavam histórias que a boca nunca disse.
Passei na ponta dos pés, subi as escadas de madeira que gemiam igual o portão, e cheguei no quarto.
Meu filho.
O Thales tava no berço, virado de lado, o biquinho de mamadeira caído perto da mãozinha aberta. Ele respirava fundo, a barriguinha subindo e descendo devagar, o cabelo crespo molhado de suor. Três meses. Três meses de vida, e eu já tava fazendo esse tipo de coisa pra dar um futuro pra ele.
Sentei na beirada da cama e chorei.
Não foi choro de tristeza. Foi de cansaço. De alívio. De nojo de mim mesma, misturado com uma gratidão imensa por ter conseguido. Eu não sabia o que sentir direito. Só sabia que as lágrimas desciam quentes e eu deixava.
O Thales mexeu um braço, resmungou, e eu levei a mão na barriga dele pra acalmar.
— Tô aqui, filho. — sussurrei. — Tô aqui.
Depois de alguns minutos, levantei. Escondi o envelope dentro do armário, enfiado dentro de uma bota velha que ninguém usava havia anos. Tranquei o armário. Guardei a chave no sutiã, porque em casa de drogado nem parede é segura.
Meu pai.
Na juventude, dizem que foi pedreiro, que chegou a ter nome na quebrada. Agora era só os olhos fundos, a barba por fazer, o andar mancando de tanto cair. Passava o dia no quarto dos fundos, fumando pedra, ouvindo rádio velho. Minha avó já tinha desistido de salvar ele. Eu também.
O que não dava pra desistir era do Thales.
Por isso o dinheiro ia sumir rápido. Aluguel de uma casa pequena, mas longe daqui. Longe do cheiro de crack, longe do portão que range, longe do perigo de meu pai acordar e revirar a casa atrás de dinheiro pra mais uma pedra.
Deitei na cama, o Thales aninhado no meu peito, e fechei os olhos.
Na minha cabeça, a imagem do Urso não saía. O jeito que ele falou "você vai voltar semana que vem". A força das mãos dele na minha cintura. A água fria descendo no nosso corpo quente.
— Só um descanso. — murmurei pra mim mesma. — Depois vou procurar uma casa.
O Thales fungou no meu peito, e eu acariciei a cabeça dele devagar.
Mas antes de dormir, eu já sabia: a primeira coisa que ia fazer quando acordar era pegar o celular e pesquisar imóveis pra alugar. Longe. Seguro. Barato.
E a semana que vem ia chegar rápido.
Tinha que chegar.