Letícia Narrando Meu dia na ONG começou cedo. Cedo demais pro turbilhão que tava a minha cabeça. Por mais que as lembranças da noite passada insistissem em me rondar, eu tava atolada de coisa pra fazer. Reunião, planilha, atendimento, ligação, não dava tempo de viajar muito. Na hora do lanche, dei uma pausa rápida pra um café. Fui pra copa e, claro, o assunto já tava rolando solto. — Menina, tu soube da surra que o Coringa deu no Cazuza? — uma falou, quase vibrando. Eu ri, sem conseguir segurar. — Soube. — Mereceu! — outra completou. — Devia ter apanhado mais, quebrado os dois braços. — Para com isso — falei, rindo, mas cortando. — Já passou. A Estela, voluntária novata, toda tímida, comentou: — Você é uma pessoa tão boa, não merecia um homem como aquele. Olhei pra ela e sorri.

