Núbia
O meu irmão parecia abatido e derrotado, mas eu sabia que ele não queria deixar aquele lugar. Eu também não queria ir embora, mas tinha medo de lutar e acabar piorando a situação.
Fiquei ali, em pé, com a minha mãe abraçada a mim e o meu pai ao nosso lado, olhando para aqueles homens armados que nos rodeavam. Eu sentia a tensão no ar e só podia lutar com a minha voz.
Carioca deu um passo à frente, sorrindo de lado.
— Você sabe que não é assim que as coisas funcionam, né? Eu decido quem vai ou não.
— Não, não é assim que as coisas funcionam. — eu respondi, a minha voz firme apesar do medo que eu sentia. — Essas terras são do meu pai, e nós não vamos sair daqui tão facilmente.
— O seu pai? -ele debochou. — Ele não tem nada, ele é um ninguém.
— Ele é meu pai, e temos o direito de viver aqui em paz. — eu disse, sentindo o meu coração acelerar.
— Ora, ora, ora, vejam só. A mocinha valente.— Carioca sorriu ainda mais largo, olhando em volta para os homens armados ao seu redor. — Eu gosto disso. Gosto de uma mulher que sabe o que quer. Mas eu também sei o que eu quero, e o que eu quero está aqui.
— O que você quer? — perguntei, desconfiada.
— Algo mais valioso do que essas terras. — ele disse, olhando diretamente para mim. — Algo que só você pode me dar.
Eu senti um arrepio percorrer a minha espinha. O que ele queria de mim? Eu não podia deixar que ele machucasse a minha família, mas também não podia entregar a ele o que quer que fosse.
— Não sei do que você está falando. — eu disse, apertando os meus braços em volta do meu corpo.
— Não se faça de boba, Núbia. Eu quero você. — Ele deu mais um passo à frente, chegando ainda mais perto. — Você é bonita, inteligente, valente. Eu gosto disso. E eu sempre consigo o que eu quero.
Eu senti o cheiro de cigarro na sua respiração. Eu queria socá-lo, gritar com ele, mas eu sabia que isso não iria adiantar. Gostaria que aquelas luzes no seu cabelo pegassem fogo de verdade.
— Não vou deixar você tocar em mim. — eu disse, com a voz firme.
Ele riu.
— Você não tem escolha, boneca. Mas não se preocupe, eu não vou machucá-la. Vou tratá-la como uma princesa.
Eu cerrei os punhos, tentando controlar a minha raiva, quando as suas mãos imundas tentaram tocar o meu rosto.
— Vocês não vão levar o meu irmão. Ou qualquer outra coisa.
— O seu irmão? — ele franziu o cenho. — Ah. Ele não tem nada que nós queiramos.
— Não seja tola, Núbia. — o meu irmão interveio. — Eu vou com eles. Eles não vão deixar a gente em paz até conseguirem o que querem.
— Não, você não vai. — eu disse, me virando para encará-lo. — Nós vamos lutar juntos, como uma família.
— Isso não vai adiantar, minha irmã. — ele disse, colocando a mão no meu ombro. — Eu já errei demais. Eu preciso ir com eles, é o melhor para todo mundo.
Eu senti o meu coração acelerar quando Carioca apontou a arma para mim e imediatamente quis ir para cima dele, mas minha mãe me segurou, tentando proteger a mim e ao meu irmão.
— Quanto drama. — ele debochou, imitando uma cena de sono, e aquilo só aumentou a minha raiva.
— Você é um monstro! — eu gritei para ele.
Carioca pareceu ainda mais irritado com a minha reação e começou a falar com voz firme:
— Já me estressei com vocês, caipiras. É o seguinte. — Ele me olhou com um olhar c***l e um sorriso perverso, fazendo o meu corpo tremer de medo. Eu me agarrei à minha mãe, tentando me sentir segura.
— Fique longe da minha irmã. — o meu irmão esbravejou, encarando Carioca com fúria nos olhos. Mas Carioca não se intimidou e respondeu com arrogância:
— Ou o que, seu merda?
Eu não conseguia entender como aquela pessoa podia ser tão c***l e insensível. Ele parecia não ser humano, com um comportamento totalmente desumano e sem empatia.
— Quem é você para chegar aqui e ditar as regras?. — eu questionei, tentando entender o motivo de tanta maldade.
Carioca apenas deu uma risada debochada e continuou com as suas ameaças:
— Cansei dessa p***a*, peguem essa v***a* e vamos logo. O recado está dado. — Tudo aconteceu muito rápido depois disso. Dois homens se aproximaram de mim e começaram a me puxar pelos braços, me arrastando para fora de casa. O meu irmão tentou avançar contra eles, mas foi impedido por outros homens que estavam na sala.
Fiquei em pânico enquanto era arrastada para fora de casa como um animal, sem entender o que estava acontecendo. A cena foi a pior da minha vida. Tantos homens armados, invadindo a minha casa e me levando embora da minha família.
A situação em que me encontrava era desesperadora. Os meus pulmões gritavam por ajuda e eu sentia um aperto no peito que me tirava o ar. Antes que a porta se fechasse, ouvi um tiro. O meu coração parou. Não podia ser... O meu irmão tinha sido baleado! Foi aquele maldito Carioca, eu nunca senti tanta raiva ou ódio por alguém como senti naquele momento. Ele havia mudado algo dentro de mim.
Não tive tempo de ver o meu irmão, fui arrastada sem resistir, jogada dentro de um carro preto, que parecia tão gelado quanto aquele momento. A minha garganta doía e os meus olhos ardiam de tanto chorar. Tudo parecia tão surreal, como se eu estivesse em um pesadelo do qual não conseguia acordar.
O carro seguiu em alta velocidade, o barulho dos pneus na estrada me fazia sentir cada buraco e irregularidade no asfalto. A minha mente estava em um turbilhão, pensando no meu irmão, na minha mãe, no meu pai. Para onde estava sendo levada? Quem eram aquelas pessoas? Como havíamos chegado a esse ponto?