O portão da cadeia rangeu atrás de mim, e o sol da tarde bateu nos meus olhos, me cegando por um segundo. Pisei no asfalto quente, as pernas ainda meio bambas, a marca dos dedos do Urso ainda quente na minha cintura.
— Thayna! Aqui!
A Lays estava encostada no carro, os braços cruzados, a cara fechada de quem já tava prevendo o pior. Do lado dela, o Magrin dava uma última tragada num cigarro antes de jogar no chão e pisar.
— c*****o, Thay, tu demorou tanto que a gente já ia chamar os bombeiros. — a Lays veio na minha direção, os olhos cheios de preocupação. — Foi tão r**m assim?
Eu parei na frente dela, tentando organizar os pensamentos.
A Lays era minha melhor amiga desde os quinze. Ela sabia tudo sobre mim e o Urso. Ela sabia do passado, sabia da merda que eu tinha me metido, sabia que eu não queria estar ali. Mas agora...
O Magrin ficou perto do carro, respeitando o nosso espaço. Ele era magro mesmo, alto, com um rosto comprido e olhos vivos que pareciam ler tudo ao redor. Eu não tinha i********e com ele.
A gente só se falava quando a Lays estava junto, e olhe lá. Mas eu sabia que ele era irmão do Urso de consideração. Criados juntos na mesma quebrada, sangue do mesmo sangue, mesmo sem parentesco de verdade. Por isso ele tava ali. Por isso ele dirigia pra mim, cuidava do recado, garantia que o dinheiro chegasse.
— Thayna? — a Lays tocou no meu braço, me tirando do devaneio. — Fala alguma coisa. O que ele fez?
Eu respirei fundo. Olhei pros dois. E sorri.
A Lays piscou, confusa.
— p***a, Thay... tu tá sorrindo? Tu saiu de lá toda desgrenhada, com marca no pescoço, o cabelo molhado... — ela estreitou os olhos. — Ele te agrediu?
— Não. — respondi, a voz saindo mais baixa do que eu queria. — Pelo contrário.
O Magrin deu uma tossida constrangida e se virou de costas, fingindo que tava olhando o movimento da rua. Bom sujeito. Sabia a hora de não ouvir.
A Lays me puxou pelo braço, baixando a voz.
— Thayna, me diz que vocês não...
— A gente. — cortei. — Sim. Aconteceu, oras! Era esse o plano desde o inicio.
— Meu Deus. — ela passou a mão no rosto. — E como é que foi?
— Lays... — olhei de relance pro Magrin, que tava mechendo no celular, distraído de propósito.
— Ele não vai contar nada pro Urso que tu não deixar, pode ficar tranquila. — a Lays garantiu. — O Magrin é discreto. Só que eu preciso saber. Tu tá bem?
Eu mordi o lábio, sentindo o gosto do Urso ainda ali.
— Tô. — respondi, e a verdade da palavra me surpreendeu. — Tô mais do que bem.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Então por que tua cara é de choro?
— Porque o tempo foi curto. — soltei, sem pensar. — Visita de cadeia é uma merda, Lays. Tu entra, tem que fazer tudo correndo, e quando começa a ficar bom...
— O quê? Vocês dois se resolveram?
— A gente não se resolveu. A gente... — procurei as palavras certas e não achei nenhuma que fizesse justiça. — A gente se reencontrou. De verdade. E agora eu não sei o que fazer com isso.
O Magrin se virou devagar, guardando o celular no bolso.
— Bora, meninas. O sol tá caindo e aqui não é lugar de ficar conversando.
Ele abriu a porta de trás do carro pra mim. Eu entrei sem graça, puxando a Lays junto. O Magrin bateu a porta e foi pro volante.
Dentro do carro, o silêncio durou até a primeira esquina.
— Então... — a Lays começou, baixinho. — Tu vai voltar semana que vem?
Olhei pela janela, vendo os muros do presídio sumindo no retrovisor.
— Ele pediu. — falei. — E eu acho que vou.
— Acha? — a Lays riu, incrédula. — Thay, tu saiu de lá com cara de quem já tá contando os dias.
— Talvez. — suspirei. — Mas não é simples, Lays. Tem meu filho. Tem a minha vida. Tem o fato dele estar preso e eu não saber nem por quanto tempo.
— E o fato de tu ainda ser louca por ele? — ela provocou.
Não respondi. Só encostei a cabeça no vidro e fechei os olhos.
O Magrin olhou pra mim pelo retrovisor por um segundo, sem maldade, só observando.
— Se precisar de carona semana que vem, é só falar. — ele disse, a voz neutra. — O Urso é meu irmão. O que é dele, é meu também. E pelo visto... — deu um meio sorriso. — Você agora é coisa dele de novo.
Abri os olhos e encarei o retrovisor.
— Eu não sou coisa de ninguém, Magrin.
Ele levantou as mãos num gesto de paz.
— Foi modo de dizer. Desculpa.
A Lays me cutucou, rindo baixo.
— Já tá estressada porque vai demorar sete dias pra sentar naquele p*u de novo?
— Lays! — reclamei, mas não consegui evitar o riso.
— O quê? Eu sou tua amiga, posso falar. E pelo jeito que tu saiu de lá, o bicho deve ser bruto mesmo.
— Cala boca. — empurrei ela de leve, rindo. — É bruto. Mas não fala mais nada senão eu te jogo do carro em movimento.
O Magrin deu uma risadinha seca, mas não entrou na conversa. Bom senso.
O carro seguiu pela estrada de terra, levantando poeira, levando embora o cheiro do Urso que ainda teimava em ficar na minha pele.
Eu só esperava que o tempo passasse rápido.
Maldita visita de cadeia.