O carro não andou mais que vinte minutos, logo entravamos em outra propriedade privada, igualmente luxuosa, porém em um designe moderno, com quase todas as paredes de vidro, exibindo o luxo extravagante de dentro da residência. O frio na barriga voltou com força total, contraindo meu abdome em uma tensão sufocante.
- O que eu tenho que fazer? – perguntei ao motorista, pois desta vez ninguém estava me aguardando ao lado do carro.
- Se identifique aos funcionários, eles saberão o que fazer – o motorista falou em um tom educado e eu segui para a entrada principal da residência. A noite nem tinha começado e eu já estava só o farelo.
- Sou a srta. Adrien – falei ao homem m*l-encarado, de pé próximo a porta. Ele parecia estar fazendo a segurança da sala.
- Por aqui senhorita – Um senhor gentil apareceu na sala. Pela postura ereta e elegante, devia ser o coordenador dos funcionários ou recepcionista. Bom, pelo menos ele sabia para onde eu devia ir.
O acompanhei sentindo as pernas deslizarem uma na outra de forma terrivelmente desconfortável. Era horrível não conseguir esquecer que faltava tecido no meu corpo. O som de vozes masculinas ecoaram não muito longe. Atravessamos a sala luxuosa, que de tão grande parecia o salão de um pequeno shopping, depois entramos em outra sala igualmente grande, porém com uma decoração mais fechada, com mesas de jogos e quatro homens sentados em volta de uma mesa redonda. Todos estavam acompanhados por uma mulher, exceto um velho de cenho cerrado e poucos cabelos na cabeça.
- Tolice... – o velho falou sem tirar o charuto da boca. Droga, eu odiava cigarros.
Após identificar meu cliente, aproximei-me da mesa em passos lentos, retardando o irremediável.
- Boa noite! – Cumprimentei a todos. O velho que deveria prestar atenção em mim, foi o único que me ignorou por completo. Os outros três homens e suas acompanhantes me fitaram deliberadamente, mas ninguém respondeu. Foi desconfortante a sensação de estar no lugar errado. Tirando o velho, os outros eram todos jovens, de boa aparência e de certa forma se pareciam, o que me fez entender que possuíam algum tipo de parentesco. Um tinha a aparência de no máximo cinquenta anos, os outros dois deviam estar na casa dos quarenta.
Parada como uma pata, fiquei de pé em silencio próximo a mesa, a espera de algum comando ou sinal, enquanto os outros voltaram a conversar me ignorando por completo. Notei que as mulheres me fitavam visivelmente contrariadas. Elas não pareciam garotas de programa, muito pelo contrário, estavam vestidas em roupas elegantes e joias discretas, visivelmente caras.
As três mulheres sentadas ao lado de seus respectivos parceiros se entreolharam e foi fácil entender o que seus olhares hostis diziam. Eu não era bem-vinda ali, também não era para menos, pois eu parecia pronta para uma noite na balada, em um minivestido de costas nuas.
- Eu não irei perdoá-lo Brian, desta vez falo sério – uma voz feminina soou atrás de mim. Voltei-me na direção do som e vi uma homem de beleza devastadora. Foi difícil não sentir as pernas tremerem.
A loira ficou muda quando me viu. Seus olhos desceram pelo meu corpo, como se estivessem vendo o próprio diab'o.
O homem alto, de ombros largos e cabelos escuros, parecia o próprio deus Apolo, em toda a sua gloria. Ele pesou os olhos sobre mim em uma avaliação silenciosa. A tensão que se estabeleceu na sala foi palpável, pois ambos me fitavam na mesma intensidade.
O nome dele era Brian, ouvi claramente quando a mulher o chamou de forma sedutora e manhosa. Dando a conversa por encerrada, ele engoliu o espaço entre nós e parou diante de mim. Não sei como eu não cai.
- Por que demorou tanto? – perguntou erguendo o meu queixo com carinho, em um gesto simples e sutil, mas que quase fez meu coração parar. Logo em seguida, depositou um beijo suave nos meus lábios e me conduziu até o seu assento.
A loira, que o acompanhava, permaneceu estarrecida, de pé como uma estátua. Foi constrangedor notar a tristeza e resignação que se abateu sobre ela.
Sentando-se na cadeira vazia, ele me puxou pela cintura com gentileza, obrigando-me a sentar em seu colo. Meu rosto esquentou terrivelmente, a ponto de eu sentir as bochechas latejarem. As mulheres da mesa novamente me fitaram com visível nojo e desdém. O meu coração pulsava em mil batidas, não apenas por estar sentada no colo de um estranho, mas pela forma hostil com que aquelas mulheres me fitavam.
- Essa é minha última partida – ele anunciou umedecendo a boca com uma bebida que antes repousava sobre a mesa.
-Essas cartas estão viciadas... – reclamou o velho com uma carranca.
- Eu estou fora! – o homem mais próximo, sentado ao lado de uma mulher de pele preta e cabelos afros soltos, falou relaxando sobre a cadeira. Notei que ela e ele usavam alianças e isso foi suficiente para o meu pânico aumentar. Corri os olhos nos outros casais. Céus, aquelas mulheres eram esposas daqueles homens e certamente sabiam que eu era só uma “distração” remunerada. O velho devia ser o pai deles. Em uma linha de raciocínio rápida o quebra-cabeça foi tomando forma diante de mim.
Senti uma mão grande recobrir a minha. Brian avaliou minha mão com uma certa atenção, como se procurasse por algo, depois levou meus dedos aos lábios, em um beijo carinhoso e devastador.
- Estão cuidando bem de você? – ele perguntou de forma carinhosa, mantendo minha mão sobre a minha.
- Sim – foi a primeira vez que eu falei.
- Se algo não estiver do seu agrado, quero que me avise – exigiu, voltando sua atenção para a mesa.
- Não seja descarado, entregue as cartas a Louise – falou apontando para o homem com aparência de cinquenta anos.
- Não confia em mim? – a pergunta do homem foi respondida com uma gargalhada de Brian.
- Por favor Ken, já passamos desta fase – atirou em um tom zombeteiro – Não sou seus eleitores para me perder com suas ladainhas.
- Você é um cretino de sorte – respondeu o homem jogando o baralho na mesa – Eu também estou fora, já perdi demais hoje – falou ficando de pé ao lado da esposa ruiva. Secando o copo em um único gole, deu um abraço no velho e depois se despediu dos outros com um aceno.
- Não seja covarde – Brain pediu vendo dois dos três irmãos se levantarem e saírem.
- Não pense que vai escapar – ele apontou para o mais magro dos quatro.
- Não sou eu o queridinho do vovô – o homem sorriu entregando as cartas. A esposa ao lado mexia no celular, enquanto o celular de Brian vibrava próximo as minhas nádegas. Não queria imaginar coisas, mas o olhar atrevido da mulher, falou por si só.
- Veja isso? – o velho apontou uma carta – Está marcada – garantiu furioso.
- Tem razão vovô, precisamos trocar esse baralho, vou trazer outro amanhã.
- Você não. É capaz de já os comprar marcado – reclamou – mande ela comprar – apontou pra mim sisudo.
- Isso significa que estou liberado – ele tocou meu joelho direito, em um discreto pedido para que eu levantasse.
Se despedindo dos dois que haviam restado na mesa, ele apenas sinalizou com um aceno de cabeça discreto para a mulher do irmão. Alcançando minha mão, ele me conduziu para fora da mansão. Abrindo a porta de um lindo Porsche chumbo, ele aguardou que eu entrasse.