Capitulo 3

1371 Palavras
Lucas Albieri Meu irmão é um completo i****a. Não. Ele é um cafajeste completo. Tenho certeza disso porque passei a noite inteira esperando que, dessa vez, ele voltasse para casa. Que, dessa vez, ele ao menos tivesse um pingo de consideração por Hadassa. Mas Marcus fez exatamente o que eu temia. Ele ficou no escritório até tarde com Ana. Eu vi os dois saindo juntos. Vi quando ele a levou para o hotel mais caro da cidade, sem a menor discrição, como se não tivesse uma esposa esperando por ele. Como se Hady não existisse. O nojo que sinto por Marcus cresce a cada dia. Se eu fosse um pouco mais velho teria herdado o império da nossa família em seu lugar e consequentemente teria me casado com Hady. Ele só se casou com Hadassa porque eu estava viajando a negócios. Se eu estivesse aqui, se tivesse lutado por ela, nada disso teria acontecido. Ela não teria sido forçada a viver ao lado de um homem frio, incapaz de enxergar a mulher incrível que tem ao lado. Porque Hadassa Alecastro deveria ser minha desde sempre. Mas, ao invés disso, ela está lá, sozinha naquela casa enorme, esperando um homem que nunca vai amá-la. Droga. Eu passo a mão pelos cabelos, tentando acalmar a irritação que me consome. Não funciona. Nada funciona quando penso nela sofrendo por alguém que não merece nem um olhar seu. Pego as chaves do carro e, antes que minha consciência tente me impedir, já estou dirigindo em direção à casa dos dois. Fico lá por horas até que seja manhã e o sol me acorde. Minha mão aperta o volante com força, a mandíbula travada. Eu não sei o que exatamente vou fazer quando chegar lá, mas não consigo mais ficar parado, assistindo de longe. Hadassa merece mais. E eu posso ao menos tentar fazê-la perceber isso. Quando Hadassa abre a porta, a primeira coisa que noto são seus olhos. Vermelhos e inchados. Ela chorou. Por ele. Por aquele desgraçado bastardo que ousa se chamar de homem. Ele não foi decente o suficiente para vir para casa nem na manhã seguinte… Nem sequer para mandar um presente de desculpas. A raiva cresce dentro de mim, mas engulo seco, forçando um sorriso enquanto levanto a sacola de papel na minha mão. — Eu trouxe croissants. Seus favoritos. Hady pisca algumas vezes antes de dar um passo para trás, abrindo espaço para que eu entre. Ela está usando um roupão de seda azul-claro que m*l cobre o pijama também de seda azul-claro. Os cabelos dela estão presos em um coque desajeitado. Ainda assim, continua linda. Sempre foi. — Você não deveria estar aqui tão cedo — ela diz, a voz levemente rouca, provavelmente pelo choro. — Não consegui dormir direito. — Minto. A verdade é que não consegui parar de pensar nela e em como ela poderia estar se sentindo. Caminho até a cozinha como se fosse minha casa. Já estive aqui inúmeras vezes, mas sempre com a presença sufocante de Marcus entre nós. Hoje, a casa parece… vazia. — Ele não dormiu aqui, né? — A pergunta escapa antes que eu consiga segurá-la, — O Marcus, eu quero dizer. Hadassa fica tensa no mesmo instante. Eu percebo pelo jeito que suas mãos apertam as mangas do roupão, pelo jeito que ela evita olhar diretamente para mim. — Marcus teve uma reunião tarde e preferiu dormir fora — ela responde, tentando soar casual. Mentira. Eu sei onde ele esteve. Sei exatamente o que ele estava fazendo a noite inteira com aquela p**a que ele não assume. Meu estômago se revira, mas mantenho minha expressão controlada. Forço um tom leve enquanto coloco os croissants na mesa e abro a geladeira, — Tudo bem, não precisamos dele para estragar nosso café da manhã falando do babaca de terno. — digo ainda vasculhando as coisas para pegar um suco de maçã. — É cedo de mais. Você não deveria estar se arrumando para ir trabalhar ou algo assim? — ela resmunga indo até a mesa posta. — E você? — eu ignoro o resmungo e sento perto dela, — Comeu alguma coisa ou vai aceitar café da manhã de um homem muito mais charmoso que seu marido? Ela ri, mesmo que seja um riso fraco. Um riso que não chega aos olhos, mas me faz acreditar que estou indo pelo caminho certo. — Você se acha tanto, Lucas. — ela diz casualmente mordendo um dos croissants. — Só quando estou certo. — eu pego a jarra de suco de maçã e encho dois copos. Um gosto que temos em comum. Nos sentamos lado a lado, e enquanto ela leva mais um pedaço do croissant à boca, percebo o quanto parece exausta. Triste e distante. — Hady… — Minha voz sai mais baixa, mais cuidadosa. Ela levanta os olhos para mim, erguendo as sobrancelhas sem muita empolgação aparente em seu rosto, — Você está feliz? O silêncio que se instala entre nós é alto. Ensurdecedor. Ela desvia o olhar, mordendo o lábio inferior, como se procurasse a resposta certa. Mas não há resposta certa. A verdade está ali, nos olhos dela. E, dessa vez, eu não vou ignorá-la, — Você sabe que pode pedir minha ajuda sempre que precisar, não sabe? — ela suspira e continua me encarando, — Se você quiser romper o casamento eh estou mais que disposto a lhe dar o apoio necessário. Os olhos de Hadassa se expandem mais, e rapidamente retornam aquela expressão monótona e vazia de antes, — Eu farei isso em breve, mas por enquanto eu estou bem. A resposta de Hady me deixou surpreso. Ela vai se divorciar de Marcus? A xícara de café que eu segurava ficou esquecida na minha mão. Hadassa nunca tinha falado sobre se divorciar antes. Nunca. Nem quando eu sabia que Marcus a tratava como um fantoche sem vida, uma peça em seu jogo de poder. Mas agora... agora ela dizia que faria isso em breve. — Você está falando sério? — Minha voz saiu mais baixa, eu não precisava que nenhum dos empregados fizesse uma fofoca sobre esse assunto. Ela suspirou, mexendo o croissant com os dedos, sem realmente olhar para mim. — Estou. Só preciso resolver algumas coisas antes. "Algumas coisas." O que diabos Marcus fez dessa vez para irritá-la tanto?— Hady… se ele fez alguma coisa com você… — Não fez. — Ela me cortou rapidamente, — Estou lidando com o que eu deveria ter lidado há muito tempo. Minha mandíbula travou, e meu punho se fechou embaixo da mesa. O desgraçado pode não ter encostado nela, mas isso não significava que não a machucava de outras formas. Eu já sabia da traição, já sabia que Marcus passava mais tempo com Ana do que com a própria esposa, mas algo me dizia que não era apenas isso. — Você sabe que pode me contar tudo, não sabe? Ela ergueu os olhos para mim, e por um segundo, vi algo brilhar ali. Algo parecido com esperança. Mas então, como sempre, Hadassa guardou seus sentimentos para si e balançou a cabeça levemente. — Eu sei. Eu confio em você, mas eu quero fazer isso eu mesma. Eu queria empurrá-la, fazê-la falar, fazê-la confiar em mim da forma que eu confiava nela. Mas me forcei a esperar. Hadassa não era do tipo que se abria facilmente, e se eu quisesse ser seu apoio, precisava respeitar seu tempo. Puxei um longo gole do suco de maçã, tentando conter minha frustração em ao ser tão próximo dela assim, — Você tem um plano? — Ainda não. Mas... eu vou sair desse casamento. — Ela respirou fundo e soltou um sorriso fraco. — E quando isso acontecer, espero que ainda traga café da manhã para mim. Meu peito apertou, mas sorri de volta, me inclinando levemente para mais perto, — Hady, eu traria café da manhã para você todos os dias da minha vida se fosse preciso. Dessa vez, o sorriso dela foi um pouco mais verdadeiro. Pequeno, mas real. E foi o suficiente para me fazer querer destruir qualquer obstáculo que a impedisse de ser feliz. Mesmo que ela não me quisesse por perto. Eu faria Hadassa Alecastro feliz outra vez.
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